• Nelson Melo

A filosofia dos poemas de Rogério Rocha: finito é tudo que há

O Universo pode ser observado numa casca de noz ou na camada atmosférica de um planeta. A percepção vai depender de aspectos metafóricos e científicos, mas o debate não pode ser realizado sem a presença da Filosofia, cujos representantes também se ocuparam da análise dos eventos cósmicos. Para Immanuel Kant, o acaso não era a regra no espaçotempo, mas sim a ordem. Nessa perspectiva, um ponto interessante é a transitoriedade. Segundo o poeta Rogério Henrique Castro Rocha, finito é tudo que há. O autor desse pensamento é membro da Livraria e Espaço Cultural AMEI (Associação Maranhense de Escritores Independentes), situada na capital maranhense, no São Luís Shopping.

O poeta maranhense Rogério Rocha é membro associado da Livraria e Espaço Cultural AMEI


“Finito é tudo que há”. Esse trecho está registrado em um dos textos de Rogério Rocha, na coletânea “Novos poetas maranhenses”. O autor, que é pós-graduado em Direito Constitucional pela Universidade Anhanguera e mestre em Criminologia pela Universidade Fernando Pessoa (em Portugal), reforça, naquela afirmação, que, devido a essa característica efêmera, os momentos devem ser aproveitados com a máxima intensidade e sinceridade. Às vezes, nós ficamos desorientados com relação ao perdão, sendo que nos esquecemos de pensar sobre o caso em virtude de sentimentos negativos.

Se as coisas são finitas, significa que tudo passa, como Rogério Rocha expressa no poema. As nossas experiências produzem sentido àquilo que fazemos. Nesse contexto, não há valor irrisório quando a sensação de pertencimento ao ambiente é maior do que o medo do fracasso ou a vontade de rejeitar. As limitações estão cá e não lá. Em outras palavras, viver sem metas e valores é o caminho mais rápido para a frustração. Reconhecer que existe o fim é o começo da sabedoria. E essa aceitação não tem nada a ver com idade. Na verdade, está mais relacionada à maturidade.

No começo do poema, Rogério fala sobre o “meu bairro”, que não existe mais. Apenas as “tímidas memórias” sustentam as imagens passadas. Em seguida, comenta sobre os amiguinhos perdidos. “Só há agora juízos funestos e sambas ineptos de carnavais esquecidos. Agora comigo apenas o peso da idade, a força do havido, inclemente o tempo, imperdoáveis os seus feitos e não feitos”. Nesse trecho, o membro da Livraria AMEI resgata, novamente, as lembranças, apesar de frisar o momento presente, que sempre eterniza o que as nossas escolhas realizam, conscientemente ou inconscientemente.


A finitude pode representar a infinitude no contexto psicológico porque existem as lembranças


Dizer “adeus”, dentro desse cenário temporário, pode representar o estreitamento de laços afetivos ou o rompimento de experiências emocionais. A precipitação teria dois sentidos, sendo um deles letal. Quem cai no fundo do poço tem poucas chances de escapar ileso. Na melhor das hipóteses, pode ser resgatado pela própria esperança personalizada, que seria o “id” protegido pela camada do ego. Imaginar que tudo é infinito não é saudável para a nossa mente, sobretudo quando a referência são fatores concretos. Isso tem mais validade quando a ênfase está no pessimismo ou em crenças nocivas.

Sentimentos bons podem ser compreendidos como infinitos quando ultrapassam a barreira do egoísmo. Mas, apesar de tudo, quem sente é finito. Não há nada mais glorioso do que termos consciência de que somos mais fortes do que as ideias padronizadas sobre a condição humana. A mentira pode ser o começo da decadência moral a partir do momento em que o sujeito a vivencia como autêntica. Não existe mais o perigo de sermos aniquilados no campo do instinto, porque a natureza continuará intacta mesmo com o desaparecimento do Homo sapiens da Terra, lugar de conflitos históricos entre o mito e a realidade. Esses combates sempre terminam empatados, tendo em vista que as duas instâncias nunca foram inimigas.

Somos uma vitória no meio de um fracasso. Individualmente, cada um de nós deixa registrado na História suas realizações, mesmo sem a presença da fama. A memória não precisa de holofotes para funcionar. A biologia é anterior à sociologia. E, assim, construímos um mundo de pluralidades, sempre fundamentados na ideia de que a finitude é o melhor atalho para a eternidade.

A morte é um fato que exclui o corpo mas não elimina a coletividade multiplicadora

30 visualizações1 comentário

© 2019 por Nelson Melo.