• Nelson Melo

Eficácia das Terapias de Terceira Geração é explicada por psicólogos

A Psicologia é uma ciência maravilhosa e importante para a compreensão sobre quem somos e o que queremos, embora esses fatores nem sempre sejam acessíveis por conta da complexidade da condição humana. Desde Wilhelm Wundt, os profissionais tentam explicar o funcionamento da mente por meio de estudos fundamentados e sistematizados. De lá para cá, surgiram várias escolas de pensamento, como o Behaviorismo, Gestaltismo e a Psicanálise. As chamadas Terapias Comportamentais de Terceira Geração estão crescendo no mundo. Os psicólogos Mariana Martins e Júlio César Ribeiro, proprietários da Clínica de Psicologia Comporte, explicaram sobre essa “terceira onda” em entrevista que concederam ao meu site.



Júlio César e Mariana Martins são psicoterapeutas comportamentais de terceira geração

“A primeira fase do movimento de terapias comportamentais foi embasada em princípios de aprendizagem cuidadosamente desenhados, sendo que muitos foram desenvolvidos e refinados por meio de trabalhos experimentais com animais”, disse Júlio César Ribeiro, cuja clínica para atendimentos aos pacientes está localizada em São Luís/MA. De acordo com o psicoterapeuta, o foco dessas abordagens era a modificação do comportamento a partir da utilização de técnicas derivadas de elementos vinculados ao condicionamento clássico, também conhecido como condicionamento pavloviano.



Além disso, havia, ainda, o condicionamento operante, estudado por Burrhus Frederic Skinner, que acrescentou esse fator à compreensão do reflexo condicionado, formulado por Ivan Pavlov. “Nessa primeira fase, Skinner oferece a filosofia da ciência, que dá a sustentação para o conhecimento científico. Era o behaviorismo radical. Na primeira geração, houve a má interpretação de Skinner. Como era entre a década de 1950 e 1960, estava no auge o pensamento mecanicista. Então, dentro da obra de Skinner, os terapeutas não deram valor ao que ele propôs sobre a subjetividade”, explicou Ribeiro.



A segunda geração de terapias comportamentais



Como frisou Júlio César, com essa falha na interpretação, iniciou a segunda geração de terapias comportamentais, o que resultou no surgimento da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), que adiciona a cognição como um dos alvos do tratamento, assim como as condutas e as emoções. No entanto, várias críticas são feitas à “segunda onda”, de acordo com Júlio César, porque reúne as tradições internalistas e externalistas. “Ainda há muitas questões que não foram respondidas no que diz respeito à reestruturação cognitiva. Nos últimos anos, a validade desse modelo tem sido muito questionada. Essa polêmica se fundamenta no fato de que ainda não encontraram um padrão de evidências que suporte a mudança cognitiva como mediador-chave da efetividade da TCC tradicional”, pontuou o psicoterapeuta.




Júlio César Ribeiro explicou que existem várias críticas à TCC em relação às técnicas

“Alguns estudos mostraram que a adição de técnicas cognitivas aos tratamentos não produz benefícios e, em alguns casos, pode reduzir a eficácia das intervenções. Quando existe uma reestruturação cognitiva, o terapeuta produz uma nova ideia ou uma nova crença, uma nova regra arbitrária, porque o individuo nunca utilizou. Isto é, não é própria do sujeito, não é natural, uma vez que não foi ele que construiu esse valor. Então, ele começa a usar uma ideia que não é dele. Essa é a grande crítica à TCC, porque tem prazo de validade”, salientou o entrevistado. Houve experimentos, inclusive, na década de 1980, por meio dos quais verificaram que os participantes foram incapazes de não pensar durante cinco minutos em um processo de viagem mental.



É como se fosse solicitado a alguém que não pensasse em um urso branco, sendo que o efeito será contrário: a pessoa pensará no animal de maneira mais intensa ao tentar realizar aquele ato. Em outras palavras, de acordo com Júlio César Ribeiro, a estratégia é contraproducente quando o paciente quer afastar pensamentos desconfortáveis.


