• Nelson Melo

O admirável Mundo Novo de Huxley no contexto de violência urbana

O escritor Aldous Huxley nasceu em 26 de julho de 1894. Em 1932, publicou um livro espetacular: “Admirável Mundo Novo”. Na obra, o autor descreve uma sociedade aparentemente homogênea, na qual as pessoas exercem funções em um sistema de castas, sendo que se sentem felizes dessa forma. Uma droga chamada “soma” é ingerida regularmente pelos habitantes. Essa ficção é parecida com a realidade do Maranhão no que tange ao crime organizado, pois os faccionados agem como se não houvesse outra alternativa de vida. Para os criminosos, eles nasceram para aquela missão, que promove destruições.



A sociedade homogênea é o pretexto para que a realidade de ambiciosos funcione



No livro de Huxley, as pessoas são “fabricadas” biologicamente para aceitarem as condições do cotidiano sem qualquer questionamento, como no filme “Equilibrium”. Psicologicamente, o efeito é de harmonia, uma vez que não existe a ideia de ética ou moral. A “soma” era a substância que “calava a boca” de todos, o que deixava o ser humano livre de dúvidas sobre sua posição no mundo. A reprodução natural é descartada, uma vez que o processo é realizado artificialmente.


Desde a infância, nesse Mundo Novo, o ser humano é condicionado para compreender que não há outra opção de sobrevivência. Nesse sentido, podemos dizer que a criatividade é anulada, para que o sistema pudesse funcionar com perfeição, sem uma falha sequer. Como mostrou Huxley, não existe possibilidade de reflexão e ponderação sobre quem somos e onde estamos. Isso nos remete à série “Lost”, na qual a Iniciativa Dharma realizou experimentos científicos em vários ramos, incluindo a Psicologia.


A Dharma oferecia a ideia de que seria possível uma sociedade na qual todas as pessoas teriam oportunidades iguais. Em outras palavras, significa ausência de sofrimento. Na série, os hostis que vivem na ilha conseguem atacar os membros da Iniciativa, que são mortos em um massacre na Vila Dharma. Mas esses “nativos” dão sequência ao projeto de certa forma, pois, quando sequestram crianças, fazem uma espécie de “lavagem cerebral”, para que nunca questionem a sociedade dos “Outros”, de forma semelhante ao Mundo Novo de Aldous Huxley.



O personagem Karl Martin foi submetido a controle da mente na série "Lost"



Em um dos episódios de “Lost”, o personagem Karl Martin é colocado em uma sala da Estação Hidra. Ele fica preso em uma cadeira e usa óculos que emitem luzes, sendo forçado a assistir vídeos com flashes de imagens e frases, com uma música techno. Os hostis foram os responsáveis por essa punição, pois queriam controlar a mente do rapaz.


O “mundo velho” dos faccionados


Com relação aos faccionados, o mundo não é novo e muito menos admirável. Porém, as semelhanças com o sistema homogêneo são evidentes. Os adolescentes se tornam fanáticos pelo grupo porque são condicionados pela cúpula para sentirem afeto pela ideia da “vida loka”. Não ocorre lavagem cerebral, que é agressiva, mas, sim, condicionamento, que é mais sutil. Por este motivo, é eficiente no recrutamento dos jovens para o crime organizado.


Os membros de facções não recebem, denotativamente, a “soma”, como na obra de Huxley, mas isso acontece no plano metafórico. Os “tribunais do crime” fazem esse papel, uma vez que anulam qualquer possibilidade de questionamento nas comunidades. É um experimento que funciona nas “quebradas”, embora com algumas resistências de moradores que realmente acreditam que tudo não passa de uma ilusão, a partir de uma imposição psicológica.


As crianças nascem com perfeitas condições de seguirem o caminho correto para uma sobrevivência digna, dentro dos limites civilizatórios. Porém, elas esquecem as regras no decorrer do desenvolvimento etário. Isso significa que o Estado perde de goleada para as facções criminosas quando o assunto é persuasão. Esse processo é similar ao que ocorre na série “Blindspot” (Ponto Cego), na qual a personagem Jane Doe tem a memória apagada e de repente aparece jogada no meio da rua da Times Square, em Nova York, com o corpo repleto de tatuagens.



A personagem Jane Doe em "Ponto Cego" teve a memória apagada para uma missão



Um grupo criminoso conhecido como “Sandstorm”, devido ao nome da operação que os bandidos planejavam, deletou a memória de Jane para que ela se infiltrasse no FBI, a fim de destruir a instituição. Podemos afirmar que os líderes de uma facção também promovem o esquecimento dos novos membros, para que estes não sintam nenhuma consideração pelo Estado. Essa realidade movimenta a hierarquia desses grupos por meio da sustentação de um projeto que ultrapassa divisas e fronteiras, com difusão rápida nos presídios.


Esse é o “ponto cego” dos delinquentes, que não conseguem enxergar o óbvio se aproximando, pois estão focados na rotina das “quebradas”. O “mundo velho” é a face sombria da civilização, cuja fragilidade é disfarçada pela própria mensagem coletiva de democracia.

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© 2019 por Nelson Melo.