• Nelson Melo

O barbeiro ‘filósofo’ que trabalha na Feira do João Paulo

Como falei em uma live que fiz recentemente no instagram, aprendemos a escrever uma boa redação por meio da leitura e/ou da experiência. Na vida, nós somos submetidos a várias tentações o tempo todo. A escolha entre a “barca do Paraíso” e a “barca do Inferno”, como mostrou Gil Vicente, depende da nossa inclinação para o bem ou para o mal. Comumente, conhecemos pessoas que transmitem um conteúdo prático incrível. Neste domingo (30), conheci um barbeiro muito inteligente. Ele, que é evangélico, trabalha na Feira do João Paulo, na capital maranhense.




Podemos encontrar a verdade sobre a vida em um salão de beleza em qualquer lugar


Eu estava no local para comprar areia sanitária aos meus dois gatos domésticos, quando decidi aproveitar o momento para procurar um salão de beleza. Descendo em direção ao bairro Coroado, encontrei, ainda na Feira do João Paulo, um desses estabelecimentos, mas estava com pelo menos dois clientes na fila de espera. Continuei a “ronda”. Olhei, então, um barbeiro cujo ponto comercial estava sem ninguém na vez. Perguntei quanto estava custando o corte de cabelo na tesoura, ao que ele me respondeu que o preço era R$ 18, mas que iria fazer para mim por R$ 15.



Sentei-me na cadeira para que meus cabelos fossem cortados no estilo militar. Ao lado do salão, um bar tocava músicas de arrocha. O som estava alto. Eu, então, comentei: “Rapaz, o local aqui é movimentado, hein”. O barbeiro, cujo nome não irei divulgar aqui, disse que aquilo ocorria de domingo a domingo, sendo que, às vezes, o barulho era insuportável. O proprietário do estabelecimento continuou falando que a dona do bar, por outro lado, possuía muitas qualidades. A partir daquele instante, ele começou a filosofar. Eu fiquei impressionado com a forma como meu interlocutor se expressava: sempre usando trocadilhos, como se seu cérebro escolhesse as palavras corretas para um parágrafo.



Ele me contou que, recentemente, a proprietária do bar tomou uma atitude que o deixou encantado: pagou um táxi para que uma cliente embriagada fosse deixada em casa e ainda ofereceu sua própria residência para que a mulher dormisse até se recuperar do alto nível de álcool no sangue e voltasse à lucidez. O barbeiro disse que, no dia seguinte, procurou a dona do estabelecimento e teceu elogios, comentando que foi um ato admirável. “Eu vejo que nós temos que ver, também, o lado positivo das pessoas. Não acredito que exista alguém 100% mal, pois sempre há algo de bom para resgatarmos ali. Isso nos permite manter um diálogo, mesmo que o outro lado não queira. Deus ama o pecador, mas abomina o pecado. Temos que ser insistentes em reconhecer que cada um de nós tem uma história de vida”, expressou o profissional.




Como bom ouvinte, continuei prestando atenção ao que o barbeiro “filósofo” falava. Ele explicou que existem barreiras que travam qualquer relacionamento, mas que precisamos sempre iniciar uma conversa, para furar o bloqueio emocional. O profissional utilizou como exemplo a vida conjugal: quando há brigas, as partes passam até vários dias sem olhar para o rosto um do outro. Na opinião do meu interlocutor, isso nunca é legal, porque contamina a convivência, de tal forma que, se um não “quebrar” o orgulho, o consenso pode se tornar tão distante quanto a posição das estrelas fora do Sistema Solar em relação ao planeta Terra.



Prosseguindo em seu discurso ao estilo socrático, o barbeiro pontuou que até mesmo nas adversidades que enfrenta em sua vida tenta encontrar um sentido. Ele comentou que, às vezes, seu salão passa dois dias seguidos sem nenhum cliente, mas isso não o deixa desanimado, porque é algo que pode acontecer. O cotidiano do empreendedor contém a “cruz” e a “espada” em um ciclo, mas a diferença está na forma como tiramos lições de cada situação, como o profissional me explicou.




