• Nelson Melo

Dilema do Prisioneiro: quando o ‘robô’ assume um homicídio dentro do presídio

Crimes dentro de presídios não são raros no Brasil. Inclusive, esse ambiente caótico apenas favorece as facções criminosas, que adoram barulho, dependendo da conveniência. Não se enganem: o silêncio nos espaços representa uma gritaria na mente do criminoso. Isso é Psicologia. Um cadáver dentro das celas pode incomodar pelo odor, mas contém a verdade sobre o que aconteceu. A fim de modificar a ordem dos fatos, um “robô”, como é chamado, assume o homicídio, para proteger um detento de nível hierárquico superior. Em Filosofia, existe um conceito conhecido como Dilema do Prisioneiro, que pode ser aplicado nessa realidade.





Segundo Paul Kleinman, que possui vários artigos filosóficos sobre a teoria freudiana, a corporação RAND contratou, em 1950, os matemáticos Merrill Flood e Melvin Dresher, para participarem das investigações que estavam sendo conduzidas sobre a Teoria dos Jogos. O objetivo era aplicá-la na estratégia nuclear global. Os trabalhos desenvolvidos pelos dois cientistas foram divulgados pelo professor Albert W. Tucker. Como resultado disso, surgiu o Dilema do Prisioneiro, que é utilizado para explicar por que as pessoas agem de uma maneira e não de outra.


De acordo com Paul Kleinman, os prisioneiros A e B foram colocados sob custódia. Os policiais não tinham evidências suficientes sobre a autoria de um crime. Então, decidiram deter A e B em salas separadas. Disseram para cada um que, se entregasse o outro, e o outro permanecesse em silêncio, um seria solto, e o prisioneiro que ficasse quieto seria condenado. Por outro lado, caso A e B confessassem, os dois enfrentariam um tempo de prisão. Se ambos os prisioneiros ficassem em silêncio, os dois passaram um tempo ainda menor na prisão, conforme esse Dilema do Prisioneiro.


Caso os dois confessassem o crime, o tempo de prisão para cada um seria de seis anos. Caso os dois ficassem em silêncio, eles pegariam apenas dois anos de reclusão. Se o prisioneiro A confessasse o delito e B ficasse quieto, este cumpriria pena de 10 anos, e o primeiro voltaria para casa, e vice-versa. Surge, então, o dilema. O que fazer nessa situação? Qual possibilidade seria mais vantajosa? O interesse individual é mais importante do que o interesse coletivo? Estas questões fazem parte da condição humana. Por este motivo, o impasse filosófico nos fornece uma luz com relação ao contexto carcerário preenchido por faccionados.


A realidade penitenciária nos mostra que, para um interno, é melhor assumir a culpa por um assassinato dentro de uma cela, mesmo que ele não tenha cometido o crime. Se não fizer isso, a próxima vítima de um homicídio será o detento que se recusou. De repente, ele pode aparecer enforcado em uma simulação de suicídio. A obediência permite que esse preso sobreviva no intramuros. O “robô” é manipulado, porque a facção é maior do que o faccionado. Ou seja, o grupo é visto pela ótica da racionalidade. A irracionalidade está no membro.


A conduta individual pode representar a autodestruição do detento. Ele vai preferir ser visto como um covarde vivo do que como um herói morto. Os prisioneiros são jogadores, que são movimentados pela engrenagem do “estado paralelo”. A vantagem, na visão desse interno, é cooperar. Caso contrário, uma peça do tabuleiro vai ser substituída sem ressentimentos, como aconteceu com “Gegê do Mangue”, que foi morto pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) no dia 15 de fevereiro de 2018, no Estado do Ceará.


Os efeitos dessa execução de um jogador são sentidos até hoje no Brasil. E também no Paraguai, onde o PCC é muito forte. O mundo real é cruel quando vemos o copo vazio. Colocando um pouco de água, a nossa percepção muda. A “vida loka” contém esses encontros e desencontros. Uma escolha errada pode deixar o faccionado impossibilitado de espantar as moscas para sempre.

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© 2019 por Nelson Melo.