• Nelson Melo

José Neres: a poesia não marca hora para chegar

Em 2014, foi eleito para a Academia Maranhense de Letras (AML), ocupando a cadeira 36, deixada vaga pelo falecimento do grande intelectual Ubiratan Teixeira. Estou falando, evidentemente, de José Neres, que nasceu em São José de Ribamar/MA, em 17 de fevereiro de 1970. O escritor maranhense é detentor de um texto eminentemente provocante e, ao mesmo tempo, suave. Para ele, a poesia não marca hora para chegar. Em “Poética”, esse pensamento é evidenciado com todo o esplendor de uma circunstância que nos remete à origem da civilização.

O escritor e professor José Neres é membro da Academia Maranhense de Letras (AML)


A poesia, para quem ainda não sabe, não surge racionalmente, em um contexto de imposição de ideias em prol da simples vaidade. Não é assim. Quanto mais um autor está influenciado pela emoção, mais o seu texto se torna autêntico porque contém o que há de estranho e familiar no ser humano. Se a poesia marcar hora para chegar, então estaremos diante de um capricho ou um ato volitivo. A dor incomoda, mas também promove a paz quando ocorre a reconciliação com aquilo que havíamos desprezado devido ao medo de perder tudo.

Experiente com as letras, José Neres sabe muito bem como ocorre esse processo criativo, que não aparece quando queremos que apareça. É algo similar ao transtorno de ansiedade: quando ficamos com medo de sentir os sintomas, como taquicardia, falta de ar e despersonalização, as crises se tornam mais fortes, pois antecipamos, psicologicamente, a desregulação dos níveis de serotonina no cérebro. Se, por outro lado, ocupamos a mente com outros pensamentos, o sofrimento é mais curto e menos frequente.

De igual modo, quando passamos horas tentando escrever um poema, o texto pode até surgir, mas de maneira desconexa. Ao olharmos conscientemente, nós não aprovamos. E, se deixarmos as ideias fluírem, sendo conduzidos por fatores emocionais, então o sorriso aparece porque ficamos satisfeitos com aquilo que está no papel ou na tela de um computador. De repente, o mundo externo fica repleto de personagens que só eram observados nas lendas, no folclore, nos contos de fada e no mito. Isso acontece porque, internamente, ocorre uma sensação de pertencimento à literatura, o que coloca a ficção no centro dos nossos desejos.

A poesia é causa e efeito do mito porque imagem e palavra se confundem na criação



“Quando quer, chega, entra e se abanca”. Como Neres afirma, o processo criativo funciona exatamente desse modo. As palavras não são escolhidas. Na verdade, elas nos escolhem quando permitimos. Mas isso acontece no momento da distração intelectual. A poesia se aproxima quando estamos dentro do ônibus lotado, fazendo compras no supermercado, deitados na cama esperando cair no sono, correndo na Reserva do Itapiracó ou aguardando o semáforo abrir. As ideias simplesmente emergem de um local inacessível. Esse lugar se localiza nas profundezas da mente humana.

É uma instância desconhecida até mesmo para o nosso cérebro. Alguns poetas, como Manuel Bandeira, chamaram esse lugar de Pasárgada, onde as pessoas são amigas do rei. Trata-se de um ambiente no qual a existência é uma aventura. Lá, a mãe-d’água aparece quando é convocada, para contar as histórias que nunca nos contaram quando éramos crianças. O cansaço favorece essa condição mental marcada pela criação literária infinita, cuja fronteira entre a civilização e o instinto é vigiada pelo barqueiro Caronte. Quando a poesia entra nos Campos Elíseos, então a linguagem adquire a forma de uma rima.

Pasárgada é um dos locais onde a poesia se abanca e se arranca (Foto: Monday Feelings)




Mas nem tudo são flores. Como diz José Neres, quando menos se espera, sem a ninguém avisar, a poesia se arranca. Calma, porque não é o fim do mundo, uma vez que outra aparece, em um ciclo que só é encerrado a partir do momento em que as luzes da consciência são apagadas para sempre. Na escuridão do crânio, por incrível que pareça, a literatura consegue ainda se manifestar, tendo em vista que o mito é um fenômeno transmitido de geração a geração.

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© 2019 por Nelson Melo.