• Nelson Melo

Escritor dedica poema a José Nascimento Morais Filho

O poeta maranhense José Nascimento Morais Filho nasceu no dia 15 de julho de 1922 e faleceu em 21 de fevereiro de 2009. Se estivesse vivo, completaria 98 anos. A obra dele, porém, continua resplandecente na memória não apenas de familiares, como, também, de admiradores. Para além do Oceano Atlântico, a imortalidade literária do expoente do Modernismo no Maranhão é consolidada. O escritor João Batista Gomes do Lago, nascido em Itapecuru-Mirim/MA, dedicou um poema em homenagem ao folclorista, sendo que o conteúdo implícito e explícito do texto é emocionante.

O texto, intitulado “Caminhares”, contém a essência dos anseios de uma sociedade fragmentada, que mal sabe o caminho da liberdade quando ainda não existe um objetivo estabelecido. Logo no início, João Batista Gomes do Lago frisa que dedicou o poema, in memoriam, para José Nascimento Morais Filho, deixando em evidência sua valorização pela obra produzida pelo escritor maranhense. Entre palavras e frases, o autor recusa um caminho, que seria marcado pela imposição de coisas programadas conscientemente e inconscientemente.


Nascimento Morais Filho (à direita) ao lado de Ribamar Bogéa (fundador do Jornal Pequeno)

Nesse sentido, Gomes do Lago enfatiza que sua escolha está voltada para outro caminho, pois não adiantaria seguir aquele, uma vez que nele apenas se compraz a reprodução do visível. “Não. Não pretendo seguir o teu caminho. Prefiro dar visibilidade ao não visível, àquilo que se esconde por detrás do teu versejar, mesmo que me acuses de incompreensível. Meu desejo é rasgar o verbo até ele sangrar”, declara João Batista no poema. Nesse trecho, percebe-se um diálogo entre o conteúdo e a forma, isto é, o estranho e o familiar, partindo de um ponto de vista antropológico, mítico e psicanalítico.

Convém ressaltar que o psicanalista francês Jacques Lacan disse certa vez que a verdade tem estrutura de ficção. Isso significa que o mito está presente em nosso cotidiano sem que seja notado, pois os desejos ocultos se manifestam em condutas consideradas racionais. O caminho mencionado pelo poeta João Batista nos leva a essa interpretação, tendo em vista que o calvário da dor, da fome e da miséria possibilita uma compreensão mais aproximada sobre quem somos e o que queremos, quando se extrapola os limites da pura vaidade. Desse modo, o autor pede para que afastem dele o cálice das canonizações fáceis.


O poeta João Batista Gomes do Lago escreveu o poema com reivindicações ontológicas

O poema, na minha opinião, ultrapassa as fronteiras da epistemologia para ingressar na ontologia, de uma forma que desconstrói uma ideia unânime sobre a vida e a morte por meio da “transvaloração” daquilo que é real e concreto, em um sentido nietzschiano. A partir do texto, Gomes do Lago eterniza a memória de José Nascimento Morais Filho como uma parte do todo, em um universo de representações entre o aceitável e o inaceitável, sem esquecer, evidentemente, a luta por um mundo melhor, no qual a literatura ocuparia um lugar central no que tange às reivindicações coletivas.

Segue abaixo o texto de João Batista do Lago dedicado a José Nascimento Morais Filho. Importante dizer que retirei o poema do site do escritor e jornalista Mhario Lincoln (https://www.mhariolincoln.com/).

Caminhares



Não me queiras tu indicar-me caminhos,

Todos os traçaste com pés de porcos.

Não. Não queiras tu impor-me teus santos;

Teus cânones – pérolas que brotam das lamas –,

E se instalam no altar da sacristia

Onde se rezam orações profanas ao

Deus dos mercados que te encanta…


“Não, eu não vou por aí”.

– já dissera um poeta Régio –,

Mas tu insistes com ar de vitória

Conquistada com o vintém dos bajuladores

Que tomam tua obra como hóstia sagrada

Para em seguida cagá-la no colo ilustre

Da tua bem-aventurada sapiência burocrática.


Afasta de mim o cálice das canonizações fáceis,

Não me pretendo entre mortos das velhas escolas

De sabedorias guardadas nos armários das velhacarias,

Donde soam vozes e signos dos vampiros

Que sugam a alma do povo trabalhador,

Vilmente esquecido pela tua ânsia de atingir estrelas

Com versos de galanteador.


Não. Não me convides para seguir este teu caminho…

Meus pés não suportariam os mármores da tua igreja!

Por certo me aleijariam… E sangrariam até a morte…

Prefiro o calvário da dor… E da fome… E da miséria,

Que o banquete da pajelança dos curadores e dos ímpios

Versejadores que desfilam na corte da ignomínia;

Que vendem sua alma ao diabo como anjos de sabedoria.


De que me adianta seguir o teu caminho,

Se nele apenas se compraz a reprodução do visível?

Não. Não pretendo seguir o teu caminho.

Prefiro dar visibilidade ao não visível,

Àquilo que se esconde por detrás do teu versejar,

Mesmo que me acuses de incompreensível

Meu desejo é rasgar o verbo até ele sangrar.


Este, sim! Este é o meu caminho.

E nada me fará mudar este destino

– de escrever no pergaminho da vida

a sólida robustez da miséria e da fome,

da insensatez do homem,

do deus perdido no aquário do ser,

do sujeito obra da natureza entre Deus e diabo.

56 visualizações

© 2019 por Nelson Melo.