• Nelson Melo

ADM: a ‘gangue do presídio’ que matava para quem pagasse mais

As gangues, comumente, são compreendidas como movimentos existentes apenas nas ruas, ou seja, nas comunidades. Os garotos e garotas dispostos a se enfrentarem com pedaços de madeira, pedras e facas ganham notoriedade no aspecto urbano de várias regiões do Brasil. Em São Luís, a mais famosa foi a “Garotos da Bota Preta” (GBP), cuja “quebrada” era na Alemanha/Caratatiua. Porém, no sistema penitenciário, havia a “gangue do presídio”, que foi denominada de Anjos da Morte (ADM), que era uma espécie de vertente do Primeiro Comando do Maranhão (PCM), segundo uma fonte carcerária.





De 2003 em diante, a ADM tinha adeptos no Complexo Penitenciário de Pedrinhas e na antiga Central de Custódia de Presos de Justiça (CCPJ) do Anil. Na época do auge da gangue, havia conflitos entre grupos de bairros nos presídios. Isto é, um problema que ocorria no extramuros era validado no intramuros. Importante destacar que essa realidade era predominante em um período no qual não existiam facções criminosas no Maranhão, muito menos na região metropolitana de São Luís.


De acordo com “Beta”, minha fonte para essa entrevista, os membros da Anjos da Morte atuavam nos presídios como mercenários. Ou seja, alguém pedia o “serviço” e pagava para que alguém fosse eliminado da cadeia. “Eles matavam bandidos de qualquer grupo a troco de vantagens financeiras”, explicou o contato. Ainda segundo o entrevistado, muitos integrantes da ADM eram da região do Anjo da Guarda, na área Itaqui-Bacanga, em São Luís.


“Eles tiveram que aderir a uma facção propriamente dita, durante os confrontos entre Bonde dos 40 e PCM no Complexo Penitenciário de Pedrinhas. Eu acredito que poucos membros ainda estejam vivos. Muitos foram alvos por causa de dívidas de sangue durante esses levantes”, esclareceu “Beta”, uma referência ao personagem de The Walking Dead que integra os “sussurradores”.


Enquanto esteve em atividade, a ADM nunca adquiriu um formato de facção criminosa, pois nunca teve força nas ruas. Em outras palavras, era uma “gangue de presídio”. Os crimes praticados por esses integrantes no interior das unidades penitenciárias eram cruéis. As vítimas eram esquartejadas, colocadas em sacos de lixo e jogadas em algum local. “Eles trabalhavam para quem pagasse mais. O grupo fazia o serviço tanto para um lado como para o outro. Isso significa que trabalhavam para os detentos da capital e para os detentos do interior”, declarou a fonte que me passou as informações.


“Beta” disse que, em um dos casos envolvendo a Anjos da Morte, um preso simplesmente desapareceu da cadeia. Nunca se teve notícias do paradeiro do interno desde aquela época. Não houve registro de fuga na ocasião. Então, a suspeita recaiu sobre a ADM, que teria esquartejado o rapaz e despachado o cadáver retalhado em sacos de lixo.


“Como nunca teve força nas ruas, a tendência era que desaparecesse, mesmo, seja por vingança ou pelas mãos das facções criminosas. Mas não houve um fator predominante para sua decadência. Tipo: se foi provocada pelo Bonde ou PCM. O fato é que a ADM tinha prazo de validade. Sabemos que dívida de sangue é cobrada, tanto dentro como fora dos presídios”, comentou a fonte. Dentre os antigos membros da gangue, podemos citar “Rony Boy”, “Bacabal”, “Sapato” e “Satanás”.


Outra morte cometida pela gangue foi uma na qual o fígado do detento Edson Carlos Mesquita da Silva foi assado e ingerido em partes pelos membros da ADM, em dezembro de 2013, no Complexo de Pedrinhas. Com a consolidação do Bonde e PCM, a Anjos da Morte se desintegrou aos poucos, até desaparecer, igual as vítimas de suas crueldades. A concorrência foi severa. A estrutura de uma facção criminosa é outra. A violência cometida por um grupo não rende vantagem financeira para essas organizações. Em nome do lucro, instauram-se até os “tribunais do crime”, que transformam um assaltante contumaz em um sonâmbulo.

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© 2019 por Nelson Melo.