• Nelson Melo

A propaganda da guerra confunde as razões para matar com as razões para viver

Depois de Albert Camus e Arthur Schopenhauer, um dos filósofos que mais admiro é Nicolau Maquiavel, que nasceu em Florença (Itália) em 1469 e faleceu em 1527. Intelectual, ele era um grande observador e leitor, duas condições que considero fundamentais para qualquer pesquisador. Sua obra “O Príncipe” é um manual de marketing político. O publicitário e professor universitário José Nivaldo Júnior é um dos estudiosos do filósofo. Em seu livro “Maquiavel – o poder: história e marketing”, ele faz análises que podem ser utilizadas no contexto das facções criminosas.


Eu tenho, na minha biblioteca, tanto o livro de José Nivaldo, como “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel. No Capítulo 10 da obra do publicitário, intitulado “Ideologia da Morte”, ele faz uma abordagem muito interessante. “A propaganda da guerra confunde as razões para matar com as razões para viver”, diz o autor. O foco dele são as guerras internacionais, tanto que menciona a Segunda Guerra Mundial. Júnior enfatiza o papel da guerra ideológica, travada por meio da propaganda de um dos contendores.



A propaganda da morte cumpre seu papel ao transformar uma missão em aventura



Esta guerra ideológica, como se expressa o professor universitário, “é fundamental, na medida em que assegura aos combatentes a necessária coesão ideológica e convence parte do povo a destruir e aceitar a destruição, a matar e, eventualmente, se deixar morrer”. José Nivaldo, nesse ponto, tece comentários acerca dos kamikazes e dos soldados do Sol Nascente, que se infiltravam nas linhas norte-americanas por meio de equipes suicidas que alcançavam as baterias inimigas e as destruíam com o sacrifício das próprias vidas.


Relendo essa obra de José Nivaldo Júnior, que comprei em 2009, percebi que suas análises estão muito próximas da realidade maranhense, onde facções criminosas se enfrentam direto em disputas por territórios, provocações e outros fatores. Essas organizações não encontram nenhuma dificuldade para recrutar jovens para suas fileiras. Por quê? Ora, porque o contexto é caótico em todos os sentidos: escolar, comunitário, familiar, político, segurança pública, saneamento básico, saúde e outros. A morte de bandidos nessa “vida loka” em nada intimida os demais para ingressarem nesses grupos.


No Oriente Médio, o combatente que é escolhido para ser “homem-bomba” até comemora. Mesmo tendo a certeza de que não terá nenhuma chance de sobreviver ao apertar o cinturão de explosivos, o sujeito não se importa porque observa aquilo como uma missão em nome do grupo. Nas facções criminosas, ninguém se explode, mas a psicologia é similar quando os criminosos entram em um carro para atacar o rival ou praticar algum assalto.


Até mesmo os adolescentes sabem que podem morrer nesse percurso, mas eles ficam eufóricos no interior do veículo porque também encaram aquilo como uma missão em nome da facção. Matar o “alemão” é a única coisa que se move no cérebro deles não apenas naquele instante, como em quase toda sua rotina diária, até nos sonhos. A ideia de rivalidade é muito forte no crime organizado. Eu garanto que não é nada inventado. Na pesquisa de campo, confirmei isso. O inimigo representa o demônio. Por este motivo, as “dívidas de sangue” são cobradas dentro e fora dos presídios.


“Ideologia é, antes de tudo, justificação. O homem, animal pensante, não suportaria viver apenas com explicações frias e racionais. Na busca constante de uma razão para existir, o homem inventa permanentemente, fantasia a realidade para tornar menos cruel a sua aceitação. É por isso que o sonho faz parte indissociável do real”, comentou José Nivaldo Júnior. O publicitário frisou que a missão japonesa, durante a Segunda Guerra Mundial, foi apresentada ao povo, antes de qualquer coisa, como de cunho cultural.


No crime organizado, a missão é apresentada aos demais como de cunho territorial, no sentido de preservar o grupo, de manter a “quebrada”. Os adolescentes ficam fascinados com essa realidade. Eles adoram essa ideia, porque os coloca na “linha de frente”. Em outras palavras, quero dizer que os jovens se sentem protagonistas pelo fato de serem “lembrados”. Por este motivo, os faccionados tratam os policiais como “vermes”, palavra que faz parte do vocabulário dessas organizações criminosas.



A ideologia da "vida loka" já contém em si a possibilidade de morte "prematura"



Esses faccionados partem para morrer com a mesma tranquilidade com que enfrentariam anos e anos de vida. A existência deles se confunde com sua missão. Como diria José Nivaldo Júnior, “a propaganda da morte cumpriu, então, perfeitamente o seu papel”. O engraçado nisso tudo é que os jovens que aderem à bandeira de uma facção observam o “torre”, o “disciplina” e a “Final” como “príncipes”, sempre com aquele pensamento de resistência ao Estado.


É uma realidade que nos deixa perplexos, ainda mais para quem pesquisa as facções criminosas e acaba conhecendo como o mecanismo funciona, sobretudo nesse aspecto psicológico. Eu não me espantaria se um adolescente que simpatiza com um desses grupos do crime organizado se apropriasse da frase do rei Macbeth (peça de William Shakespeare): “Morreremos com as armaduras nos ombros”.

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© 2019 por Nelson Melo.