• Nelson Melo

‘Mito da Parelha Alada’ de Platão: nossa luta interna contra a maldade

O homem nasce bom e a sociedade o corrompe ou ele já nasce mau? Bem, essa dúvida é tão antiga quanto os fósseis do Homo sapiens datados de 300 mil a 350 mil anos que foram encontrados em Jebel Irhoud, sítio arqueológico no oeste do Marrocos, em 2017. A fim de descobrir algo, li vários livros de Filosofia, mas continuei sem resposta. Busquei auxílio na experiência, mas também não funcionou. Um ponto curioso é que, muito antes da minha chegada ao planeta Terra, Platão debateu a questão no “Mito da Parelha Alada”, que foi citado na obra “Fedro”, escrita em 366 a.C., aproximadamente.

O "Mito da Parelha Alada" nos oferece explicações sobre o comportamento humano

Nascido, provavelmente, no ano 428 a.C., Arístocles tentou equilibrar as teorias divergentes de Heráclito e Parmênides acerca do ser, uma vez que um defendia que tudo muda e outro alegava que o movimento é uma ilusão. O filósofo grego recebeu o nome de Platão em sua juventude, em virtude de algumas características do seu corpo. A palavra “Platon” significa “ombros largos”. O fato é que ele e Sócrates tiveram uma “dupla personalidade” de maneira similar a Nietzsche com relação ao seu personagem Zaratustra. Novamente, o aspecto mítico se manifesta como fator predominante em nossa psique, que, às vezes, desconhece os próprios limites racionais.

Sócrates, por meio de Platão, ao discorrer sobre a maldade, observou que “Daimónion”, uma espécie de força sobrenatural, influenciava em suas ações no sentido de obrigá-lo a tomar atitudes a contragosto. Em nosso cotidiano, passamos por situações que nos deixam desorientados quanto à ética do ato. Desse modo, acabamos filosofando ao indagar sobre os conceitos de bom e mau. Na prática, as definições desmoronam quando justificamos um comportamento, o que coloca a loucura e a sanidade na mesma linha. Isso fica mais evidente nas discussões sobre um assassinato cometido por alguém que alega legítima defesa ou defesa de terceiros.


Platão foi um grande filósofo que debateu a imortalidade da alma e as reminiscências


Pergunta sem resposta

Se a Filosofia iniciou o debate, a Psicologia deu prosseguimento. Mas nenhuma das duas conseguiu oferecer uma resposta para a dúvida, até mesmo porque a pergunta ultrapassa o campo terreno e entra na esfera religiosa. No fim das contas, a ciência e a metafísica explicam o “como”, mas não o “porquê”. Para falar a verdade, nunca saberemos, uma vez que a bondade e a maldade são comportamentos. Podem até ser ideias, mas se concretizam em ações, como ajudar a família venezuelana que pede esmola ao lado dos semáforos ou jogar o litro de refrigerante no chão do terminal de integração com a justificativa de que a Prefeitura paga pessoas para fazer a limpeza.

A moral atua dentro dessa esfera para colocar “ordem na casa”. O personagem Prometeu tentou fazer isso na mitologia, mas pagou um preço caro. A população também sofreu as consequências da iniciativa do titã, pois a “Caixa de Pandora” foi aberta de maneira proposital na Terra. O Direito, nesse contexto, contribui para padronizar uma conduta, por meio da aprovação ou da reprovação. Cada ato tem uma consequência, que pode ser penal ou meramente administrativa.

A maldade na civilização

No “Mito da Parelha Alada”, Platão descreve a alma humana como sendo uma instância dividida em três partes, que constituem a parelha alada. Sendo assim, há um cavalo representando um animal bom e outro cavalo representando um animal mau. No meio disso, existe um cocheiro, que conduz a carruagem em direção ao destino considerado incerto. Com essa alegoria, o filósofo de "ombros largos" Arístocles quis demonstrar que nós lutamos o tempo todo, internamente, contra dois lados contrários, que nos levam à destruição e à construção, isto é, ao ódio e ao amor ou ao vício e à virtude.

Essa tarefa é complexa, psicologicamente, porque cada cavalo quer seguir um caminho, pois suas “personalidades” são divergentes. O cocheiro, portanto, fica em constante desequilíbrio emocional e até se perde no percurso. Os conflitos existenciais movem cada parte da “parelha alada” para um interesse, em detrimento da lucidez e da racionalidade. Na série “The Walking Dead”, em uma das sagas, existe um grupo denominado “Salvadores”, que protagoniza momentos de tensão com outras comunidades: “Alexandria”, “Hilltop” e “O Reino”, em um mundo pós-apocalíptico, quando zumbis perambulam na Terra.

"Negan" aceitou o desafio dos adversários e os superou depois de uma contraofensiva


Em um primeiro momento, essas três comunidades (depois ingressam outras na trama) ficam sob controle dos “salvadores”, liderados por “Negan”, que é compreendido como o bandido da história. Após uma revolta coletiva, “Alexandria” e os outros grupos se unem em uma coalizão e derrotam, com força total, o inimigo, que estava em vantagem numérica e em poder de fogo. “Negan” não morre, mas é aprisionado em uma cela em condições precárias, como punição. Ele, no entanto, na temporada seguinte, passa de vilão para mocinho, tendo em vista que ajuda os seus antigos adversários na luta contra os “sussurradores”, que vivem como zumbis.

Percebam que a ficção nos oferece uma situação na qual a maldade se transforma em bondade quando o ponto de vista é modificado. A “parelha alada” se movimenta constantemente porque o “cocheiro”, às vezes, consegue domar os “cavalos”. Nesse contexto, a carruagem permanece sob risco de desaparecer temporariamente, como se nunca tivesse existido, mas nunca completamente na finitude do ser. Sócrates, ao conversar com Fedro, comenta que é muito difícil conduzir o veículo em virtude desses conflitos entre o aceitável e o inaceitável moralmente e eticamente.


O mesmo "Negan" que era vilão se tornou mocinho depois de passar anos como prisioneiro

A única maneira de escapar dessa "natureza humana" seria a elevação da alma ao grau superior, no qual a verdade seria alcançada sem a interferência de aspectos terrenos, segundo a filosofia platônica. Psicologicamente, ficamos à mercê dos desejos e das necessidades. Angustiado, sem saber o que fazer, alguém pode simplesmente largar os “cavalos” de mão e contar com a própria sorte, como fez Dom Quixote, que, para se sentir como herói, saiu da zona de conforto da razão e iniciou uma aventura no âmbito emocional, pois estava cansado de vivenciar as fantasias apenas nas leituras dos romances de cavalaria.




Vivemos narrativas em nosso cérebro desde a infância, o que nos coloca na condição de criadores e criaturas alternadamente ou simultaneamente. A partir disso, temos a chance de nos conhecermos parcialmente até o momento em que, finalmente, o ciclo mítico é encerrado em decorrência da morte do corpo.

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© 2019 por Nelson Melo.