• Nelson Melo

‘Electrogang’: primeira gangue do Cohatrac que atuou nos anos 1980

A área do Cohatrac, na região metropolitana de São Luís/MA, atualmente, é quase uma cidade, devido ao conglomerado de comunidades, quantidade de comércios, ruas, avenidas e outros itens urbanos. Muito antes do surgimento do crime organizado no Maranhão, o local foi marcado pela presença de inúmeras gangues. A primeira delas se chamava “Electrogang”, que teve sua atuação nos anos 1980. O “carro-chefe” desse grupo era a pichação, como eu descobri ao entrevistar um ex-membro desse agrupamento.



Cartaz do filme de 1984 que influenciou no surgimento da primeira gangue do Cohatrac



De acordo com “Alvorada”, o ex-integrante da gangue, a “Electrogang” surgiu em meados de 1985, mas teve pouca duração, pois, em 1987, não existia mais, tendo em vista que havia encerrado suas atividades na capital maranhense. Segundo esse contato da pesquisa que faço sobre a criminalidade no Maranhão, o grupo era fechado, sendo que era formado por jovens que gostavam de se divertir e pichar. Uma das principais atividades, aliás, era a pichação. O entrevistado me falou que os membros faziam inscrições em paredes da Cohab-Anil e também no Centro da cidade, até então área de atuação de “Os Bárbaros”, primeira gangue propriamente dita de São Luís.


Como “Alvorada” relembrou, o nome do grupo foi uma referência à gangue “Electro Rock”, do filme “Breakin” (chamado no Brasil de “Breakdance”), que era sucesso na década de 1980. “Nós éramos mais amigos, mesmo. Nós andávamos muito com o pessoal de ‘Os Bárbaros’, que se reunia ali na Praça Deodoro, perto do Liceu Maranhense”, recordou o contato. De acordo com o entrevistado, naquela época os grupos eram mais voltados às brigas, quando as “galeras” se encontravam. Nesse contexto, havia muita correria pelas ruas de São Luís, pois nenhum agrupamento pretendia passar a ideia de fraqueza nas comunidades, hoje conhecidas como “quebradas”.



A região do Cohatrac é um conglomerado com aspecto de uma verdadeira cidade na ilha



“Alvorada” contou que a “Electrogang” circulava por todo o Cohatrac, sendo que na época já existia o Cohatrac IV, novo em comparação com o Cohatrac I, por exemplo. Convém ressaltar que a região foi fundada em 1979. “Nessa época, era tudo novidade. Ainda não havia outros movimentos aqui”, declarou o ex-membro. O contato destacou que, no começo do Cohatrac, só havia, mesmo, essa gangue, mas, depois, o local foi preenchido por vários grupos urbanos, o que “banalizou” a cartografia da capital maranhense, pois houve divisões por cada área.


Declínio da gangue


“Havia gangues no Cohatrac I, II e III, assim como no Primavera. Tinha no Cohatrac IV, depois no Cohatrac V e Jardim Araçagi. Ficou tipo uma ‘galera’ de bairro. Era tudo sem lógica”, pontuou “Alvorada”. O entrevistado mencionou que a decadência da “Electrogang” ocorreu devido à marginalização das outras gangues, pois a ideia inicial era diferente. O foco era a reunião e diversão, sobretudo em festas que ocorriam em clubes da época, como “Associação do Cohatrac” e “Clubão da Cohab”. Importante salientarmos que o grupo era pequeno, com poucos membros.


Então, surgiram gangues como “Garotos do Cohatrac” (GC), “Garotos Escrotos” (GE) e “G IV”. Àquela altura, havia na Cohab-Anil a “KR” e a “Dente de Sabre”, como o ex-membro comentou. “A GC e a G IV se uniram depois que uma gangue da Macaúba, durante um show de funk, tentou confrontar alguns deles na porta da Associação do Cohatrac I, resultando na morte de um integrante desse grupo da Macaúba”, relembrou “Alvorada”.


A “Dente de Sabre”, inclusive, também surgiu na época de sucesso do filme “Breakin”. Era um grupo voltado mais para reunião de amigos e street dance, mas, segundo a minha fonte da pesquisa, houve um desvirtuamento, pois os integrantes aderiram à bandeira da criminalidade. “Essa gangue, pouco depois, se uniu ao que restou de ‘Os Bárbaros’. Aí, eles ficaram mais temidos e rejeitados ao mesmo tempo”, observou o meu contato.


Atualmente, não existem mais gangues na região do Cohatrac, pois, com o surgimento das facções criminosas, o contexto mudou, uma vez que os grupos foram “engolidos” pelo crime organizado. A organização criminosa Primeiro Comando do Maranhão (PCM) tinha uma “quebrada” no Nova Aurora, mas os faccionados foram expulsos pelo Bonde dos 40, que predomina na localidade. “Agora, tudo é Bonde ali. Mas o movimento, mesmo, ocorre somente próximo ao ponto final dos ônibus, no Cohatrac IV, e na área do Cohabiano e Nova Aurora. No conjunto, quase não tem membro de facção”, ressaltou a fonte.


Policiamento e atividades culturais


A região do Cohatrac, fora desse contexto de criminalidade, é marcada por muitas atividades culturais. Na Praça das Árvores, no Cohatrac IV, por exemplo, o “Comitê Gestor” promove diversos eventos, como o “Artesanato na Praça”, “Empório Social” e “Jardinagem Pedagógica”. Eu já participei, como escritor e jornalista, dessas realizações, que são fantásticas. Naquele logradouro, tive a oportunidade de apresentar meu segundo livro, “Guerra urbana – o homem vida loka”, que discorre sobre a origem das facções criminosas no Maranhão, em atendimento ao convite feito pelo pedagogo Camilo Filho.



Momento em que eu fazia um relançamento do meu livro na Praça das Árvores do Cohatrac



Camilo Filho é membro do “Comitê Gestor da Praça das Árvores”, entidade que realiza um excelente trabalho cultural, ambiental e literário no Cohatrac. Além disso, a região é patrulhada pelo 20º Batalhão de Polícia Militar (BPM). No quartel dessa unidade da Polícia Militar do Maranhão, eu levei um exemplar do meu segundo livro para o capitão Ricardo, um homem muito sábio, com quem gosto de conversar, porque sempre aprendo muito sobre segurança pública, uma parte do Estado que é fundamental para a ordem pública e paz social.

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