• Nelson Melo

Feridas no pescoço: decapitação, esgorjamento e degola são conceitos distintos

Na pós-graduação em Perícia Criminal, pelo Instituto Nacional de Perícias e Ciências Forenses (Infor/MA), um dos módulos que mais me deixou encantado foi Medicina Legal, ministrado pelo perito criminal Fábio Delwing. Como jornalista, abri minha mente para a verdade sobre os fatos. Eu não sou cientista, mas valorizo muito a ciência. Na Traumatologia Forense, conheci as feridas incisas. No pescoço, elas podem ser esgorjamento, degola e decapitação. São conceitos distintos, embora a imprensa insista em citá-los como algo uniforme.


Antes de compreendermos essas feridas no pescoço, é importante entendermos o que é Medicina Legal. De acordo com Delton Crace & Delton Crace Júnior, é a ciência e arte extrajurídica auxiliar alicerçada em um conjunto de conhecimentos médicos, paramédicos e biológicos destinados a defender os direitos e interesses dos homens e da sociedade. O expoente criminologista francês Alexandre Lacassagne, que já citei em outro artigo, definiu como a arte de pôr os conceitos médicos a serviço da administração da Justiça.


Já a Traumatologia Forense é uma parte da Medicina Legal focada nas lesões corporais resultantes de traumatismos de ordem material ou moral, danosos ao corpo ou à saúde física/mental. Um trauma ocorre, segundo o perito criminal Fábio Delwing, em uma transferência de energia de origem externa sobre o corpo da pessoa, com intensidade suficiente para provocar desvio de normalidade, com ou sem expressão morfológica. Essa alteração pode ser funcional ou psíquica.


Dentro dessa fascinante ciência conhecida como Medicina Legal, são estudados os instrumentos, definidos como objetos ou estruturas capazes de provocar dano por meio de transferência de energia mecânica. A partir dessas análises, o perito criminal estabelece um nexo causal, a fim de demonstrar que tal instrumento foi utilizado para matar a vítima. Ou, por outro lado, para indicar o meio, que é qualquer situação capaz de provocar dano por meio da transferência de energia não mecânica (calor, frio, eletricidade).





Cientificamente, diz-se que a lesão atinge a epiderme do tecido corpóreo. A ferida, por sua vez, ultrapassa esse limite, atingindo a derme e hipoderme, que são camadas mais profundas da pele humana. Dentro desse contexto, existem as feridas incisas, que são provocadas por instrumentos cortantes, como faca, bisturi e gilete. Ocorre a regularidade nas bordas, que são nítidas. Além de hemorragia abundante (secção de vasos), segundo o professor Fábio Delwing. No pescoço, recebem nomes especiais, que são esgorjamento, decapitação e degola.


No esgorjamento, o corte é feito na porção anterior ou lateral do pescoço. Na degola ou degolamento, o corte ocorre na porção posterior. Já na decapitação, ocorre a separação da cabeça do restante do corpo. É comum, no entanto, utilizarem instrumentos cortocontundentes, como facões, foice e machados, para esse tipo de agressão.


Facções e feridas


Quando as facções criminosas se apoderam de um bairro, cidade ou estado, essas situações de mortes cruéis se tornam mais comuns. Um faccionado não se contenta apenas em tirar a vida do “alemão” ou “X9”. Ele se diverte ao cortar o pescoço da vítima, que é transformada em um mero objeto, desprovido de qualquer valor sentimental. Como repórter, já presenciei vários cadáveres nas três situações, principalmente, na condição de decapitado. Em um caso ocorrido no bairro Fumacê, na área Itaqui-Bacanga, em São Luís, primeiramente, a polícia encontrou o corpo de um rapaz que estava desaparecido.


Pouco depois, a cabeça foi encontrada. Esse caso teve como vítima João de Deus Cruz Campos, o “Joãozinho”. Ele foi decapitado no dia 7 de março de 2016, em um matagal no Fumacê, em uma região conhecida como “Campo Grande” ou “Caixa Baixa”. Na época, o delegado Jesus Chaves, então interino do 5º Distrito Policial (DP), Anjo da Guarda, me falou que seis pessoas levaram a vítima para dentro de uma extensa área de mato, às margens da Avenida dos Portugueses, por volta das 23h, e, na vegetação, torturaram o rapaz, que teria sido decapitado vivo. Em seguida, jogaram a cabeça perto de lá e saíram do local.


Conforme declarações dos suspeitos presos, João de Deus foi morto porque estaria em dívidas com os envolvidos, após ter roubado fios de cobre da Vale e não ter repassado o dinheiro ao grupo, “comendo sozinho” a grana. O Fumacê, aliás, é território do Bonde dos 40. Naquela época, esta facção protagonizou uma disputa sangrenta com o já extinto Primeiro Comando do Maranhão (PCM), que ocupava a “Proab”, também na área Itaqui-Bacanga.


Eu estudo muito Criminologia, para entender o comportamento do faccionado. Mas também estudo muito Criminalística, para entender a dinâmica do crime praticado pelo faccionado. Sem a ciência, o mundo ainda seria habitado por centauros e minotauros. Nesse sentido, Teseu seria uma alternativa para que os bairros fossem menos violentos. Se, mesmo assim, os assassinatos continuassem acontecendo, eu não pensaria duas vezes em procurar o Oráculo de Delfos para tentar descobrir quem foram os autores do homicídio.

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© 2019 por Nelson Melo.