• Nelson Melo

Espelho despedaçado: antigo Lítero como ponto de encontro para usuários e faccionados

A “Teoria das Janelas Quebradas” nos mostra, resumidamente, que a ordem gera ordem, e o caos gera o caos. Se a realidade está fragmentada, com os espelhos despedaçados, como se expressaria a psicanalista Tania Rivera, a percepção das pessoas inclina para essa imagem. No quadro “A traição das imagens”, René Magritte insistiu, mesmo sendo um cachimbo, que aquilo não era um cachimbo. Podemos dizer: “Isto não é o Lítero”. O antigo clube, em São Luís/MA, está sendo frequentado por usuários de drogas e membros de facção criminosa.



Pichações alusivas ao Bonde dos 40 estão espalhadas em vários locais do antigo Lítero


Apesar de ter a forma de um cachimbo, Magritte negou que fosse um cachimbo. Nesse ponto, ele recusou as representações simbólicas em sua própria pintura. Quem olha a foto do Grêmio Lítero Recreativo Português intacto, que foi fundado na década de 1930, e compara com a imagem atual, vai dizer que são locais diferentes. Mas não existe truque da Gestalt. O lugar está realmente abandonado. Em várias partes do solo, o lixo cobriu o chão. Dentro do antigo clube, o cenário é parecido com a “Ilha de Lost”. A única diferença é a presença dos “Outros”, como os sobreviventes do Voo Oceanic 815 denominaram os habitantes “hostis” do ambiente insular.


Quando percorremos as dependências do antigo Lítero, encontramos “Outros”, que são pessoas que entram no local em qualquer horário do dia. Um grupo se esconde ali no mato para consumir drogas. Do lado de fora, a fumaça não tem nada a ver com a nuvem preta que protegia a ilha na série “Lost”. De acordo com moradores que residem nas proximidades, o ambiente abandonado está servindo também como “motel”. Em cima de um papelão e de colchões velhos, camisinhas são facilmente encontradas.


Mais para frente, nos fundos do imóvel, o espaço é mais utilizado por faccionados, que estariam marcando até “reuniões” ali. Há registros de que “tribunais do crime” já foram instaurados no local. No dia seguinte, os moradores dizem que não ouviram nenhum barulho de disparos de arma de fogo. Apenas ratos, baratas e Aedes aegypti são testemunhas da punição.


O isqueiro é a única fonte de luz no local. E quando um tiro é desferido, o clarão mostra quase nada do rosto de quem foi ferido e de quem feriu. O mato alto impede a visibilidade dos perigos que se escondem no verde das plantas. Se olhar apenas para cima, é quase certo que o sujeito pise em fezes humanas. O forte cheiro logo se espalha, o que atrai ainda mais o caos, porque a “janela foi quebrada”.



Quando a imagem do Grêmio Lítero Recreativo Português não estava em pedaços


Nos pontos onde a parede ainda está quase branca, as pichações alusivas ao Bonde dos 40 são encontradas. Logo na entrada, colocaram duas inscrições com o nome da facção. Os desfiles de fantasias, típicos do auge do Grêmio Lítero Recreativo, cederam lugar para desfiles de faccionados. A prática de esportes está apenas na memória de quem aproveitou o clube social. Um mergulho na piscina não é mais uma boa opção. Não dá para perder a cabeça assim.


De fato, os espelhos voaram em pedaços, como diria Francis Ponge ao analisar a obra de Pablo Picasso. Como o Titanic, o Lítero perde sua essência a cada dia que passa. A história do clube está ficando oculta. Para resgatá-la, somente abrindo caminho pelo mato com uso de um facão.

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© 2019 por Nelson Melo.