• Nelson Melo

A relação entre líderes e liderados em uma facção pela Teoria do Poder

Atualizado: Jan 14

“O homem busca sempre o domínio e seu maior ou menor poder decorre exclusivamente de sua maior ou menor força”. O jurista Ives Gandra da Silva Martins deixa isso claro logo na “Introdução” de sua obra “Uma breve Teoria do Poder”. O interessante é que, para as facções criminosas, as coisas funcionam exatamente da forma como foi descrito pelo professor no livro. Os líderes no crime organizado são, necessariamente, pessoas de alta periculosidade. Nas “quebradas” e nos presídios, são temidos. Se esses chefões pisarem no pé de um morador, este deve pedir desculpas por ter soltado um gemido de dor. A Antropologia, Filosofia e Psicologia nos ensinam muito sobre o comportamento de quem controla algo no contexto de uma comunidade.


Nas facções criminosas, o poder é desejado como meio ou é desejado como fim em si mesmo? Bem, a História nos mostra que a busca pelo poder tem como objetivo aproveitar o que essa condição possibilita. O instinto de sobrevivência, nesse cenário, conduz o ser humano em direção ao topo da cadeia alimentar. O jurista Ives Gandra descreve várias situações do Reino Animal para demonstrar como é o mecanismo hierárquico para o Homo sapiens.


Segundo ele, a busca pelo poder decorre do instinto de sobrevivência. “O estudo das comunidades primitivas demonstra que o líder, no início, mais do que o poder, buscava a própria sobrevivência, servindo, a etologia, como admirável campo de pesquisa, para o estudo desse instinto entre os animais. Nas alcateias, os lobos lutam pela liderança para não morrer e, quando se sentem derrotados, atiram-se ao chão de pernas para o ar para não serem mortos pelo lobo vencedor. A hierarquia do poleiro identifica a galinha mais forte, que conquista o melhor lugar para melhor viver e obter o melhor alimento”, destacou o professor Ives Gandra.


Percebam que os faccionados que lideram os grupos sobrevivem até o ponto em que passam a ser alvos da própria cúpula, como aconteceu com “Gegê do Mangue”, que era membro do alto escalão do Primeiro Comando da Capital (PCC). Na “linha de frente”, os integrantes de hierarquia inferior morrem com mais facilidade, seja na guerra urbana com organizações rivais ou em confronto com as forças policiais. O chefe, mesmo, não suja as mãos de sangue, a não ser que se corte com uma faca ao descascar uma laranja.


Por este motivo, Ives Gandra frisa que o poder se justifica pelo poder e não pelo dever de servir. Os hábitos dos líderes de facções são transmitidos aos demais membros, que acreditam realmente no que é ensinado. O treinamento não é um curso. Na verdade, a assimilação da conduta do Outro ocorre no plano social, uma vez que o jovem se acostuma com o contexto onde mora. Quando ele observa, no bairro do Coroado, em São Luís, por exemplo, que o “torre” do Bonde dos 40 tem prestígio, inconscientemente, surge o desejo de conquistar aquele cargo, também.


Então, a influência do líder constrói diversos liderados. É um mecanismo que funciona tão sequenciado que não precisa de uma sala de aula. O condicionamento é natural, como um rapaz que fica emocionado quando os primeiros pelos pubianos aparecem. O filósofo alemão Max Scheler descreve, em sua obra “Modelos & Líderes”, que os laços que unem a sociedade a seus comandantes podem ser de natureza variada, como os laços determinados pela razão para se chegar a um objetivo. Seria algo como do tipo: “ele atende aos meus interesses”.


Ademais, Scheler afirma que a relação entre líder e liderados é consciente de ambos os lados. Agora, a relação entre o modelo (protótipo) e o imitador não precisa ser consciente. “Uma pessoa que é modelo para outra não precisa saber, nem precisa querer ser modelo, mesmo quando a segunda souber. Já o líder precisa saber que é líder, e querer. Mas nenhum dos grandes líderes da história condicionou a consciência de seu valor pessoal ao reconhecimento momentâneo ou permanente desse valor”, comentou o filósofo.



Livros que tenho na minha biblioteca servem para fundamentar minha pesquisa



O filósofo alemão também ressaltou que a relação entre modelo e imitador é ideal, independentemente das condições de espaço, tempo, de presença efetiva e da existência histórica do modelo. A relação entre líder e liderados, por outro lado, é real, ou seja, sociológica. Isto significa que o líder que influencia alguém precisa estar presente para o interlocutor. Isto é, são pessoas reais. Não são personagens.


Percebam que, na época em que Max Scheler viveu (1874-1928), Bonde dos 40, PCC, Comando Vermelho (CV) e “Neutros” não existiam nem na forma de modelos. Porém, as teorias do filósofo se encaixam perfeitamente no contexto do crime organizado urbano do Maranhão. Não ocorre uma idealização de um “disciplina” ou “Final”. As influências são reais porque o desejo do jovem é ser liderado, pois o objetivo é participar de missões em nome da facção criminosa.


Em “Leviatã”, Thomas Hobbes pontuou que a vitória sobre o inimigo ainda não é a conquista, mas apenas quando obtiver a sua obediência. Se um rapaz observa um lado cruel nos traficantes da “quebrada”, essa ideia é anulada momentaneamente por outra: a imagem de que não é cruel, algo que Maquiavel alertou em suas colocações sobre o “príncipe”.


O trono é confortável. Do alto, o líder movimenta as peças e decide quem vai morrer ou viver. De repente, alguém pode se atirar ao chão, de pernas para o ar, para não ser eliminado pelo detentor do poder. Afinal de contas, como disse o poeta francês Arthur Rimbaud, o eu é o outro. Essa relação é repleta de conflitos internos, porque, externamente, a obediência permite ao liderado assistir à queda do rival com direito a replay no celular.

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© 2019 por Nelson Melo.