• Nelson Melo

Irandi Marques: duas pessoas que se amam são linhas convergentes

Se tem algo que o Oráculo de Delfos nunca conseguiu responder é a definição de amor. Talvez, os vapores intoxicantes oriundos da decomposição da serpente Píton, que foi morta pelo deus Apolo, tenham impedido essa atividade intelectual. O psicanalista e filósofo Erich Fromm vinculou esse conceito ao de arte, ou seja, algo que precisa ser despertado e aprimorado, como uma obra artística que necessita, constantemente, ser praticada. Para o escritor maranhense Irandi Marques Leite, duas pessoas que se amam são linhas convergentes.

Irandi Marques Leite é membro da Livraria AMEI e da Academia Ludovicense de Letras (ALL)

Membro da Livraria e Espaço Cultural AMEI (Associação Maranhense de Escritores Independentes), da qual sou membro associado, Irandi Marques Leite aborda a questão do amor em seu poema “Retas da Vida”, que, na minha opinião, é um verdadeiro tratado filosófico sobre esse tema, que está diretamente relacionado a fatores emocionais, fisiológicos e míticos. Para o escritor maranhense, que nasceu em São Luís/MA, num certo ponto essas pessoas que se amam se encontram. Ele prefere denominar esse fenômeno de “intersecção sublime”.

Esse fenômeno não teria vínculo com retas, mas sim com amores, conforme Irandi, que também é membro da Academia Ludovicense de Letras (ALL), onde ocupa a Cadeira nº 9, cujo patrono é Antônio Henriques Leal. No poema, ele observa que, até hoje, ninguém se dedicou a estudar dois conjuntos de amor, muito menos essa intersecção. Sendo assim, os elementos se conjugam um para o outro nessa união. Como resultado, nascem as verdadeiras famílias, nas palavras do membro da Livraria AMEI, que fica no São Luís Shopping, na capital maranhense.


O amor é discutido em um banquete filosófico que contou com a participação de Sócrates

Apesar das “linhas convergentes”, nesse cenário de indefinição sobre o amor, as pessoas se afastam umas das outras com uma velocidade assustadora. Como Irandi Marques Leite observa, nada parece detê-las nesse processo de dispersão física e emocional. O escritor indaga se isso poderia ter como explicação a lógica, a matemática ou a física. Ou, então, seria por conta de nós mesmos. Amar é verbo intransitivo, como Mário de Andrade comentou na capa do seu romance modernista? Ou seria um “impulso cego” que tem como propósito a perpetuação da espécie, como questionou o filósofo Arthur Schopenhauer? Poderíamos até imaginar um cenário hipotético no qual as pessoas buscariam, primeiro, o autoconhecimento, para que pudessem ingressar em um relacionamento amoroso.

Essa conversa bem que poderia ocorrer em um banquete, de maneira similar ao contexto mencionado, de forma literária, por Platão. Na conhecida obra do filósofo grego, Sócrates usa a personagem Diotima para explicar como descobriu aspectos desse sentimento. Então, dentro desse discurso, temos o seguinte: se o amor não é belo nem bom, será feio e mau? A sacerdotisa mencionada em “O Banquete” conseguiu desvendar o amor em sua origem, o que nos oferece uma resposta menos idealizada sobre o aspecto intrínseco dessa realidade afetiva.


O tema do amor é muito problematizado na filosofia e ciência porque envolve afeto e apego

Da mitologia para a literatura, as fronteiras são quase invisíveis. Do Monte Olimpo, as pessoas podem ficar cegas ao tentar vislumbrar o que há na superfície. Ou, então, podem alcançar um estado de percepção que as permitiria detectar a fina camada que separa o sofrimento e a felicidade. O amor está nesse mundo que nós conhecemos desde a infância. Esse é o lugar onde as linhas convergem para um ponto afetivo que não pode ser compreendido parcialmente sem o auxílio da razão.

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© 2019 por Nelson Melo.