• Nelson Melo

Brigas por valentia eram comuns em São Luís nas décadas de 70 e 80

A geração atual está presenciando uma violência desenfreada na região metropolitana da capital maranhense, devido às disputas entre facções criminosas. Bonde dos 40, “Neutros”, Comando Vermelho (CV), Primeiro Comando da Capital (PCC) e Primeiro Comando do Maranhão (PCM), no contexto maranhense, são recentes. Nas décadas de 1970 e 1980, as brigas eram motivadas, na maioria das vezes, por valentia, em São Luís/MA. O uso de facas nesses embates era comum. Por outro lado, os assaltos eram raros. O tráfico de drogas, por sua vez, era muito “tímido”.



Região do Anel Viário/Aterro do Bacanga (São Luís/MA) nos anos 1970 (Crédito: Iphan)



A partir de hoje, eu começarei uma série sobre criminalidade em São Luís naquela época, por meio de relatos de pessoas que viveram nos períodos citados. Para inaugurar essa novidade do meu site, entrevistei um cabeleireiro, de nome Cláudio, na manhã desta quinta-feira. A conversa ocorreu enquanto ele cortava meus cabelos. Eu o conheço há mais de 15 anos, desde quando nós fazíamos musculação em uma academia que ficava no bairro Coroado, na capital.


Como, na época, eu sempre pedia para o personal trainer colocar músicas de Bon Jovi no momento da musculação, Cláudio me apelidou de “Bon Jovi”. Até hoje, ele me chama dessa maneira. Nas décadas de 1970 e 1980, o entrevistado trabalhava em uma agência bancária, que ficava na Rua da Paz, Centro de São Luís. Segundo me contou, em inúmeras ocasiões, saiu com malotes de dinheiro pelas ruas da capital, mas nunca foi assaltado. O mesmo se repetiu com seus companheiros de trabalho, que não se preocupavam com roubos no meio do caminho.


Segundo Cláudio, que tem mais de 60 anos, naquela época havia um sentimento de vergonha por ser ladrão ou “maconheiro”, o que, de certo modo, não permitia que a criminalidade avançasse como ocorre hoje na capital maranhense. “Quando os moradores descobriam que tinha um assaltante na família, havia muito preconceito. Os pais ficavam com muita vergonha e faziam de tudo para ‘corrigir’ o filho. Na maioria das vezes, eles conseguiam fazer com que o garoto ou a garota seguissem outro rumo em suas vidas, porque, querendo ou não, essa pressão da sociedade era muito forte”, comentou o cabeleireiro.



Praça Benedito Leite (São Luís/MA) durante os anos 1970 (Foto: Augusto Telles/IMS)



Ele relembrou que, na Rua Grande, que era o polo comercial de São Luís, havia a Loja Brasileira, que, às vezes, tinha prejuízos com furtos de crianças que apareciam lá somente para levar bombons. “Os pais eram chamados e pediam desculpas, assim como o menino. Em quase 100% dos casos, não ocorria reincidência, porque, como falei, existia esse sentimento de vergonha, algo que, hoje em dia, é raridade. Em muitos casos, o próprio dono da loja não aceitava o dinheiro pago pelo prejuízo”, pontuou o meu entrevistado.


Outro ponto destacado por Cláudio é referente à tranquilidade dos passeios até mesmo de madrugada em São Luís. Quando ele ia a festas de aniversário em outros bairros distantes de sua casa, que ficava no Conjunto Radional, sempre voltava a pé, porque os ônibus já não passavam mais até altas horas da noite. “Tinha o corujão, mas ele não passava em determinadas localidades da ilha. Uma vez, eu e meus colegas voltamos do Habitacional Turu até lá em casa a pé. Como conversávamos muito, o caminho se tornava curto”, recordou o cabeleireiro, que é natural de Humberto de Campos/MA.


Ele disse que, nesse percurso, ninguém tinha medo de ser assaltado ou estuprado porque essas práticas eram quase inexistentes na capital maranhense naquela época, sobretudo na década de 1970. Para Cláudio, um dos fatores que explicam essa baixa criminalidade em São Luís no referido período era o respeito entre as pessoas. “Quando um adulto entrava no ônibus, os mais jovens se levantavam imediatamente da cadeira, para que o mais velho se sentasse. Hoje, tem até briga nos coletivos por causa disso. Querendo ou não, nós, que éramos jovens nessa época, ouvíamos nossos pais. A única droga que existia na época aqui era a maconha, mas era consumida de forma escondida, por causa da vergonha, como já falei”, frisou ele.


