• Nelson Melo

A conduta do bandido é transmitida a cada geração de novos criminosos

“(...) Pois se você não conhecer mitologia nunca entenderá os delírios de seus doentes, nem penetrará na significação das imagens que eles desenhem ou pintem. Os mitos são manifestações originais da estrutura básica da psique”. Esse trecho, do livro “Imagens do Inconsciente”, de Nise da Silveira, demonstra como os arquétipos são importantes para compreendermos o ser humano. Uma facção criminosa também entra nesse contexto, pois um comportamento é transmitido por meio da repetição. Existe uma relação entre o “cru” e o “cozido”, como diria o antropólogo Claude Lévi-Strauss.


Em “Jung – um caminhar pela psicologia analítica”, Sandra Regina Santos e demais colaboradores da obra frisam que o inconsciente apresenta duas camadas: o inconsciente coletivo e o inconsciente individual. Esta última é considerada a parte mais superficial dessa instância, sendo constituída de lembranças perdidas ou reprimidas, ou de percepções sensoriais que não ultrapassam o limiar da consciência por falta de intensidade da energia psíquica.





A camada mais profunda é o inconsciente coletivo, também conhecido como inconsciente suprapessoal. Nessa instância, estão contidas todas as predisposições do vir a ser do ser humano, na forma de arquétipos. Em outras palavras, é uma experiência multimilenar. Essas formas vazias são preenchidas pelas representações pessoais, a partir da vivência de cada sujeito. Nesse ponto, imagens primitivas ganham validade no aspecto coletivo. Por este motivo, temas corriqueiros nas lendas, na mitologia e no folclore se repetem na história.

Por exemplo: o herói é um personagem recorrente na literatura e no cinema. Apesar da mudança de nomes, a conduta é sempre a mesma.


O “Homem-Aranha” é uma cópia de outros protagonistas e será modelo para muitos. Com os vilões, acontece o mesmo processo. Como o mito está presente na estrutura narrativa das culturas de todo o mundo, o crime organizado entra nesse contexto, pois as imagens universais de lideranças de facções são reproduzidas em cada novo membro, cuja subjetividade é rodeada dessas influências.


Nesse cenário, surge a figura do “Robin Hood”, que é aquele bandido querido nas comunidades. É o faccionado que paga o corte de cabelo das crianças ou compra botijão de gás para a família que não tem condições financeiras. “Lelé do PCM” era uma dessas representações arquetípicas. Ele comandava a Vila Conceição, no Altos do Calhau, em São Luís. A morte dele foi “sentida” por vários moradores, mas somente por aqueles que eram ajudados pelo criminoso.


Al Capone, em outra realidade (norte-americana), distribuía sopas para a população carente. À imprensa, ele se apresentava como um homem de negócios. Mas era um dos chefes da máfia siciliana nos EUA. Essas lideranças se transformam em símbolos, palavra derivada do grego symbállon, que, originalmente, referia-se à parte quebrada de um dado ou qualquer outro objeto cuja superfície se encaixa perfeitamente ao outro fragmento. Ocorre uma interação entre o campo das ideias e o campo da realidade, de tal forma que o faccionado é percebido como sinônimo de força.





E mesmo em situações nas quais um líder “rasga a camisa” (migra para outra facção), o que assume o lugar dele mantém o arquétipo do herói para os demais do grupo, pois o que deixa a psicologia da massa intacta não é quem ocupa uma posição, mas, sim, a própria posição. Sai um chefe, entra outro. A ideia primitiva de comandar (e ser comandado) está diretamente relacionada ao poder. O que quero dizer é que o ser humano, independentemente se é bandido ou não, tem a necessidade mítica de uma liderança. Como nem todo mundo tem essa virtude de liderar, o ser humano espera alguém tomar a dianteira e conduzir os grupos.


As primeiras civilizações da Terra se ergueram nesse sentido. E a morte de um líder não alterou o futuro das comunidades, pois outra pessoa ocupava o lugar. Nas facções criminosas, a dinâmica é semelhante. Por isso que sempre digo nas minhas palestras que existe, sim, uma dimensão simbólica no crime organizado. E esse aspecto corre lado a lado com o aspecto financeiro.


Querendo ou não, a liderança das facções criminosas é um dos fatores preponderantes para que o grupo sobreviva no contexto urbano e nos presídios. Saindo um líder, a organização fica. E quando ninguém ocupa o vazio de poder, ou quando é ocupado por quem não sabe liderar, é quase certo que a facção desaparecerá, porque os comandados não terão o modelo que os sustenta psicologicamente.

0 visualização

© 2019 por Nelson Melo.