• Nelson Melo

'Mês da Bíblia' e reflexão: 'Abre tua mão para o teu irmão'

Eu nunca escondi: Moisés é um exemplo de liderança. O profeta não entrou na “Terra Prometida”, mas conduziu os hebreus em direção ao local e, no percurso, transmitiu várias mensagens ao povo. Em Deuteronômio (15,11), há o seguinte: “Veja bem! Não faltam indigentes na Terra. É por isso que eu ordeno a você: abra a mão em favor do teu irmão, do seu pobre e do seu indigente na terra onde você está”. Esse trecho está fundamentando o lema do “Mês da Bíblia”. Sobre esse período de reflexão, conversei com a catequista maranhense Ana Maria Melo Costa.




A experiente catequista Ana Maria fazendo uma leitura na Paróquia de Santa Terezinha


Integrante da Equipe Litúrgica da Paróquia de Santa Terezinha – no bairro Filipinho, em São Luís/MA, a catequista disse que o “Mês da Bíblia” é importante para que o cristão aprofunde suas leituras acerca da Palavra de Deus. Além disso, serve, também, para a contemplação mais frequente dos ensinamentos de Jesus Cristo. Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Maranhão (Ufma), Ana Maria fez questão de frisar que, nesse período, a Igreja Católica aproveita o momento para realizar encontros bíblicos, celebrações, formações e orações.



“Nesse período da pandemia da Covid-19, a Igreja está se organizando para que esses encontros aconteçam de maneira on-line, por meio de lives ou vídeos. Além disso, está transmitindo uma mensagem para que possamos buscar nas palavras do Senhor a luz para nossas vidas e que, durante a caminhada, possamos encontrar o sinal de esperança”, expressou a catequista da Paróquia de Santa Terezinha, comunidade Nossa Senhora de Fátima. Conforme ela, o conteúdo bíblico ilumina o caminho das pessoas. No entanto, para que isso ocorra é necessário que os seres humanos abram seus corações e ouçam com mais sensibilidade e amor a voz do Pai.



Experiente na Liturgia, Ana Maria é catequista há 16 anos. Nesse intervalo, já exerceu diversas funções importantes na Igreja Católica. “Durante esse tempo, eu procurei mais me aproximar das escrituras, buscar formações, entender melhor o que Deus quer nos falar. Também procurei estudar mais para ajudar o meu catequizando a compreender o que Deus quer nos falar em nosso dia a dia”, pontuou a entrevistada.




O Livro de Deuteronômio está sendo o objeto de estudo nesta edição do "Mês da Bíblia"


Aproximação e “sentimento oceânico”


Na minha opinião, essa aproximação da qual a catequista mencionou seria equivalente ao “sentimento oceânico”, citado pelo escritor francês Romain Rolland, que protagonizou diálogos interessantes com Sigmund Freud acerca do aspecto religioso. Em “O mal-estar na cultura”, que tenho em minha biblioteca, o “Pai da Psicanálise” diz que recebeu uma carta do romancista, que leu o opúsculo do médico neurologista que trata a religião como ilusão. Freud comenta que Rolland concordou com a abordagem, mas lamentou “que eu não tivesse apreciado de maneira devida a genuína fonte da religiosidade”.



As correspondências entre ambos tiveram como centro de debate o texto “O futuro de uma ilusão”, de Freud. Esse sentimento citado pelo escritor francês, que venceu o “Prêmio Nobel de Literatura" em 1915, seria algo sem limites ou sem barreiras. Em outras palavras, é uma sensação de eternidade, como se o ser humano fosse indissociável do mundo exterior, devido ao pertencimento. Nesse sentido, o fenômeno religioso integraria os nossos processos subjetivos. De certo modo, essa questão poderia até ser estudada “por fora” do antagonismo entre as exigências do instinto e as restrições da civilização.




O "sentimento oceânico" tem a ver com a integração entre as pessoas e o ambiente externo



Eu percebo que esse “sentimento oceânico”, querendo ou não, tem abrangência no campo da Psicologia, por conta da experiência religiosa. Como disse Ludwig Feuerbach, a religião é a primeira consciência de si do homem, sendo que é indireta. Por esse ponto de vista, o ser humano projetaria, primeiramente, sua essência para o ambiente externo, antes de reencontrá-la internamente. No contexto urbano, eu vejo que a religião tem um papel importante no resgate de pessoas da “vida loka”, como constatei em vários momentos da minha pesquisa sobre o crime organizado no Maranhão.



No Polo Coroadinho, na capital maranhense, verifiquei uma situação peculiar: cristãos evangelizam nas “quebradas” até mesmo no período noturno sem que sejam importunados pelos faccionados. Com a Bíblia na mão, essas pessoas tentam mostrar a importância da fé para a salvação. O interessante é que o ambiente hostil não as intimida no sentido de recuar dali, para que o “sentimento oceânico” despertasse ou fosse reencontrado em um lugar mais favorável à segurança e integridade dos religiosos.



“Mês da Bíblia” e o aprofundamento das leituras



Setembro é dedicado ao aprofundamento das leituras da Palavra de Deus desde 1971, como resultado do Concílio Vaticano II, ocorrido em dezembro de 1961, sob a liderança do papa João XXIII. Então, podemos dizer que já são quase 50 anos dessa tradição no Brasil. O texto-base do “Mês da Bíblia” foi elaborado por um grupo de professores especializados, sendo que apresenta o contexto e objetivos do Livro de Deuteronômio (palavra grega que significa “segunda Lei”) e oferece informações sobre as características e vocabulário.





Escultura representando Moisés feita pelo artista Michelangelo a pedido de um papa


O Livro de Deuteronômio é uma reapresentação e adaptação da Lei em referência à vida de Israel na “Terra Prometida”. A ideia central é que o povo hebreu viverá feliz e próspero em Canaã se for fiel à aliança com Deus. Moisés, novamente, aparece como um personagem fundamental para a condução daquelas pessoas em direção ao lugar que foi prometido por Deus a Abraão, Isaac e Jacó. O profeta morreu nas estepes de Moab, no Monte Nebo. A partir dali, Josué assumiu o comando, pois estava repleto do espírito de sabedoria.



“Em Israel nunca mais surgiu outro profeta como Moisés, a quem Javé conhecia face a face”. Esse trecho final do Livro de Deuteronômio mostra o quanto ele foi fundamental para a libertação do povo hebreu. A liderança dele me fascina, porque nos fornece dicas sobre como devemos agir na família, no trabalho, na igreja, na comunidade, na escola e na universidade. O importante, no final das contas, é abrirmos as mãos para os nossos irmãos.

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© 2019 por Nelson Melo.