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Em época de coronavírus, a esperança não pode morrer



Nos últimos meses, o mundo está passando por uma grande preocupação diante da ameaça da pandemia do coronavírus. Países inteiros têm se preparado para que os efeitos nocivos às suas populações sejam menos devastadores possíveis. Cientistas unem esforços para encontrar uma cura para a doença, que já causou milhares de mortes e que a cada dia se propaga de forma alarmante. Diante deste cenário, milhões de pessoas pelo mundo estão de quarentena, passando pelo isolamento social como medida preventiva para frear o vírus. Muitos, e com razão, focam a sua atenção nesta ameaça microscópica, mas há uma ameaça tão preocupante quanto a infecção. Estou me referindo às doenças psíquicas causadas pelo medo, ansiedade e pelos inúmeros bombardeios de notícias de cunho negativo, tanto na TV quanto nos grandes portais e redes sociais.


O medo é uma emoção útil para a sobrevivência. Tanto humanos quanto os animais utilizam esse fenômeno instintivo para detectar o perigo e, consequentemente, encontrar formas de proteção e fuga. Mas quando o medo se torna prejudicial para o organismo? O ser humano é a única espécie que consegue sentir um medo subjetivo, ou seja, consegue ter reações corporais referentes ao medo, como palpitações cardíacas, aumento da adrenalina, mãos frias e trêmulas e outras sem a presença de uma ameaça real nas imediações ou de algum risco objetivo de morte. Sendo assim, basta apenas subjetivar alguma ameaça, como, por exemplo, o medo de não passar na prova, medo de não conseguir pagar as contas ou mesmo o medo de ter contraído uma doença, mesmo sem manifestar sintoma algum. Assim, quando a ameaça deixa de conotar o real e passa a ser exagerada na nossa mente, nos tornamos pessoas ansiosas.



A ansiedade, portanto, anda de mãos dadas com o medo. Não existe medo sem ansiedade. A pessoa ansiosa reflete em seu corpo as reações do medo descritas acima, e quando a ansiedade passa a ganhar uma dimensão extravagante, alterando toda a nossa rotina, provocando perdas no meio social e profissional, é nesse momento que este quadro se torna um perigo para a nossa saúde mental.


Portanto, e diante deste quadro mundial atual, não é difícil percebermos que muitas pessoas estão estressadas. Mesmo em casa, no período de quarentena, muitos cidadãos estão com medo de perder os seus empregos ou de não conseguirem pagar as suas contas. Já outros estão isolados, sem poder ir até um parente. Há o medo sobre o dia de amanhã, pois em época como essas, tudo é muito incerto. O fato de ficarmos em casa nos torna menos vulneráveis ao vírus, mas, por outro lado, somos contaminados diariamente por notícias negativas, aumentando, ainda mais, a nossa ansiedade.


Sendo assim, quando o nosso cérebro recebe informações ruins, ele produz substâncias estressantes, como a noradrenalina, cortisol e a adrenalina, ativando no corpo toda uma reação de alerta, de que algo não vai bem, mesmo quando estamos no conforto da nossa sala. Este órgão tão complexo não difere os fatos imaginários dos reais, e toda vez que ouvimos notícias de cunho dramático, o cérebro sempre vai reagir, nos colocando em estado de alerta, gerando desconforto. A escritora e psiquiatra Ana Beatriz afirmou isto em seu livro "Mentes Ansiosas: o medo e a ansiedade nossos de cada dia".


“Explico melhor: quando passamos horas em frente à TV, assistindo aos noticiários, sofremos um verdadeiro bombardeiro de informações e imagens dramáticas que são captadas por nosso cérebro como se ele estivesse vivenciando aquele momento. Todas as vezes que essas matérias forem ao ar, o cérebro vai passar pelas mesmas sensações. Isso ocorre porque o cérebro não consegue distinguir os fatos reais dos virtuais (ou imaginários). Se ele pode vivenciar, presenciar ou imaginar, com certeza irá reagir da mesma forma”, observa a médica psiquiatra na obra.


Por outro lado, além deste aspecto da ansiedade, há o fator da angústia diante inércia. A vida sem sentido e sem objetivos é um grande chamariz para os quadros depressivos. Muitos, mesmo estando em suas casas, com todo o conforto físico, sentem-se desconfortados mentalmente. Este desconforto é resultado do fato de terem encontrado o sentido de vida nas suas atividades cotidianas, nos seus trabalhos, nos seus estudos, fora de casa, nas ruas, enfim. No entanto, com a impossibilidade de exercer as atividades cotidianas, não encontram sentido numa vida parada. Como encontrar sentido ou esperança numa sociedade que está desmoronando pela doença, pelo temor diante da ameaça de morte?


Lojas e shoppings de portas fechadas, ruas vazias, vida social noturna restrita, bolsa de valores em crise, economia despencando. Essas situações só aumentam a angústia. A percepção sobre os fatos, e não os fatos em si, faz a diferença entre o morrer e o viver. Dentro da linha cognitivista, nós nos situamos no mundo com base naquilo que pensamos (cognição), sentimos (emoção) e fazemos (comportamento). Se percebo toda esta situação de forma negativa, consequentemente minhas emoções serão negativas e meu comportamento também será destrutivo. Portanto, ter esperança no futuro em si, no próximo e na sociedade, além do filtro da informação que nos chega pelos meios de comunicação e a partir dali saber extrair o que é fato e o que é sensacionalismo, é de fundamental importância para mantermos pensamentos funcionais, positivos, aliviando o nosso emocional da ansiedade e medo.



Esta não é a primeira vez que a humanidade passa por momentos ruins. Já passamos por guerras, por outras pestes até mais devastadoras que a atual, e mesmo assim a sociedade humana sempre se levantou, conseguindo superar esses eventos. Sendo assim, a forma de sairmos desta situação depende de todos nós. É importante cada um fazer sua parte, mantendo a calma e percebendo a realidade da melhor forma possível e de forma verdadeira. Como já dizia o antigo ditado popular: “A esperança é a última a morrer”.

Agnaldo Alles Quaresma

Formado em Comunicação Social e atualmente, estudante de psicologia

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