• Nelson Melo

Arte e Psicanálise: a natureza está no interior

O pintor Paul Cézanne, do tempo dos impressionistas, disse certa vez: “A natureza está no interior”. Essa concepção seria outra forma de afirmar que a obra artística possui um “núcleo expressivo” e uma “estrutura profunda”. A busca por imagens “primitivas”, repletas de significados complexos e quase indecifráveis, coincide com a ideia de que a conduta humana não é regida somente pela razão, uma vez que o inconsciente resgata emoções até então consideradas superadas. Nesse contexto, a relação entre Arte e Psicanálise ganha contornos de aproximação.



O artista sempre coloca um pouco de si na obra de arte porque imagens são resgatadas


Como frisa Tania Rivera, psicanalista e doutora em Psicologia pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica), entre encontros e desencontros, a Psicanálise e a arte do século XX nasceram na mesma época e não pararam de se atrair, se distanciar e se esbarrar. Por esse motivo, o filósofo francês Jean-François Lyotard comentou que nós pertencemos à revolução cezanniana e freudiana. Essas mudanças ocorrem porque a pintura renascentista, até então referência para os artistas, perde a sua condição de “cláusula pétrea”, cedendo lugar para outra maneira de organização dos elementos de um quadro.


De igual modo, essa desestabilização espacial ocorre na Psicanálise, pois o “Eu” perde sua característica de detentor de todas as decisões, uma vez que instâncias “primitivas” disputam o protagonismo do comportamento humano com o ego. Nem mesmo a glândula pineal, citada por René Descartes como o ponto de equilíbrio entre a alma e o corpo, conseguiria reverter essa relação conturbada entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. Dentro dessa nova abordagem, podemos dizer que o passado nos acompanha durante a vida toda, influenciando em hábitos, manias, decisões e pensamentos.



O livro que utilizei como referência para produzir esse artigo foi escrito por Tania Rivera


A valorização da subjetividade é um aspecto importante nesse cenário de incertezas sobre quem somos e o que queremos. O filósofo Arthur Schopenhauer já havia alertado que a “vontade” comanda nossas ações, incluindo as questões sexuais, tendo em vista que o verdadeiro objetivo do amor, segundo o “Solitário de Frankfurt”, é a continuidade da espécie por meio do coito. A obsessão de Freud pela libido não seria algo tão surpreendente se levássemos em consideração que o neurologista Sigmund leu as obras de Schopenhauer. De igual modo, os surrealistas adotaram a “escrita automática”, ou seja, escrever tudo o que passasse pela cabeça, sem que a razão tivesse tempo de se intrometer nesse processo.


Essa “escrita automática” é similar à associação livre, que é utilizada na clínica psicanalítica para que o paciente diga tudo sem restrições, a fim de que a mente resgate situações até então adormecidas ou ignoradas devido ao sofrimento que provocam quando lembradas. Os representantes da vanguarda literária e artística divulgaram a Psicanálise em suas obras, pois a abordagem freudiana condizia com a revolução que essas pessoas pretendiam fazer em suas áreas de atuação. Em pinturas e textos da época, esse novo olhar sobre o sujeito e o objeto foi imposto ao som da liberdade de expressão. Isso se tornou mais evidente a partir da Primeira Guerra Mundial, de acordo com Tania Rivera. Segundo a psicanalista, o poeta francês André Breton teve um papel decisivo na influência freudiana no meio artístico, sendo que ele lançou, em 1924, o primeiro Manifesto do Surrealismo.


Inclusive, Breton visitou Freud em Viena, em 1921. O fundador da Psicanálise, no entanto, tinha mais apreço pela arte tradicional, em especial, a renascentista, porque notava, nos quadros de Michelângelo e Leonardo da Vinci, alguns detalhes que indicavam a personalidade desses artistas, bem como suas intenções inconscientes. Até mesmo no olhar da “Monalisa”, Sigmund Freud observava um reflexo do comportamento do pintor. Já nas obras surrealistas e afins, o médico neurologista encontrava mais contornos racionais, o que não dava margem para interpretações mais profundas.


“Dos encontros mancos, descombinados, às vezes claramente nonsense entre palavras ou imagens, gerados pelos procedimentos surrealistas, Breton via nascer a poesia, capaz de mudar o mundo e transformar a realidade, ao reconciliá-la com o sonho em uma espécie de realidade absoluta, de surrealidade, como ele declara em seu primeiro manifesto”, pontua Tania Rivera na obra “Arte e Psicanálise”. Conforme a autora, isso faz eco à afirmação freudiana de que a arte forma um reino intermediário entre a realidade que faz barreira ao desejo e o mundo imaginário que o realiza.


Nas pinturas artísticas, como nos romances, sempre o autor deixa um pouco de si, mas de maneira disfarçada, sendo que nem ele mesmo percebe isso enquanto desloca o pincel de um lado para o outro. A tela, nesse sentido, conta um pouco da vida do artista, como o estudante de Psicologia maranhense Agnaldo Alles Quaresma destaca em “Francesco – A Jornada de um Pintor de Almas”, livro que prefaciei. Na obra, o protagonista enfrenta diversas dificuldades em sua vida até se consolidar como um eminente artista plástico na Itália renascentista. A cegueira não o limitou para que observasse a realidade, tendo em vista que o herói consegue detectar tonalidades de cores "invisíveis".



A obra de Agnaldo Alles (que tem meu prefácio) está disponível na Amazon como ebook


As imagens do inconsciente são similares às imagens da obra de arte. O arquétipo não tem forma, pois se encaixa em um algum conteúdo, que pode ser a ação de uma pessoa para salvar a humanidade, como foi o caso de Jesus Cristo. Para estudarmos a vida de um pintor, podemos analisar o quadro que ele produziu. Ali, na tela, os desejos, as fantasias, os medos, os traumas e os momentos prazerosos do autor podem ser detectados. Com a ajuda da razão, esse procedimento se torna mais completo, mas a emoção que o espectador sente é o que faz a diferença em um mundo cada vez mais fragmentado.

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© 2019 por Nelson Melo.