• Nelson Melo

Dia do Profissional de Inteligência: subsidiando a tomada de decisões

Tomar decisões na vida nunca é fácil. Essa tarefa, para muitas pessoas, é tão complexa quanto transformar limonada em limão. Geralmente, nós preferimos conseguir tudo “mastigadinho”, como dizem na linguagem popular. No entanto, essa conduta não é pedagogicamente favorável para nosso crescimento em todos os sentidos. No campo da Segurança Pública, esse processo é sistematizado. Nesse ponto, entra a Inteligência, que só funciona se for executada por quem é realmente inteligente, no que se refere à perspicácia e persistência. Neste domingo (6), está sendo celebrado no Brasil o “Dia do Profissional de Inteligência”.




Homenagem da Polícia Rodoviária Federal (PRF) ao profissional de Inteligência


Para quem não sabe, a data foi instituída em decorrência da criação do Serviço Federal de Informações e Contrainformações (SFICI), em 1946, pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. Esse trabalho é considerado estratégico, pois possibilita agilidade nas operações a partir da coleta de dados. O inimigo, nesse sentido, sempre fica um passo atrás, uma vez que seu rastro é seguido de maneira silenciosa. O barulho, afinal de contas, além de entregar a posição do policial ou do agente, também afasta o alvo, que, dependendo da situação, pode desaparecer para sempre.



É aquela velha história que dizem por aí: quem quer pegar galinha, não diz “xô”. A Inteligência Policial é a carta na manga em qualquer guerra, sendo tão importante quanto o atirador de elite, cuja origem está diretamente relacionada aos caçadores das florestas, que emprestaram seus conhecimentos aos militares nas batalhas entre a Grã-Bretanha e suas ex-colônias, como explica Michael E. Haskew no brilhante livro “Snipers nas guerras: da Guerra de Independência dos Estados Unidos às Guerras Atuais”. Eu comprei essa obra recentemente na Livraria Leitura do São Luís Shopping, na capital maranhense.




Alguns livros que tenho na minha biblioteca referentes ao tema da coleta de dados



O meu interesse pela Inteligência Policial não é atual, digamos assim. Essa curiosidade despertou em mim na época em que eu trabalhava como repórter policial no Jornal Pequeno. Quando iniciei minha pesquisa na área criminal, no que tange às facções criminosas no Maranhão, percebi que precisava obter mais conhecimentos sobre o tema. Então, comprei mais livros. Para compreender como funciona o mecanismo básico da atividade, eu adquiri obras que discorrem sobre atiradores de elite, espiões e grupos terroristas. Na minha biblioteca, há vários livros sobre esses assuntos.




Outra parte da minha biblioteca referente ao tema da coleta de dados para as decisões


Os espiões, por exemplo, sempre nos ensinam muita coisa sobre disfarce e discrição. Já os snipers transmitem a mensagem sobre a importância da decisão e da concentração. Com relação aos grupos terroristas, o foco é ter uma noção de como o inimigo pensa. Sun Tzu, em uma época na qual não existiam a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e a Central Intelligence Agency (CIA), já nos alertava sobre como devemos nos comportar não apenas na guerra, como, principalmente, nas situações cotidianas. As lendárias dicas dele servem para qualquer setor, incluindo o empresarial, o familiar e o policial.



A partir das leituras e de conversas que tenho com minhas fontes policiais, descobri que a Inteligência tem a ver com tomada de decisões, que é fundamental para o sucesso de uma operação. Ademais, o conceito faz referência à proteção das informações. Na Bíblia, há um trecho interessante: “[...] falou o Senhor a Moisés, dizendo: ‘envia homens que espiem a terra de Canaã, que eu hei de dar aos filhos de Israel’. [...] Retornando da missão, as pessoas dela incumbidas passaram a relatar os dados obtidos”. Percebe-se que a atividade é uma estratégia para a vitória em uma circunstância, que pode ser simples ou sofisticada.



Buscar conhecimentos para subsidiar a tomada de decisão é o foco da Inteligência Policial. Para a tarefa, nenhum detalhe pode passar despercebido. Caso contrário, isso pode representar a derrota, como aconteceu durante a Guerra de Independência dos EUA, quando o experiente atirador do Exército Britânico Patrick Ferguson – que inventou o fuzil de retrocarga mais preciso e mais leve ainda que o mosquete padrão Brown – teve a chance de matar o general George Washington, que depois se tornou presidente dos Estados Unidos, mas recuou no momento em que estava com o alvo na mira.




Coletar dados para subsidiar a tomada de decisões significa montar um quebra-cabeça



Mais tarde, o major Ferguson disse em uma carta que não puxou o gatilho porque não era agradável atirar pelas costas em alguém inofensivo, que estava cavalgando, no dia 7 de setembro de 1777. Vejam que uma decisão gerou um rumo na guerra e na História. A Inteligência Policial não é tarefa fácil, como falei no início. Pelo contrário: é algo que necessita de tempo para o amadurecimento da ideia. Na minha carreira como jornalista policial, eu tive que internalizar em várias ocasiões o espírito de Tony Mendez, ex-espião famoso da CIA que inspirou o filme “Argo“ com Ben Affleck.



Recordo-me de um caso de homicídio que ocorreu no Coroadinho, em São Luís/MA. Como os curiosos sempre ficam ao redor do cadáver, coloquei meu crachá para o lado de dentro da camisa e me “infiltrei” entre eles, para ouvir alguma conversa interessante sobre a dinâmica do assassinato, a fim de acrescentar na minha matéria. Essa “técnica da despersonalização”, como apelidei com base em conceitos da Psicologia, também foi útil na minha pesquisa acerca da criminalidade urbana, pois obtive muitas informações relevantes para o meu estudo.



Esse é o lado mais conhecido da Inteligência Policial. E o outro lado? Bem, nunca saberemos, porque, se soubéssemos, a atividade não teria mais razão para continuar existindo, uma vez que o conhecimento seria compartilhado. A tarefa é nobre, diga-se de passagem, pois está mais vinculada à atitude de Odisseus em relação ao comportamento de Aquiles. Afinal de contas, a bravura pode ser inimiga da perfeição. Em todo caso, não é o mais forte que sobrevive, mas, sim, o mais inteligente.

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© 2019 por Nelson Melo.