• Nelson Melo

A estimativa do intervalo pós-morte e origem das drogas pela Entomologia Forense

A Entomologia Forense é a ciência que se dedica ao estudo dos insetos como ferramenta auxiliar da investigação criminal. Por meio desse recurso, é possível determinar a estimativa do tempo decorrido após a morte, que é conhecido como intervalo pós-morte (IPM). Também é utilizada na descoberta da origem de entorpecentes, como maconha, por exemplo, quando há a presença de insetos. É uma área muito interessante, que exige, assim como em todas as situações de crime, um isolamento da cena, para que os vestígios não sejam arrastados pelos curiosos.



Eu e o perito criminal Pablo Francez mostrando os dois livros lançados pelo entrevistado



Há quase 18 anos atuando na Perícia Criminal do Estado do Amapá, o professor Pablo Abdon da Costa Francez, natural do Pará e um dos fundadores do Instituto Nacional de Perícias e Ciências Forenses (Infor), concedeu entrevista para o meu site. Autor de livros, com participação em capítulos de outros, o perito criminal explicou que, resumidamente, Entomologia Forense utiliza os insetos para auxiliar nas questões jurídicas, tanto da perspectiva morfológica como ecológica.


“É muito utilizada para estimativa de intervalo pós-morte, mas há outras aplicações, como na área da entomologia médico-legal, entomologia urbana e entomologia de produtos estocados”, comentou o professor Pablo Francez. Conforme o entrevistado, em uma situação, poderia ocorrer a coleta de um inseto hematófago, que se alimenta de sangue, para a identificação de algum suspeito, com base no DNA presente naquele material que foi analisado pelos peritos criminais.


“No caso de sequestro, em um local restrito, por exemplo, onde algumas pessoas passaram ali. Se esse inseto picar uma pessoa ali, e o material for deixado, poderia ser usado para exame de DNA”, pontuou o perito criminal, com quem conversei no Instituto Nacional de Perícias e Ciências Forenses (Infor/MA), na Rua do Outeiro, Centro de São Luís/MA, onde fiz minha pós-graduação em Perícia Criminal. A entrevista, inclusive, aconteceu momentos antes do início da aula dele no módulo de Entomologia Forense.



A Entomologia Forense analisa os insetos para estimar o intervalo pós-morte da vítima




De acordo com Francez, há trabalhos feitos em casos de estupro, de vítimas que morreram, que indicaram a presença de insetos, em determinadas regiões do cadáver. Esses animais se alimentaram do sêmen do suspeito deixado no corpo. “Foi possível fazer exame de DNA e obter um perfil desse criminoso”, assinalou o professor.


Outras aplicações


A principal aplicação da Entomologia Forense é, sem sombra de dúvidas, na determinação do tempo em que alguém morreu. Costuma-se falar que os insetos são uma das primeiras testemunhas do crime. Com olfato muito desenvolvido, eles rapidamente se aproximam do cadáver e o colonizam. “Por isso a importância de preservar o local, cujos vestígios serão fundamentais para a elucidação da dinâmica do fato, bem como da autoria. Identificando a fase do desenvolvimento do inseto encontrado, poderemos saber o tempo de morte aproximado da vítima”, esclareceu o professor Pablo Francez.


Além disso, por meio da Entomologia Forense, é possível dizer se um ambiente é ou não higiênico, pois existem locais onde não deveria haver insetos. Isso pode acontecer em asilos, hospitais, creches ou escolas. Até mesmo no crime de tráfico de entorpecentes, esta ciência auxilia na investigação policial. “A maconha, por exemplo, que vem na forma prensada. Junto com as folhas, podem aparecer insetos. Dá para descobrirmos de qual lugar essa droga veio, como Paraguai, Bolívia, ou até mesmo de estados brasileiros”, enfatizou o entrevistado.


Carreira do perito


Pablo Francez é conhecido internacionalmente por seus trabalhos na Ciência Forense. Formado em Biologia, ele tem mestrado e doutorado em Genética e Biologia Molecular, com algumas especializações. Na literatura, o professor participou, primeiramente, de um capítulo no livro “Introdução às Ciências Forenses”, de Jesus Antonio Velho. Depois, foi convidado para mais um capítulo sobre Entomologia do Norte na obra “Insetos ‘Peritos’ – a Entomologia Forense no Brasil”, de Janyra Oliveira.



Este livro que foi lançado por Pablo Francez é sucesso no Brasil e no exterior



Na sequência, Pablo Francez participou de outro livro, com o Rodrigo Grazinoli, também sobre Ciências Forenses, em um capítulo sobre Tricologia e Entomologia Forense. Em 2016, o perito criminal lançou, juntamente com Claudemir Rodrigues Dias Filho, o livro “Introdução à Biologia Forense”, que teve a participação de outros profissionais da área nos capítulos.


Já em 2019, Pablo Francez lançou a obra “Introdução à Genética Forense”, durante o Congresso Brasileiro de Criminalística. Este livro foi organizado juntamente com outros quatro profissionais forenses, que são Claudemir Rodrigues, Eduardo Leal, Marcelo Malaghini e Rodrigo Grazinoli. “Esses dois últimos livros que citei foram inéditos com essa temática em Língua Portuguesa”, ressaltou o entrevistado.

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© 2019 por Nelson Melo.