É sempre bom respirarmos fundo para não tomarmos atitudes infantis diante dos problemas


“Eu não vou mentir: tem dia que chego aqui desmotivado, porque sou trabalhador e preciso pagar contas. Tem o aluguel do ponto e outras coisas que preciso resolver. Mas eu consigo ficar sempre com o pé no chão, porque sempre há soluções. Só conseguimos notar isso racionalmente. E sou firme porque tenho a certeza de que Deus está comigo”, destacou. Ele esclareceu que nunca deixou de acreditar no Pai e que, há 20 anos, decidiu cortar cabelos não pensando em ficar milionário.



O barbeiro frisou que já passou por vários pontos na Feira do João Paulo. Em nenhum momento, desistiu de trabalhar naquele ramo, porque é a habilidade que possui e por meio da qual paga suas contas e sustenta a esposa e uma filha de 2 anos. “Tem gente que termina pior do que começou no mundo dos negócios. Vejo pessoas se destruindo espiritualmente e socialmente, deixando de vivenciar valores como a humildade, a paciência, a caridade, a compaixão e a compreensão. De nada adianta ter o mundo inteiro se alguém é pobre na alma”, enfatizou o homem.



Ainda cortando meus cabelos, ele disse que já passou por muitos problemas, mas que sobreviveu em todos, porque, em algum momento, parou, respirou fundo e colocou as cartas na mesa, para analisar o contexto lucidamente. Segundo o barbeiro, tudo isso foi necessário para que pudesse levar um pouco de experiência às pessoas, sobretudo em sua caminhada espiritual na Igreja Evangélica. “Se eu tenho o que vestir e calçar, não tenho por que reclamar. A partir disso, posso correr atrás das outras coisas. Se algum dia eu for retirado do ponto por atraso em aluguel, irei procurar outro. O desespero nos leva a tomar atitudes infantis. Temos que sair mais fortes das crises. Esse é o segredo”, observou o filósofo.



“É melhor não parecer e ser do que parecer e não ser”. Essa foi uma das expressões interessantes que utilizou no diálogo que teve comigo. O barbeiro citou isso quando falou que há muitas pessoas que julgam os outros sem realmente saber nada sobre o alvo das “fofocas”. O profissional expressou que tem gente que acha que ele não é evangélico, mas isso não importa porque, internamente, a verdade que está em sua consciência é o que vale a pena no final das contas.




A profissão de barbeiro é muito antiga com registros de atuação nos primórdios do Egito


Quando eu já estava quase saindo, chegou um homem no salão, que ofereceu alguns cordões que estava vendendo nas ruas em troca de um corte na máquina zero, pois estava sem dinheiro para pagar o serviço. Sentindo compaixão do próximo, o barbeiro disse que não usava aquele tipo de produto, mas que cortaria os cabelos do desconhecido assim mesmo. Para mim, aquele foi um ato realmente fantástico. Aquilo demonstra que sempre devemos enxergar o lado bom das pessoas e tentar compreender que todos passamos por erros e acertos.



Pretendo conversar outras vezes com o barbeiro “filósofo”. Eu sou um bom ouvinte, porque é assim que aprendemos as verdades e mentiras na vida. Todos nós somos sobreviventes. O mundo é perigoso, mas também é maravilhoso. No meio da multidão de desconhecidos, alguém está disposto a contar sua história. Então, quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Dentro do caixão, não somos mais nós quem estamos ali parados, com as mãos em cima do peito. O que éramos será narrado de um jeito ou de outro.



Faça o bem sem ignorar que possui fraquezas. E nunca se esqueça: do outro lado do Rio Aqueronte, no lugar de um barqueiro, pode ser um barbeiro o esperando para uma conversa agradável.

20 visualizações

© 2019 por Nelson Melo.