• Nelson Melo

A civilização precisa do instinto para progredir até nos combates

Na época do Orkut, recordo-me de, em várias ocasiões, ter debatido com um homem, que utilizava o pseudônimo de “Vinícius Sodré”, nas comunidades de Filosofia, Psicanálise e Mitologia. Muito inteligente, uma vez ele me falou que a civilização nunca existiu. Nessa minha pesquisa sobre as facções criminosas, finalmente percebi que aquela frase dele tem sentido. Estudando a psicologia do “homem vida loka”, como chamo o faccionado nas minhas abordagens, compreendo o quanto Sigmund Freud tinha razão ao proferir que, no auge do enamoramento, a fronteira entre o Eu e o objeto ameaça desaparecer.


Freud mencionou isso ao discorrer sobre o “Mal-estar na Civilização”, obra publicada em Viena (Áustria) no ano de 1930. “Normalmente nada nos é mais seguro do que o sentimento de nós mesmos, de nosso Eu. Este Eu nos aparece como autônomo, unitário, bem demarcado de tudo o mais”, frisou o “Pai da Psicanálise”. Mais adiante, ele destaca que essa aparência é enganosa, pois o Eu se prolonga para dentro, sem uma fronteira nítida, em uma instância inconsciente, que seria uma espécie de “fachada”.



Momento em que os mercenários eram atacados pelos "Outros" na ilha em "Lost"



O “homem vida loka” é um tipo de criminoso que se coloca à disposição da facção. O grupo é maior do que seus membros. A personalidade desse sujeito é fragmentada apenas no aspecto interno, pois, externamente, ele age de tal forma que a organização criminosa prevalece. Com a cerimônia de batismo, isso é mais evidente, uma vez que o novo integrante assina um “pacto de sangue”. Tudo o que ele fizer deve ser feito em nome do Bonde dos 40, Comando Vermelho (CV), Primeiro Comando da Capital (PCC) ou “Neutros”, no contexto maranhense.


Qualquer conduta desse faccionado é compreendida como uma missão. Afinal de contas, o criminoso jura lealdade ao grupo na cerimônia de batismo. O Eu já não tem mais valor, porque a ideia de facção é mais forte. Não importa o que você diga para tentar persuadi-lo de que não vale a pena essa vida. Ele já tem a convicção de que a única alternativa é ser bandido. Em uma ocasião, quando entrevistei um adolescente em uma “quebrada” da região metropolitana de São Luís/MA, o rapaz, que bateu no peito ao dizer que é “B.40”, me falou que eu estava perdendo tempo sendo jornalista.


A única autoridade que eles temem é a própria facção, que funciona como se fosse um “Superego”, pois o sentimento de culpa só existe no contexto de uma “quebrada”, onde o Estado é considerado “estranho”. Afinal de contas, o medo dos “tribunais do crime” é real. Por outro lado, a prisão/detenção não é motivo de preocupação, pois, nos presídios, os membros reencontram os “irmãos” nas celas. O mecanismo seria algo do tipo: uma civilização dentro de outra civilização.


Instinto e civilização nos combates


Na série “Lost”, um grupo de mercenários foi contratado pelo empresário Charles Widmore para capturar seu arqui-inimigo Benjamin Linus, líder dos “Outros”, em uma ilha “misteriosa”, que não aparece no atlas. Esses homens eram militares sanguinários, com experiências em guerras internacionais, sendo que o líder era Martin Keamy. O grupo, que levava armamento e equipamentos de primeiro mundo, chegou ao ambiente insular a bordo do cargueiro Kahana. Na embarcação, um contato de Linus estava infiltrado para sabotar a missão.



Os "Outros" utilizavam roupas precárias para impor medo nos "forasteiros" na série "Lost"



Apesar de serem treinados nas mais adversas condições, esses militares estavam em desvantagem por um detalhe muito importante: não conheciam o terreno. Eles ainda conseguiram avançar na ilha, sendo que mataram a filha de Benjamin Linus. Com a ajuda dos sobreviventes do voo Oceanic 815, os “hostis” atacaram o grupo de mercenários no meio da vegetação apenas utilizando táticas de guerrilhas e estratégias antigas de combate.

Mesmo com armas de fogo poderosas e técnicas de camuflagem no mato, os militares contratados por Widmore foram derrotados. A melhor luta ocorreu entre Keamy e Sayid Jarrah (sobrevivente do Oceanic que já tinha sido torturador no Exército Iraquiano). Os dois possuíam treinamento avançado em artes marciais. Mas quem matou Martin foi Linus, com diversas facadas no pescoço. Com esse resgate da série, quero dizer que a civilização (mercenários) perdeu para o instinto (“Outros) pelo fato de precisar do aspecto mítico para se sobressair.


Os “hostis”, na verdade, viviam em uma comunidade civilizada, com casas modernas, água encanada e energia elétrica dentro da ilha, que possuía um magnetismo peculiar. Quando o grupo saía para a floresta, colocava roupas sujas e precárias, com vários furos. Os “Outros” andavam descalços na vegetação. Era tudo um disfarce, para impor medo a quem chegasse ao local oriundo de naufrágios ou queda de aviões. Até as barbas dos homens eram postiças.



Os diálogos entre Benjamin Linus e Martin Keamy representam a civilização e instinto



Nas facções criminosas, a ideia de guerra urbana é muito forte. Porém, mais forte do que isso é a possibilidade de enriquecer. No alto escalão da organização, o lucro é visto como se o grupo fosse uma empresa. Para os adolescentes que vivem nas “quebradas”, o importante é participar dessa aventura de matar o “alemão”. Nos confrontos, a “barba postiça” é colocada, a fim de se igualar ao inimigo. O interessante nisso tudo é que também estamos em uma ilha.

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© 2019 por Nelson Melo.