• Nelson Melo

A presença de um combatente francês do século XVII na capital maranhense

Em setembro de 2018, o pesquisador, turismólogo e escritor Antonio Noberto lançou o “Mapa da França Equinocial”, que foi desenhado pelo artista plástico Terciano Torres, durante uma palestra na Livraria e Espaço Cultural AMEI (Associação Maranhense de Escritores Independentes), no São Luís Shopping, na capital maranhense. O documento descreve em imagens a presença e ocupação francesa no Brasil setentrional, nos séculos XVI e XVII. Mas ninguém imaginava que hoje um homem daquela época, provavelmente um combatente francês, conseguiria viajar no tempo e avançar até São Luís atual, que está completando 408 anos.




O informante me falou que o desconhecido vestia roupas antigas e portava armas primitivas


O "viajante do tempo" foi visto pela última vez na noite de ontem (6), quando estava sentado num banco da Praça Pedro II, marco zero de São Luís em relação à fundação da cidade. Um morador em situação de rua me falou que o provável combatente francês, que trajava vestimentas típicas do século XVII, estava cabisbaixo, como se estivesse pensando em algo que o incomodava psicologicamente. Pessoas que passavam pelo local não se importavam com ele. Talvez, porque imaginaram se tratar de algum ator que interpretava um personagem típico da França Equinocial. Isso é até compreensível por um lado quando levamos em consideração o clima de comemoração do aniversário da capital maranhense ou as características da região do Centro Histórico.



Eu, realmente, queria tê-lo visto. Fiquei curioso, de verdade. Inicialmente, também não levei o caso a sério. Mas isso mudou depois que soube, por meio de informações de um contato que me ajuda na pesquisa sobre facções criminosas, que o desconhecido estava com uma grande arma branca embainhada. A minha fonte não conseguiu discernir o objeto, mas seria uma espada. E também portava uma arma de fogo de cano longo, que parecia uma espingarda. “Por um momento, o cara se levantou e ficou observando o busto de Daniel de La Touche. Ele ficou vários minutos olhando. Achei estranho demais aquilo”, disse o meu “olheiro”.



O meu contato estava na região do Centro Histórico para bater a foto de uma pichação feita pelo Bonde dos 40 na Praça Nauro Machado. Ele conseguiu registrar a inscrição do “proibido roubar na quebrada” antes de encontrar o “estranho” caminhando pela Praça Benedito Leite em direção à Praça Pedro II. Pesquisei alguns textos de Noberto sobre a França Equinocial para tentar descobrir algo sobre a presença daquele homem em São Luís. Nas leituras, apurei que os franceses do século XVII utilizavam armas do tipo arcabuz, mosquetes de um tiro, pistolet e espadas nas batalhas, além de lanças e flechas, juntamente com os nativos.





O "viajante do tempo" ficou observando o busto de Daniel de La Touche na Praça Pedro II


Os textos escritos pelo meu amigo Antonio Noberto, um dos grandes pesquisadores da história de São Luís, possibilitaram que eu construísse uma linha de raciocínio referente à Linha do Equador, já que estamos falando do Brasil setentrional. Entrei em contato pelo WhatsApp com o historiador Antonio Guimarães de Oliveira, que me falou que, naquela época, os franceses carregavam o mosquete pela boca, sendo que a arma primitiva era conhecida como “mosquetão”. Então, fiquei mais convicto de que, provavelmente, o “estranho” era alguém que, de alguma forma, viajou no tempo e parou aqui no século XXI.


Infelizmente, não tenho como provar minha dedução. O fato é que o meu contato seguiu os passos do desconhecido, que, na minha opinião, era, sim, um combatente da expedição de Daniel de La Touche, Seigneur de la Ravardière, que saiu de Cancale, na Bretanha, nas embarcações "La Regente", "La Charlotte" e "La Saint-Anne", o que marcou o início da França Equinocial no Brasil. Em 8 de setembro de 1612, inclusive, a “Upaon-Açu” estava oficializada, após a construção de uma fortificação que contou com a colaboração dos nativos.



O pesquisador Antonio Noberto exibindo o "Mapa da França Equinocial" em São Luís/MA



Ficção e realidade



Posso estar enganado, claro. Porém, não deixa de ser uma possibilidade. A viagem no tempo ainda não é possível, pelo menos no campo científico. Na imaginação, podemos fazer isso tranquilamente. A literatura nos permite essas “alucinações”. Na minha crônica sobre a presença do francês do século XVII na capital maranhense, como tutor das palavras que escrevi neste texto, idealizei esse cenário em prol da ficção. A realidade já é cruel em alguns pontos. Por esse motivo, nada mais prazeroso do que criar um enredo que ative nossos personagens arquetípicos, que estão nas profundezas da psique há muito tempo, antes mesmo da famosa Batalha de Guaxenduba.


Escrevi esta crônica em homenagem a São Luís, que nunca envelhece porque seu passado está sempre presente. O futuro também não ficará livre dos acontecimentos pretéritos. Nesses 408 anos de história, a cidade onde moro passou por batalhas no campo moral, intelectual, militar e estatal. Atualmente, predomina a guerra entre facções criminosas em substituição aos conflitos entre franceses e portugueses. A “Upaon-Açu” não é apenas um nome tupinambá. A ideia permanece porque ninguém pode esconder por muito tempo o que de fato aconteceu.


Parabéns, São Luís!



Agora, vejam as fotos de São Luís batidas pelo grande repórter fotográfico Gilson Ferreira, do Jornal Pequeno.










43 visualizações

© 2019 por Nelson Melo.