• Nelson Melo

Apesar da pandemia, Icrim/São Luís obteve produtividade impressionante em todas as seções

K’ung fu-tzu, que ficou conhecido como Confúcio, foi um filósofo indo e voltando. Atribuíram a ele a seguinte afirmação: “Escolha um trabalho que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia sequer na vida”. Parece estranho, mas, fora da linguagem, essa frase possui um efeito verdadeiro. Quando realizamos uma tarefa com paixão, o suor passa despercebido na pele porque ocorre a entrega de corpo e alma. Os profissionais do Instituto de Criminalística de São Luís (Icrim/São Luís), por exemplo, superaram todas as dificuldades surgidas em decorrência da pandemia da Covid-19 e obtiveram uma produtividade impressionante neste ano. O esforço conjunto valeu a pena.




Os profissionais do Icrim/São Luís não deram trégua durante a pandemia da Covid-19




Eu conversei com o perito criminal Robson Mourão, diretor do Icrim/São Luís, acerca dessa produtividade. De acordo com ele, o órgão emitiu quase 5 mil laudos periciais em 2020, e olha que os dados referentes a dezembro só serão contabilizados na primeira semana de janeiro de 2021. Ou seja, esse número é maior. Esse trabalho incrível surpreende porque estamos vivenciando um momento que ficou conhecido como “novo normal”, por conta do novo coronavírus. Sabemos que o período exige uma limitação em vários aspectos, o que pode ser melhor explicado pela questão do distanciamento social. Pela lógica, deveria ocorrer uma queda de rendimento, mas não foi isso que aconteceu no Instituto de Criminalística da capital maranhense.





O perito criminal Robson Mourão realiza um ótimo trabalho à frente do Icrim/São Luís




“Nós tivemos muitas dificuldades relacionadas, logicamente, à pandemia, em vários sentidos, como na busca por EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), para evitar a contaminação. Houve afastamento de servidores, igualmente em função do novo coronavírus. E os que ficaram cobriram os plantões de quem foi afastado, para não deixarmos de atender à sociedade. Ou seja, o Icrim/São Luís continuou funcionando em todas as seções. Não paramos um momento sequer”, comentou Mourão. Para ele, que também é professor, a união fez a diferença, pois todos se esforçaram e não deram trégua para o “inimigo invisível” nessa guerra dos humanos contra os patógenos.





Perito em plena atividade na Balística Forense fazendo microcomparação balística no Icrim




Conforme Robson Mourão, a sensação de vitória preencheu a mente e o corpo dos servidores, que não deixaram o “inimigo” se aproximar em todas as seções, incluindo a Fonética, Identificação Veicular, Informática, Documentoscopia Forense e Balística Forense. Como os funcionários estavam protegidos com máscaras e álcool em gel, o novo coronavírus não teve oportunidade para ensaiar uma revanche. Acuado, tombou. “Mesmo com essas dificuldades, os peritos realizaram mutirões e ações que auxiliaram na liberação dos laudos. O exame em si é muito importante. Mas a liberação do laudo, dessa peça pericial que vai auxiliar os inquéritos policiais, as denúncias do Ministério Público e as decisões judiciais, é importantíssimo”, ressaltou o entrevistado.






“Quase 5 mil laudos produzidos e emitidos é uma produtividade altíssima. Mais de 90% das ocorrências atendidas em 2020 já viraram laudos, considerando que o ano ainda não terminou. Então, é um esforço imenso de toda a equipe”, acrescentou o perito criminal.




Viatura do Instituto de Criminalística de São Luís sendo submetida ao processo de desinfecção




Estratégias de prevenção ao vírus





Em um contexto hostil, quando existe a possibilidade de uma invasão, o correto é nos protegermos. Mas esse procedimento não pode ser realizado aos trancos e barrancos. Pelo contrário, tem que seguir um planejamento. A fim de não permitir a entrada do novo coronavírus, que declarou guerra aos humanos quando ainda nem resolvemos nossos conflitos psicológicos e territoriais, o Icrim/São Luís colocou em prática uma série de ações, em virtude da pandemia. “Além de estruturarmos novas formas de como entrar e sair da viatura, foi realizada uma higienização em todo o Icrim, de maneira completa, e mais de uma vez, diga-se de passagem”, assinalou Robson Mourão.




O Icrim/São Luís foi higienizado várias vezes para evitar a invasão do "inimigo invisível"





Ainda segundo ele, as reuniões passaram a ser virtuais, pois todo contato deixa vestígios do vírus. O objetivo era evitar aglomerações. Também foi instituído o rodízio de peritos criminais nas seções, com mudanças na posição e localização de cada servidor dentro do órgão.





Combinando inteligência e tecnologia





Nada na vida é fácil. Até mesmo quando estamos dormindo o corpo está trabalhando a todo vapor, embora o “eu” fique inerte até que o sujeito desperte do sono. Devemos frisar que o juiz italiano Giovanni Falcone esperou 4 anos para concluir o “maxiprocesso” em Palermo contra a Cosa Nostra (máfia siciliana). Ele tinha em mente que precisava trabalhar arduamente para conquistar o que tanto almejava. Em outra ilha, que não é a Sicília, Robson Mourão também passa o dia todo pensando em formas de incrementar o trabalho no Icrim/São Luís. Juntamente com os demais peritos criminais e outros funcionários envolvidos, enfrentou a pandemia sem deixar os ombros caídos ou o semblante desmotivado.




O aplicativo Inlaudo foi atualizado com novas versões para agilizar o trabalho pericial




O esforço compartilhado para a conquista dos quase 5 mil laudos periciais elevou, claro, o moral dos servidores. Psicologicamente, é óbvio que as vitórias modificam a dinâmica emocional das pessoas. Mourão destacou, dentro desse contexto, a participação do Icrim/São Luís na investigação da morte de um publicitário em junho deste ano na região da Lagoa da Jansen, na capital maranhense. “O trabalho pericial foi importantíssimo para soltar um inocente, pois o carro vermelho que ele conduzia não era o carro vermelho relacionado aos fatos criminosos. Existiam dois veículos, com a mesma espécie, o mesmo modelo, com alguns pontos divergentes, com a mesma placa, inclusive. Nós fizemos um retrato falado, que chegou ao suspeito e que chegou ao veículo, que já estava fora de São Luís”, relembrou o entrevistado.





Robson Mourão disse que, ainda com relação a esse episódio, a equipe coletou uma pequena mancha parda avermelhada no veículo, que já havia sido lavado. E, posteriormente, foi realizada a reprodução simulada dos fatos. O diretor também ressaltou os avanços do Tablete em Local de Crime (TLC), cujo software é o Inlaudo. Essa plataforma digital foi criada pelos peritos do Icrim/São Luís, incluindo Walleson Nonato de Sousa, o que resultou na “aposentadoria” da tradicional prancheta. “O TLC obteve novas versões e novos recursos, que foram elaborados para dar mais agilidade no que se refere aos dados levantados”, enfatizou ele.





O trabalho pericial no Icrim/São Luís não para um minuto sequer apesar da pandemia




Giovanni Falcone, que ficou imortalizado pelo seu incansável trabalho de combate à máfia siciliana, costumava falar que a polícia, a Justiça, o Ministério Público e a Perícia Criminal deveriam aproveitar qualquer conhecimento adquirido, pois as informações envelhecem, sendo que os métodos devem ser constantemente atualizados. Esse é o espírito que move a equipe do Instituto de Criminalística de São Luís. Para esses profissionais, não existe causa perdida enquanto houver pelo menos uma pessoa lutando por ela.


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