• Nelson Melo

Antonio Aílton: o que aprendi da pedra aprendi do pântano

Atualizado: Ago 17

Muita se fala em poesia, mas poucos imaginam como estava a mente do poeta durante a produção do texto. Quando as frases são repletas de provocações e conotações, essa realidade se torna mais distante. O escritor maranhense Antonio Aílton, que é professor e pesquisador da poesia contemporânea, é um desses mestres das palavras que sabe como ninguém instigar o intelecto para sairmos da zona de conforto. Por meio do seu poema “A Lição”, ele afirma que o que aprendeu da pedra também aprendeu do pântano. Esse trecho possui inúmeras interpretações, mas todas contêm a imagem de um destino cujo ponto mais importante é o caminho.

A pedra citada por Antonio Aílton - membro da Academia Ludovicense de Letras (ALL) - pode representar a firmeza de um processo que não aceita abandonos ou questionamentos. Essa conotação seria uma alusão ao mundo físico, no qual o “Hiperurânio” (acima do céu), termo utilizado pelo filósofo Platão em “Fedro”, não teria reconhecimento. Mas o pântano, por outro lado, possibilita o encontro daquilo que recusamos como inadmissível, por conta do seu aspecto negativo. Esse ambiente pode ser tenebroso e perigoso, mas, ainda assim, é um local de aprendizado, pois as quedas são parciais.

O pântano pode ser um local de aprendizado e diversão (Foto: Johanna Kannasmaa/EFE)

Esse aprendizado simultâneo do ponto de vista mental, apesar das diferenças entre a pedra e o pântano, seria válido quando levamos em consideração a “Teoria da Reminiscência”, que Platão menciona ao se referir ao conjunto de ideias, pois todo o nosso conhecimento não é resultado de um processo de construção, mas sim, de uma recordação de algo já visto arquetipicamente. Em outras palavras, representa algo que a alma já contemplou em algum momento. Nesse cenário, isso pode ser feito com um pouco mais ou um pouco menos de meditação, nas palavras do poeta Antonio Aílton, doutor em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

No poema, que é citado no livro “Cerzir – livro dos 50”, Aílton (natural de Bacabal/MA) fala o seguinte: “os ventos falam pouco, mas assoviam a sua solvência de séculos, carregando o fardo fátuo das estradas”. E prossegue dizendo que aprendeu dos elementos porque aprendeu da viagem. Esse seria o caminho descrito por Jack Kerouac, para quem a estrada deve, eventualmente, guiar-nos por todo o mundo. O percurso pode ser preenchido por armadilhas, mas cada detalhe não é inédito, uma vez que os obstáculos sempre surgem para cada um de nós, embora com outras formas.

O poeta maranhense Antonio Aílton é membro da Academia de Letras de São Luís/MA



Esse “longo passeio de anos” emagrece o poeta entre pedras e marés. O fim da jornada é tão ilusório quanto a linha do horizonte, que mostra o encerramento de uma estrada ou do oceano. Como Antonio Aílton comenta no poema, um coração calejado é um coração pronto. Figurativamente, essa ideia contém a essência da realidade, que não é interpretada com facilidade pelo ser humano, apesar da complexidade do seu cérebro. O lema da “vida que segue” é o que nos resta nesse contexto de indefinições. Não sabemos para onde seremos levados. Consequentemente, isso nos torna vulneráveis na partida.

No topo da montanha, já cansados, conseguimos detectar que a viagem valeu, sim, a pena e que a lição possui múltiplos significados. No meio do caminho havia uma pedra e o pântano. Quando o destino finalmente é alcançado, esses dois elementos retornam para o “mundo das ideias”, onde o mito os coloca na condição de inacessíveis ao conhecimento e à experiência.

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