• Nelson Melo

A educação nos conduz para a ‘Barca do Inferno’ ou para a ‘Barca do Paraíso’

“A mãe sempre soube reconhecer o próprio filho. Já a paternidade só foi ‘descoberta’ com a história da agricultura, cerca de doze mil anos atrás. Antes, a gravidez era tida como dádiva divina”. O médico psiquiatra Içami Tiba descreve essa situação em seu livro “Disciplina – limite na medida certa”. Ao filosofar sobre a educação, ele destaca a importância da família para os bons modos de cada cidadão. Por este motivo, o autor frisa que as crianças precisam de maior atenção dos pais para que aprendam a ter prazer em cada etapa realizada. Uma educação de qualidade reduz as chances de que alguém deseje entrar na “Barca do Inferno”.


Gil Vicente nos mostrou que existem duas barcas: a do Inferno e a do Paraíso



A família é a primeira instituição da vida, por assim dizer. Antes de ser aluno, um sujeito é filho. A educação é uma tarefa que não é fácil. Quando realizada com amor, dedicação, comprometimento e carinho, produz bons frutos. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, é algo complexo, uma vez que o ser humano nasce “cru” e se transforma em “cozido”. Isto significa que nossos valores, crenças, dúvidas e convicções são assimilados e filtrados no decorrer das fases biológicas, que ocorrem concomitantemente às fases sociológicas.


Freud disse que é quase impossível conciliar as exigências do instinto com as da civilização. Ele comparou a fase infantil com a fase adulta. A nossa natureza instintiva é o mito, ou seja, aquilo que nossa mente contém de mais “pré-histórico” com relação às emoções. Nesse ponto, eu colocaria as seguintes questões: o medo de ser atingido por uma flecha é o mesmo de ser atingido por um projétil? De uma época antiga para os tempos atuais houve alguma mudança no terreno do inconsciente? Ou as modificações foram apenas na instância consciente?


Içami Tiba destaca que educar uma criança é também ensiná-la a administrar o seu tempo para cada atividade. “Fazer algo, mesmo de que não goste, ou seja, fazer por obrigação, por dever, é algo que a criança precisa também aprender”, destaca o médico psiquiatra. O autor comenta que, nesse sentido, é importante que os pais não façam tudo pelos filhos, pois a autoconfiança e autoestima precisam ser estimuladas. As crianças observarão o que conseguiram fazer sozinha e ficarão contentes, tendo em vista que realizaram com seus próprios esforços.


O médico psiquiatra enfatiza que o que caracteriza a autoestima é a capacidade de gostar de si mesmo por conseguir realizar suas vontades e necessidades. Isso é muito importante para formar adultos capazes de lidar com as frustrações do “mundo real”. As pessoas precisam ter noções de padrões de comportamento e limites. É extremamente perigoso oferecer aos filhos mais direitos do que deveres, pois eles podem crescer com a ideia de que a liberdade está à frente da responsabilidade.


A educação


A palavra educação vem do latim educare (educere), que significa, etimologicamente, conduzir para fora. Na prática, o entendimento é o seguinte: preparar as pessoas para o mundo, para a realidade, que não é um conto de fadas. O ambiente externo é repleto de perigos, de tentações, de insinuações. Por outro lado, contém a esperança, a compaixão, o companheirismo, a fraternidade. É um “Yin Yang”, no qual o “Tigre” e o “Dragão” se enfrentam o tempo todo.


De acordo com John Dewey, a educação poderia ser conceituada como o processo pelo qual se formam as disposições essenciais do ser humano, tanto emocionais como intelectuais. Como propôs Sócrates, as pessoas precisam se colocar no centro de suas próprias decisões, opiniões, atitudes, pensamentos. Nesse cenário, a diferença entre virtude e vício passa pela forma como somos conduzidos na infância e adolescência.


O cuidado é fundamental para que alguém não tenha uma percepção fragmentada de si mesmo. Se os valores não forem transmitidos com firmeza, de maneira contextualizada, o ambiente externo ao lar poderá ser mais atrativo à criança ou ao jovem no sentido de satisfazer suas necessidades e desejos. O crime organizado, então, vencerá essa disputa. Por outro lado, nota-se que, apesar de ter recebido uma educação baseada em um projeto pedagógico de primeira linha, o sujeito, mesmo assim, desvia para estradas tortuosas.


Isso acontece mais por questões referentes à personalidade do sujeito, isto é, a quem ele se tornou independentemente do que compreendeu como certo e errado. Ele pode mudar de ambiente, mas continuará levando consigo seus vícios, a não ser que passe sete anos no Tibet, como aconteceu com o alpinista Heinrich Harrer, que sofreu uma transformação abrangente ao concluir que suas convicções eram completamente influenciadas por suas emoções.



Os sete anos no Tibet foram importantes para a transformação do alpinista Heinrich Harrer



No final, a decisão sempre é nossa, pois não existe liberdade sem responsabilidade. Cada escolha nos leva para “Barca do Inferno” ou para a “Barca do Paraíso”. Não é Gil Vicente quem decide isso.

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© 2019 por Nelson Melo.