Estacas com pregos


Ele comentou que, já na década de 1980, alguns bandidos faziam estacas contendo pregos e as encaixavam embaixo dos para-lamas dos carros da época, como Fusca, Opala e Chevette. “Os criminosos colocavam esses objetos de madeira pontiagudos nessa parte dos veículos. Mais adiante, os motoristas paravam o carro, porque os pregos furavam os pneus. Aí, quando os motoristas faziam a troca dos pneus no meio da rua, o bandido aparecia sem fazer barulho e furtava os malotes de dinheiro que eram levados”, observou Cláudio.


Mas essa prática, como o entrevistado ressaltou, era rara. Os alvos eram os funcionários de banco, que saíam com esses malotes nos carros.


Brigas sangrentas


Apesar desse ambiente diferente com relação à atualidade, naquela época as brigas eram motivadas por valentia. Alguém mais “forte” provocava um mais “fraco”, sobretudo em festas, para mostrar aos demais “quem mandava no pedaço”. Ele me relatou que havia dois clubes famosos em São Luís: um na Vila Palmeira e outro na Aurora, que foram palcos de muitas confusões com essas características. As pessoas levavam facas já esperando esses duelos.

Em muitas ocasiões, as brigas terminaram em mortes, com registros de pessoas com as vísceras expostas após serem esfaqueadas pelo oponente. “Um queria ser mais valente do que o outro. Não tinha esse negócio de matar por causa do tráfico de drogas, como é hoje. Nessas brigas, quando o outro aceitava a provocação, os demais faziam até uma roda, para acompanhar o embate”, contou Cláudio.



A cidade de São Luís atual é marcada pela presença de facções criminosas



O cabeleireiro recordou que, em uma ocasião, quando estava em uma dessas festas, na Vila Palmeira, “do nada” apareceu um homem alto e forte, que encostou o cigarro quente na mão de Cláudio, que, na época, tinha aproximadamente 17 anos. “Ele ficou esperando eu aceitar a provocação, que era costume nesse período. Eu era medroso, ainda bem. Por isso que estou vivo até hoje. Então, chamei meus amigos e fomos embora. Funcionava assim, mesmo: o cara já queria só um motivo para enfiar a faca no outro. Tiros eram raríssimos”, salientou o entrevistado.


Rotina da polícia


Cláudio também disse que a polícia quase não tinha trabalho naquela época, em São Luís. Conforme relembrou, os policiais utilizavam capacetes em formato de penico e cassetetes. Apenas os de patente mais alta andavam com armas de fogo. “Eles andavam mais a pé. Claro que havia os camburões, mas era mais comum que fizessem rondas andando, mesmo. Nas praias, os policiais utilizavam cavalos para os patrulhamentos”, comentou o meu interlocutor.


“Claro que havia alguns casos esporádicos de abuso de poder por parte da polícia. Às vezes, moleques apanhavam na rua, por questões de disciplina, mesmo. Mas isso era muito raro, mesmo, porque, como falei, a educação familiar era levada muito a sério. Como a família fazia seu papel de educar, a polícia não precisava reprimir”, destacou Cláudio. Conforme o cabeleireiro, os jovens respeitavam a instituição policial e também a militar, representada, principalmente, pelo Exército.


“Quando os jovens passavam em frente ao 24º BC (Batalhão de Caçadores), no bairro João Paulo, ninguém fazia barulho, por causa do respeito. E outra: quando ocorriam as prisões, o criminoso passava muito tempo na cadeia. Não era como é hoje, que o bandido passa pouco tempo na prisão e ainda debocha da sociedade. Às vezes, quando ele saía, naquela época, nem voltava para sua casa, por causa da vergonha na família e na comunidade. Muitos abandonavam a vida do crime, de verdade”, enfatizou Cláudio, encerrando a entrevista.

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© 2019 por Nelson Melo.