O surgimento da terceira geração


A psicóloga Mariana Martins complementou dizendo que as Terapias Comportamentais de Terceira Geração surgiram para oferecer respostas às perguntas que a segunda geração deixou na forma de lacunas, a partir da retomada da perspectiva conceitual que estava presente na primeira geração. “Essa perspectiva é a razão pela qual esse grupo de abordagem também é chamado de terapias contextuais. Essas abordagens se interessam mais pelas funções dos comportamentos do que pelos comportamentos em si. E aponta, preferencialmente, a mudança por contingências em detrimento da mudança mais didática e psicoeducativa baseada em regras”, assinalou a psicoterapeuta.



Conforme ela, os psicoterapeutas da terceira geração entendem que existe um aprendizado para a experiência. Nesse sentido, por meio dessas vivências as pessoas constroem novos valores, o que permite que o paciente aprenda condutas novas. Sendo assim, a mudança ambiental se torna possível. A psicóloga deu como exemplo um caso envolvendo usuário de substâncias psicoativas, que não conseguirá se libertar da dependência química apenas dizendo para si mesmo que não consumirá a cocaína. Isso não ocorre porque é necessário monitorar a funcionalidade desse comportamento.




A psicóloga Mariana Martins explicou sobre o surgimento e eficácia da terceira geração


“Na terceira geração, a gente consegue observar essa funcionalidade do comportamento. Quer dizer que cada dependente químico tem sua razão ou finalidade para fazer uso da substância. Alguns fazem o uso para diminuir uma vergonha. Outros fazem para fugir de pensamentos. Já outros fazem para obter encorajamento em uma festa, por exemplo, a fim de se relacionar interpessoalmente. Tudo isso tem que ser observado pelo psicoterapeuta”, enfatizou Mariana Martins.


Relações interpessoais e intrapessoais


Martins disse que as Terapias de Terceira Geração oferecem respostas sobre as relações interpessoais e intrapessoais. Sendo assim, o profissional analisa a forma como o paciente se relaciona com seus próprios sentimentos e pensamentos. “Eu passo a aceitar os meus sentimentos e pensamentos. Eu começo a explorar o meu ambiente intrapessoal para gerar outra observação e um autoconhecimento. A partir desse ponto, surge uma nova tradição, que inclui vários tipos de terapias, como as de aceitação e compromisso. Também há a psicoterapia analítico-funcional e a terapia comportamental dialética, desenvolvendo repertórios comportamentais intrapessoais e interpessoais”, comentou a entrevistada.



De acordo com Mariana, essas terapias utilizam o mindfulness, também conhecido como atenção plena. Nesse contexto, surgem as terapias de ativação comportamental, que são destinadas, por exemplo, para casos de depressão, e a terapia comportamental integrativa de casais. Um fato comum é que todas essas estratégias enfatizam a contingência, o contexto, pois se baseiam no behaviorismo radical de Skinner, cuja ideia do comportamento operante tem influência direta na maneira como as pessoas conduzem ou transformam suas vidas.


“A partir disso, nas relações intrapessoais e interpessoais, o paciente pode ter um entendimento do comportamento operante. Essa abordagem mostra que somos agentes produtores do ambiente. Se eu tenho medo do fracasso, eu posso entrar em contato com o fracasso, com esse pensamento ou com o sentimento. Se eu fracassar, de forma interpessoal posso entrar em contato com aquilo que me levou ao fracasso. É por esse motivo que as Terapias de Terceira Geração respondem às perguntas não respondidas pela TCC”, expressou Mariana Martins.




A cachorrinha "Ísis" é utilizada na Clínica de Psicologia Comporte dependendo da situação


Os interessados em receber atendimento profissional na Clínica de Psicologia Comporte podem se deslocar à Rua dos Pintassilgos, nº 12, na Ponta do Farol, em São Luís/MA, na mesma via pública onde fica o Kumon, unidade que oferece aulas de matemática, português e inglês. Os números para contatos são os seguintes: (98)99202-2230/99200-1095. Se você ficou curioso com relação ao tratamento da Terceira Geração, basta fazer uma visita aos psicólogos Mariana Martins e Júlio César Ribeiro, que, em algumas situações, também utilizam duas cachorrinhas para a Terapia Assistida por Animais (TAA), um eficiente instrumento que promove o bem-estar físico, emocional, cognitivo e social dos pacientes.

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© 2019 por Nelson Melo.