• Nelson Melo

A importância da Criminologia no estudo da conduta do faccionado

Em qualquer pesquisa, a leitura é uma ferramenta essencial para as conclusões acerca de questionamentos elaborados sobre um assunto. Na área criminal, essa realidade não é diferente. Quando o objeto de estudo é o crime organizado, o máximo de informações colhidas representa a entrada nos Campos Elíseos. Para compreender a conduta do faccionado, a Criminologia se torna uma peça fundamental, pois contém recursos importantes para essa problemática.


Criminologia, etimologicamente, significa estudo do crime, uma vez que “crimino” é crime, e “logos” é estudo. É uma ciência do ser, enquanto o Direito Penal é do dever ser. De acordo com Jean Merquiset, Criminologia é o estudo do crime como fenômeno social e individual e de suas causas e prevenção. Esta ciência analisa o mundo real, ou seja, os fatos concretos. Em outras palavras, os aspectos psicológicos e sociais do delinquente são explorados pelo pesquisador.


Por utilizar o método indutivo, diferentemente do Direito Penal, que se vale do método dedutivo, a Criminologia compreende um fato por meio da experimentação e análise. É algo muito abrangente, que oferece um leque de explicações para um fenômeno. O objetivo não é repressivo, no sentido de estabelecer punições para uma conduta. O crime, nesse contexto, não é um ente jurídico. O pesquisador quer compreender o criminoso em suas múltiplas facetas.


Por ser uma ciência empírica e interdisciplinar, eu a utilizo na minha pesquisa sobre as facções criminosas no Maranhão. Como frisa Natacha Alves de Oliveira, a Criminologia se baseia na experiência e na observação da realidade dos fatos, tendo em vista que seu objeto de estudo (crime, criminoso, vítima e controle social) se situa no plano da realidade. Isto é, se distancia do plano dos valores. Essa ferramenta, para mim, é fundamental para a compreensão do comportamento criminoso, mas o meu foco é o faccionado.


Estou explorando o tema da psicologia do faccionado no meu terceiro livro da quadrilogia “guerra urbana”, que pretendo lançar neste ano ainda. O meu objetivo é traçar um perfil criminal do “homem vida loka”. O meu interesse por esse estudo específico teve como influência o livro “Por dentro das mentes assassinas: a história dos perfis criminosos”, de Paul Roland. Essa técnica de traçar perfis é muito utilizada pelo Federal Bureau of Investigation (FBI), sendo que os resultados são surpreendentes e eficazes. A Psicanálise é a minha grande base teórica para essa investigação acerca da personalidade dos integrantes de organizações criminosas.





O psicanalista Walter C. Langer, por exemplo, traçou um perfil criminal de Adolf Hitler durante a primavera de 1943 para o United States Office of Strategic Services, que se tornou, anos depois, a CIA. A análise dele, na minha opinião, foi uma das mais brilhantes desse maravilhoso mundo que a Criminologia nos possibilita, por ser interdisciplinar. O pesquisador recolhe o máximo de dados que obtém sobre o faccionado e os interpreta a partir de suas observações e leituras.


Nas décadas de 1940 e 1950, a figura do psiquiatra James Brussel se destacou nesse ramo de traçar perfis criminais. Ele reuniu Criminalística e Criminologia como ninguém, pois estudava as cenas de crimes para determinar a personalidade dos autores de delitos. A esperteza também faz parte desse jogo. O ex-agente especial do FBI John Douglas, que se tornou o primeiro criador de perfis em tempo integral do Federal Bureau of Investigation, aprendeu bastante sobre a conduta criminosa quando conversava, informalmente, com bandidos que haviam acabado de ser presos.


Como repórter, eu aprendi muito sobre os faccionados por esse caminho trilhado por Douglas. Nas delegacias, quando fazia coberturas de prisões, eu aproveitava para conversar com os conduzidos. Mas eu puxava assunto sem passar a impressão de que sou jornalista. Eu agia de tal forma que o diálogo se transformava em um bate-papo. Esta é uma maneira de obter informações sem pressionar o interlocutor. Se o emissor for percebido como inconveniente, chato ou polêmico, as chances da retroalimentação são mínimas.


Portanto, estudar o criminoso é uma tarefa difícil, porque exige paciência, persistência e dedicação. O “mundo em mim” não é mais importante nesse processo. A “coisa em si” é o fator relevante, em sentido kantiano. Nesse tipo de pesquisa que faço, eu me considero um criminólogo, pois as múltiplas ciências disponíveis para as abordagens são a “carta na manga” para a descoberta das profundezas da psicologia do faccionado.

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© 2019 por Nelson Melo.