• Nelson Melo

Édipo Rei e a complexidade da investigação de um homicídio

Considerada por Aristóteles como o mais perfeito exemplo de tragédia no teatro grego, “Édipo Rei”, tradução de “Oidipous Týrannos”, é uma peça que faz parte da “trilogia tebana”, de Sófocles, que, para mim, é um dos mais eminentes intelectuais da História. O escritor foi um dos mestres de Sigmund Freud, que elaborou o conceito de “Complexo de Édipo”. Esse personagem da literatura era muito inteligente, tanto que decifrou, em um piscar de olhos, o enigma da Esfinge. Ele também se tornou um grande “investigador”, pois buscou todas as fontes para descobrir o assassino de Laio, homicídio que teria sido a causa de uma peste em Tebas, conforme o Oráculo de Delfos anunciou.



Édipo matou o próprio pai e depois se esforçou para descobrir quem era o autor do crime



Na peça de Sófocles, Laio, rei de Tebas, é informado pelo Oráculo de Delfos de que o seu próprio filho, Édipo, em algum momento o mataria e se casaria com a própria mãe, Jocasta. Antes que a profecia se realizasse, o líder tebano, com medo de perder o trono, pediu a um servo que levasse o bebê, com os pés amarrados, ao Monte Citerão, para que fosse morto por animais ferozes. Mas a criança sobrevive ao ser resgatada, sendo que é adotada por Políbio, rei de Corinto.


Já adulto, Édipo ouve a mesma profecia, do mesmo oráculo, de que mataria o seu pai e desposaria sua mãe. Pensando que seu genitor era Políbio, o rapaz foge da cidade, para evitar o assassinato. No caminho, ainda perturbado pela revelação de Delfos, ele se depara com uma comitiva, que enfrenta o garoto após uma discussão. No final do duelo, o jovem mata todos esses homens, exceto um, que corre e desaparece do lugar, em uma encruzilhada.

Sem saber, um dos mortos era Laio, seu pai biológico. Ao chegar a Tebas, Édipo encontra a Esfinge logo na entrada. O desafio, então, é lançado: “Qual é o ser que ao mesmo tempo é dípous, trípous, tétrapous?”. Sem pestanejar, o jovem responde: “Ánthropos”. Ou seja, o próprio ser humano. O “monstro”, que aterrorizava a cidade com seus enigmas, se joga em um precipício. Diante disto, após derrotar o oponente, o rapaz é aclamado como novo rei tebano.




Sófocles foi um intelectual de primeira linha que soube compreender a psicologia humana



Creonte, irmão de Jocasta, deu ao jovem o cargo de rei. Acontece que, após algum tempo, uma peste assolou Tebas. O Oráculo de Delfos anunciou que, para acabar com a praga, o autor da morte de Laio deveria ser identificado e capturado. O herói inicia, então, sua investigação, “Édipo pede ao coro símbolos, indícios, sinais parciais, até mesmo sintomas (todos traduções possíveis de sýmbolon) para que ele possa seguir a trilha da investigação, do conhecimento, em princípio, do assassino de Laio”, frisa Ana Vicentini de Azevedo em “Mito e Psicanálise”.


Investigação de homicídios


Assim como na literatura, uma investigação de homicídio não é fácil igualmente na vida real. Para quem está do lado de fora da situação, tudo parece simples: “rapidinho, eles descobrem isso aí” ou “o autor sempre fica no meio dos curiosos”. Esses pensamentos do senso comum não passam de chavões. Como repórter, acompanhei inúmeros casos de assassinatos na região metropolitana de São Luís/MA. Com propriedade afirmo: é algo complexo.


Quando envolve “tribunal do crime”, a investigação é mais complexa ainda, porque, geralmente, os autores não mostram seus rostos nos vídeos que gravam. Então, os policiais da Superintendência de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP) se guiam por outros parâmetros, como tatuagens e outros aspectos. Outra dificuldade é encaixar nessas mortes os líderes de facções criminosas, que, dependendo do fato, autorizam o julgamento clandestino, como o delegado George Marques enfatizou em uma conversa que tivemos na SHPP.



A SHPP é a superintendência especializada na investigação de homicídios no Maranhão



Não foi fácil para Édipo descobrir o verdadeiro assassino de Laio, ainda mais porque ele mesmo foi o autor do crime. Furar os próprios olhos não mudou em nada o que aconteceu, uma vez que os outros sentidos estavam funcionando normalmente. Quem “olha” é o cérebro. Foi por este motivo que Siegfried foi atingido em cheio pela canção de Sorento, em Cavaleiros dos Zodíacos, mesmo tendo furado os próprios tímpanos, para não ouvir a música do seu inimigo.


De igual modo, os investigadores encontram dificuldades na elucidação de um homicídio. Um dos empecilhos é a violação de local de crime, muito comum no Brasil, pois curiosos não podem ver um cadáver no chão que já se aproximam, batem fotos e ainda postam nas redes sociais. Enquanto sentem prazer em contemplar um corpo no asfalto, cães aproveitam o embalo da agitação e se deitam ao lado da vítima. Ali, o trabalho dos peritos criminais e dos policiais foi prejudicado.


A mesma pessoa que violou a cena do crime também critica a polícia pela demora na identificação e prisão dos suspeitos, como se não tivesse culpa pela morosidade da investigação. Fora isso, o ideal seria que as superintendências especializadas na apuração de homicídios tivessem uma estrutura maior, incluindo mais policiais envolvidos, para que ninguém fique sobrecarregado, o que pode influenciar no rendimento individual e coletivo.


Édipo pode ser considerado um dos primeiros investigadores ou detetives da Terra. O herói não morreu, porque o mito está na civilização. O Oráculo de Delfos pode ser, na vida real, um vestígio que, aparentemente, não teria ligação com o homicídio. Ou a própria intuição do policial. De qualquer forma, não seria estranho que uma ação para prender esses suspeitos fosse denominada de “Operação Sófocles”. Afinal de contas, o autor grego nos mostrou, a.C., que a origem pode ser o fim.

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© 2019 por Nelson Melo.