• Nelson Melo

Da fábula para a vida real: a ilusão de superioridade e o declínio

Jean de La Fontaine é aclamado como um dos mais excelentes e importantes escritores franceses de todos os tempos. Ele produziu, além de fábulas, conhecidas internacionalmente, contos, novelas, poemas e peças de teatro. Filho de Charles de La Fontaine e de Françoise Pidoux, nasceu no dia 8 de julho de 1621. O seu texto sobre a rã e o boi é tão atual quanto os problemas do mundo. A mensagem pode ser adaptada para o contexto de guerra urbana, bem como para vários aspectos da nossa vida, como o familiar e o profissional.



Livro da minha biblioteca que utilizei para escrever este artigo acerca da referida fábula



Desde jovem La Fontaine era dedicado aos estudos. Ele lia sobre os autores clássicos com muito afinco. Adulto, tornou-se advogado, mas abandonou a profissão sem exercê-la efetivamente. Após frequentar os círculos literários da época, começou a produzir seus primeiros versos. Com o falecimento do pai dele, o francês herdou-lhe o cargo de inspetor de Águas e Florestas, quando tinha 31 anos. Em 1654, publicou “O Eunuco”, considerado seu primeiro trabalho, sendo que era uma comédia adaptada de Terêncio.


A obra “Fábulas Escolhidas Postas em Versos” o colocou em evidência no meio literário. Em 1683, foi eleito para a Academia Francesa, mas seu nome foi vetado pelo rei. Porém, no ano seguinte, o veto foi suspenso, ao que o poeta foi admitido como imortal. La Fontaine faleceu no dia 13 de abril de 1695, aos 73 anos.


A Rã e o Boi


Nesta fábula, La Fontaine observa que uma rãzinha viu um boi e impressionou-se com o seu porte. Ela, pouco maior que um ovo, logo foi tomada do desejo de também ser forte como ele. Assim, enchendo-se de vento e disse à irmã: “Vê bem se eu aumento até igualar-me àquele boi. Já basta?”.


A irmã nem pensou na resposta, pois achou aquilo ridículo: “Não”. Mas a rãzinha persistente perguntou novamente: “E agora, já?”. Novamente, a interlocutora rebateu negativamente. Segundo La Fontaine, “e a pobre idiota mais tentou, inchou, inchou... que até estourou!”.



O ego da rã provocou sua própria destruição por ter forçado uma comparação com o boi



Adaptação da fábula


Eu gosto muito de observar conexões entre textos, fatos, eventos ou discursos. A leitura, para mim, tem essa função: abrir nossa mente para o improvável. Isso se chama criatividade. Pois bem: quantas pessoas agem como a rãzinha? O ser humano, em muitas ocasiões, não reconhece sua inferioridade com relação ao outro e, de forma ridícula, tenta agir como se fosse imponente apenas para passar a impressão de que é forte.


As pessoas costumam se proteger em ilusões, uma vez que a aceitação da verdade seria equivalente a uma sensação de fracassadas. Na série “The Walking Dead”, o personagem Simon se espelhava em Negan, seu chefe, de tal forma que se comportava até pior do que o seu líder. Como a rã na fábula de La Fontaine, ele “inchou” tanto que ficou cego pelo poder, a tal ponto que planejou um “golpe de estado” dentro do grupo dos “Salvadores”.



Negan colocou Simon no seu devido lugar para mostrar quem realmente mandava



Mas Negan frustrou seus planos e o colocou no seu devido lugar. O “boi” Negan matou a “rã” Simon na frente dos demais “salvadores”, em uma luta limpa, apenas no corpo a corpo. Na vida real, muitas pessoas que agem como se fossem fortes, na verdade são fracas. O mecanismo de defesa serve para esconder quem realmente somos. No campo imaginário, ninguém é o que demonstra ser fora do aspecto inconsciente. O medo nos impulsiona para o verdadeiro ou o falso.


Como disse o psicanalista Jacques Lacan, a verdade tem estrutura de ficção. Até mesmo o “boi” pode ser inexistente na realidade, mas completamente íntegro em nosso cérebro. Em muitas ocasiões, nós subestimamos o inimigo, mesmo que este seja mais poderoso. Essa reação pode nos levar para a destruição do pouco que ainda resta da nossa racionalidade. No campo da segurança pública, esse pensamento pode conduzir um policial direto para uma emboscada.


Novamente, em “The Walking Dead”, Rick Grimes ficou tão iludido de que poderia vencer sem dificuldades os “Salvadores”, somente por ter derrotado facilmente alguns membros rivais, que não pensou que o oponente poderia ser maior do que sua arrogância imaginava. Ele estava totalmente enganado. Como a rã, o então protagonista da série foi encurralado, dentro de uma extensa área de vegetação, pelo grupo do Negan, que matou, de forma cruel, dois integrantes de “Alexandria”, para passar a mensagem de quem mandava no pedaço.



O grupo de "Alexandria" foi encurralado pelos "salvadores" devido à arrogância de Rick



Quando reconhecemos que o inimigo é superior, já é o passo inicial para superarmos nossas limitações. Essa conduta nos levará a agirmos sem capas, o que nos colocará em vantagem temporária em qualquer guerra simbólica. A emoção pode ser uma aliada, mas, por outro lado, pode ser um obstáculo. Não adianta querermos resultados imediatos, se não temos noção nem das nossas próprias fraquezas. A queda pode ser tão prejudicial quanto a vaidade que a originou.


Se a rã não se baseasse somente no porte do boi, ela não morreria prematuramente, ainda mais de forma tão patética. Nas suas condições, poderia ter conquistado tudo o que almejasse, sem precisar se referenciar na estatura do outro. Afinal de contas, a vitória não depende do tamanho do nosso corpo, mas do tamanho da nossa mente.

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© 2019 por Nelson Melo.