• Nelson Melo

A hipótese do matemático Poincaré no contexto da criminalidade urbana

No mesmo nível de interesse pela Psicanálise, Criminologia e Filosofia, a Astrofísica é um dos ramos que despertam minha curiosidade. Desde a época da faculdade de Comunicação Social, quando nem sonhava que seria jornalista, eu compro livros sobre espaçotempo, campo gravitacional, pulsares, galáxias, cometas, buracos negros, enfim. Em tudo o que leio, tento observar uma conexão com minha pesquisa sobre o crime organizado. Se Albert Einstein não tivesse lido bastante sobre as abordagens dos filósofos Arthur Schopenhauer e Immanuel Kant, talvez não teria despertado sua intuição. Eu gosto disso: puxar assunto de outra área para a nossa especialidade.



O ser humano deve criar sua própria bagagem intelectual para vencer a ignorância



Nos anos 1920, o astrônomo norte-americano Edwin Hubble confirmou que o matemático soviético Alexander Friedmann (com quem Einstein protagonizou um debate na revista Zeitschrift fur Physik acerca da curvatura do espaço) tinha razão: o Universo, de fato, estava em expansão. Nesse sentido, ele verificou que as galáxias estavam se afastando a uma velocidade crescente, ao medir o deslocamento para o vermelho nas linhas espectrais desses agrupamentos de corpos celestes. O padre Georges-Henri Édouard Lemaître também concluiu acerca disso em trabalho paralelo.


A nossa mente precisa seguir o mesmo movimento e também se expandir, mas por meio da aproximação das ideias. Para observarmos como isso funciona, não precisamos de um telescópio. Basta olharmos para os prédios, os carros, as ruas, os postes de iluminação pública, os aviões, as feiras, os supermercados, as roupas, os sapatos, os celulares ou as clínicas veterinárias. O progresso das civilizações foi o resultado do conhecimento produzido e compartilhado, em uma realidade fragmentada pelas fronteiras entre países.


O desenvolvimento das coisas acontece de forma tão natural que, às vezes, nem percebemos. Schopenhauer teceu comentários sobre essa questão com relação ao mundo como vontade e representação. O “véu de Maia” ilude nossos sentidos. Um bebê nasce e, quando a criança cresce e começa a andar, o tempo parece que “passou rápido”. Quando jogamos uma pedra do alto de um edifício, da nossa posição compreendemos que caiu em linha reta. Mas, como a Terra se move, o objeto se desloca em uma curva.


Experiência imaginária


A consciência nos confunde muito. O tempo e a distância não são valores absolutos. A posição do observador faz toda a diferença nesse cenário. Não à toa Einstein disse, em 1905, que um relógio colocado no Equador funcionará de maneira imperceptivelmente mais lenta que um relógio colocado em um dos polos da Terra. O matemático francês Henri Poincaré, ao teorizar sobre a relatividade, contextualizou o ser humano na seguinte situação hipotética: em uma noite, todos nós estamos dormindo. Quando acordamos, todos os objetos terrestres e os corpos celestes aumentaram de tamanho. Até nós mesmos, a cama, o quarto, tudo sofreu essa transformação.



A velocidade das ideias mantém nossa mente o tempo todo jovem em qualquer situação



Para o matemático, ninguém ficaria assustado, porque seria como se a realidade não tivesse sido modificada, uma vez que tudo, sem exceção, teve seu tamanho aumentado. A consciência não seria capaz de detectar essa transformação. O cérebro precisaria de um parâmetro para comparar as duas circunstâncias, ou seja, o passado e o presente. Mas todos nós viveríamos sem espanto algum, diferentemente de quem viu o caixeiro-viajante Gregor Samsa na forma de um inseto monstruoso.


Na obra de Franz Kafka, Gregor, apesar da metamorfose, ainda mantém a preocupação de chegar atrasado ao trabalho. A experiência do matemático Poincaré parece se encaixar perfeitamente na realidade de insegurança pública. A criminalidade no Brasil está tão avançada que a população age como se já fizesse parte da nossa cultura. O sujeito acorda e dorme como se a violência não tivesse aumentado e como se nada mais pudesse ser feito para amenizar isso tudo.


Facções criminosas surgem e outras desaparecem nesse contexto aparentemente estático. O brasileiro já não “sente” as mudanças. Quando observa no noticiário sobre confronto entre bandidos e fuga de presídios, o primeiro pensamento do sujeito é: “normal”. Mas, como, em Cosmologia, tudo depende da posição do observador, podemos dizer que, para quem está um passo à frente daquela pessoa que considera o “tribunal do crime” válido, as modificações existem, mesmo que imperceptíveis.




A violência é considerada normal para muitos brasileiros na experiência de Poincaré



Por este motivo, sou contra qualquer governo que engana a população, ao mostrar que “está tudo bem” e que “está tudo sob controle”. A verdade é que não está. Os faccionados continuam transformando os presídios em “escritórios”. O bandido faz tomada de comunidade na hora que quiser, não importando se é sob chuva ou sol. A corrupção, câncer mundial, continua favorecendo as organizações criminosas, como aconteceu recentemente no Paraguai, naquela fuga em massa de membros do Primeiro Comando da Capital (PCC).


Então, se você acordar, em um belo dia, e perceber que a cama está maior ou que a porta do quarto está menor, não coloque a culpa na Teoria da Relatividade. Se você mudar de posição, verificará que tudo voltará ao seu tamanho original. A ilusão do conhecimento e a ignorância são inimigos da verdade. Construa sua própria bagagem intelectual e descubra que a velocidade das suas ideias manterá sua mente o tempo todo jovem.

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© 2019 por Nelson Melo.