• Nelson Melo

Freud tinha ‘Complexo de Hamlet’, mas Hamlet não tinha ‘Complexo de Édipo’

Recentemente, li um artigo muito interessante escrito pelo psicanalista Carlos Pinto Corrêa, que é graduado em Sociologia e Política, Psicologia e Administração. No texto, o autor cita Harold Bloom, que ironizou o seguinte: Hamlet não tinha “Complexo de Édipo”, mas Freud tinha “Complexo de Hamlet”. Essa observação é fundamental para compreendermos como William Shakespeare exerceu um papel essencial nas teorizações do “Pai da Psicanálise” acerca do comportamento humano nos múltiplos cenários, incluindo o familiar e o trabalhista. Afinal de contas, a tragédia nos acompanha como um “fantasma” quando estamos sozinhos ou em grupo, como aconteceu na peça shakespeariana.

Freud foi um grande leitor da obra de Shakespeare e provavelmente queria vê-lo no divã

O artigo do psicanalista, intitulado “Por que Shakespeare? O encontro de Freud com Shakespeare”, me conduziu ao mais alto grau de reflexão sobre a influência das emoções na conduta humana. O autor menciona Freud como escritor e a Psicanálise como literatura, o que coloca Sigmund e William em destaque na produção imaginativa. Ambos conseguiram idealizar personagens com características reais, tanto que o receptor se movimenta em direção ao aspecto desconhecido da psique ao ler as peças de Skakespeare e as obras de Freud. Nesse ponto, o observador se torna emissor ao repassar a mensagem verbalmente ou gestualmente.

Os conflitos existenciais de Hamlet

Em “Hamlet”, escrita entre os anos 1599 e 1601, Shakespeare conta a história do príncipe da Dinamarca Hamlet, que passa a ocupar sua mente com a vingança da morte do pai, o rei Hamlet, que foi assassinado pelo irmão, Cláudio. Este se torna o novo rei ao se casar com a viúva Gertrudes em pleno conflito com a Noruega, que ameaçava invadir o território do inimigo. No Castelo de Elsionore, então, um fantasma inicia sua perambulação pelo local, como se quisesse dizer algo que foi ocultado, o que nos guia para um cenário psicanalítico, porque o paciente fica livre para se abrir ao se posicionar cuidadosamente no divã.

Na obra de Shakespeare, o fantasma, que tem a aparência do rei assassinado, consegue conversar com Hamlet e ainda revela que foi morto por Cláudio, o que gera um sentimento de vingança no príncipe. No entanto, os pensamentos nem sempre condizem com as emoções. A Psicologia nos mostra que podemos ter “dupla personalidade” mesmo quando não queremos isso conscientemente. O Marketing se aproveita dessa condição humana para oferecer produtos por meio de mensagens sugestivas, que, de alguma forma, moldam o desejo e o confundem com a necessidade.

O drama de Hamlet para vingar a morte do pai revelou o que é a loucura e a lucidez

O interessante, diante desses conflitos, é que havia outro, como a paixão do príncipe por Ophélia, filha de Polônio, uma espécie de “homem forte” do rei Cláudio. Este quase foi morto por Hamlet, mas escapou porque o sobrinho recuou ao observá-lo rezando. Pouco depois, Polônio é assassinado pelo rapaz, que o confundiu com o seu tio depois que o pai de Ophélia espiou atrás das cortinas uma conversa entre o jovem e a mãe, Gertrudes. A tragédia shakespeariana, sem sombra de dúvidas, é repleta de cenas que simulam com perfeição os momentos que nós mesmos vivenciamos diariamente.

Fascínio de Freud por Shakespeare

Se Hamlet sofria de “Complexo de Édipo”, essa questão foge ao campo da realidade e adentra no campo da fantasia. Ao mesmo tempo, Freud nutria um fascínio pela produção de Shakespeare, que considero um psicólogo, por conta da habilidade que tinha em destacar traços de personalidade e colocá-los em contextos específicos. “Voltando à questão anteriormente proposta, Freud parece ter lido Shakespeare em inglês durante toda sua vida, chegando a reconhecê-lo como o maior dos escritores. Associava Shakespeare a Moisés e sua meditação sobre Moisés de Miguel Ângelo foi publicada anonimamente em 1914, pois de início não queria que seus discípulos compartilhassem do efeito pasmante e enigmático que certas obras-primas da literatura e da escultura poderiam ter sobre ele”, comenta Carlos Pinto Corrêa no artigo.

O "Pai da Psicanálise" era a imagem e semelhança de si mesmo e de personagens míticos


E prossegue dizendo: “Antes de falar de Moisés, fala de Hamlet. Freud diante das duas obras-primas que são a estátua de Moisés e Hamlet, estabelece a sua relação com os dois autores, Miguel Ângelo e Shakespeare. Moisés ativava a imaginação de Freud e Shakespeare lhe causava ansiedade por sua obra que denunciava sua fixação edipiana”. O psicanalista acertou em cheio nesse comentário. O “Complexo de Édipo” foi preponderante na leitura de Freud acerca dos conflitos existenciais, que já começam na infância, período no qual a civilização ainda não é reconhecida como “sucessora” do mundo primitivo.

William Shakespeare é tão real quanto seus personagens porque era um grande psicólogo

A Psicanálise também ocupa um lugar central na minha pesquisa sobre o comportamento dos faccionados. No meu segundo livro, “Guerra urbana – o homem vida loka”, utilizo muitos conceitos do “Freud escritor” quando me refiro à conduta dos membros de organizações criminosas que atuam no Maranhão. A “troca de comando” nas “quebradas”, por exemplo, tem explicação mítica na literatura, sendo que as disputas entre Hamlet e Cláudio acontecem frequentemente nas comunidades. Levar isso em consideração significa compreender como esse mundo é pequeno.

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© 2019 por Nelson Melo.