• Nelson Melo

O caçador deve sempre estar com um pouco de fome para não virar a presa

Recentemente, minha biblioteca ganhou volume com a aquisição de novos livros. Comprei, por exemplo, “Ascensão e queda dos dinossauros: uma nova história de um mundo perdido”, do paleontólogo Steve Brusatte; “O Livro dos Humanos”, do biólogo Adam Rutherford; e “Neandertal, nosso irmão: uma breve história do homem”, da paleantropóloga Silvana Condemi e do jornalista científico François Savatier. Já terminei de ler todos. Na obra de Condemi e Savatier, eles citam uma frase interessante: “O caçador deve sempre estar com um pouco de fome, pois a fome desperta os sentidos”. Essa ideia pode ser adaptada para várias situações do nosso cotidiano.




Os neandertais atacavam animais de grande porte conduzindo as manadas ao precipício




A frase, conforme os autores, pertence ao romancista chileno Luis Sepúlveda, que morreu em abril deste ano, na Espanha, em decorrência da Covid-19. A declaração do escritor foi mencionada em seu livro “Le vieux qui lisait des romans d’amour” (Um velho que lia romances de amor). A paleantropóloga e o jornalista fizeram a citação no início do capítulo “Carne, carne, carne... e tâmaras”. Ambos estavam se referindo à predileção do Homo neanderthalensis, popularmente conhecido como Neandertal, pelos animais grandes nas atividades de caça. Os nossos irmãos na escala evolucionária conduziam as manadas para uma armadilha natural.






“Como sabemos disso? Graças a escavações recentes de poços naturais em zonas calcárias como os de La Borde e de Coudoulous em Quercy. No fundo desses poços foram encontrados claros indícios de ‘caça empurrada para o abismo’ durante um episódio em clima temperado: ao menos 40 auroques teriam sido precipitados no poço de La Borde e mais de 200 bisões no de Coudoulous”, explicam os autores da obra no livro sobre os neandertais. Essas descobertas científicas, além de preencherem muitas lacunas nos estudos acerca dos hominídeos, também servem para compreendermos alguns aspectos da realidade social.





Excelente livro que comprei recentemente sobre a história do Homo neanderthalensis





Precaução no terreno do inimigo





Podemos conduzir a frase de Sepúlveda para o contexto de combate à criminalidade. Nesse ponto, ingressamos na circunscrição da minha área de pesquisa. Um policial jamais pode chegar com muita sede ao pote, pois essa conduta pode representar o fim da sua carreira do ponto de vista existencial, literalmente. Um “pouco de fome” é sempre necessário nas operações, especialmente quando o terreno é bastante explorado pelo inimigo. A prepotência não é uma boa companheira nesses momentos tensos. É mais viável o casamento com a prudência. Como diz um colega meu jornalista, a morte quer só uma desculpa.





Em 1979, o comissário de polícia Boris Giuliano foi assassinado na Sicília durante a investigação às cegas sobre a Cosa Nostra (máfia siciliana). Ele não se deu conta do perigo que corria movendo-se em um terreno pouco conhecido, nas palavras do juiz Giovanni Falcone. Sozinho, o comissário entrou na toca do lobo para ver o que o lobo estava fazendo. Mas o lobo o devorou, sobretudo porque Giuliano tinha poucas informações acerca do inimigo. Por este motivo, é importante que o caçador sempre tenha um pouco de fome. Agindo dessa forma, seus sentidos ficarão o tempo todo apurados. Em alerta constante, dificilmente será surpreendido pelo alvo em uma contraofensiva.




O terreno é um fator que sempre deve ser estudado com calma porque contém muitos perigos





Estômago cheio significa vulnerabilidade





Se o caçador entra em campo saciado, o seu instinto de sobrevivência não será tão forte quanto se estivesse com um pouco de fome. Com o estômago cheio, ele pode se descuidar até mesmo em detalhes triviais. De repente, pode ser cercado, sem chances de reagir, como aconteceu com os sobreviventes da queda de um avião Jack, Locke e Sawyer na série “Lost”, quando eles procuravam Michael dentro da floresta, numa ilha misteriosa, que já estava habitada pelos homens modernos disfarçados de primitivos. Os três, armados até os dentes, no meio da noite, não tiveram chances contra um grupo chamado de “Outros”, liderados, naquele clã, por Tom. Iludido, Jack diz ao líder que tem maior efetivo e poder de fogo para vencer o combate, ao que Tom responde: “É uma teoria interessante. Acendam as tochas”.






Várias tochas foram acesas simultaneamente no meio da escuridão da floresta, em forma de círculos, comprovando o cerco. Naquele instante, Jack se rendeu ao perceber que Tom não estava blefando e que os “Outros” estavam em vantagem numérica. Essa situação ocorrida na série “Lost” nos mostra que nunca devemos menosprezar o inimigo. O correto é partirmos para um ataque como se o alvo fosse tão forte quanto nós. Desse modo, não cometeremos o erro de sermos surpreendidos por algo que já deveríamos ter previsto ou levado em consideração. Em qualquer guerra, informação é tudo. Sem dados, a derrota é inevitável, porque ficamos dependendo da sorte.



Tom surpreendeu Jack na série "Lost" ao mostrar que seu grupo era maior dentro da floresta




Achar que não haverá riscos é a metáfora para a ausência da fome. O perigo está em qualquer lugar, até mesmo dentro de nós mesmos. Às vezes, uma pessoa perde a oportunidade de avançar porque luta contra dois inimigos: o interno e o externo. A saúde mental é uma das sete maravilhas do mundo ontológico. Em paz consigo, o sujeito pode se deslocar com cautela até alcançar aquilo que tanto almeja. Esse objetivo pode ser um carro, um emprego, uma viagem, um empreendimento, uma vaga na faculdade, um plano de saúde, uma reconciliação amorosa, a retomada de uma amizade, o lançamento do primeiro livro, uma rotina fitness, enfim.





Um dia do caçador e outro também do caçador





Nunca podemos deixar que o outro mande acender as tochas, como aconteceu com Jack, que ainda teve que entregar todas as armas ao grupo do Tom. A paleantropóloga e o jornalista frisam na obra “Neandertal, nosso irmão: uma breve história do homem” que a caça grossa era extremamente perigosa para o Homo neanderthalensis, que, segundo análises de fósseis desses hominídeos, se machucava gravemente no cerco aos animais de grande porte, de forma similar aos profissionais de rodeios durante as touradas. Não totalmente saciados, os neandertais, provavelmente, conseguiam aguentar o sufoco porque suas presas atendiam às necessidades calóricas do metabolismo dos caçadores.






A vida tem dessas coisas, mesmo. Eu não quero aqui relembrar a canção de Ritchie, mas o início da música pode ser utilizado para a compreensão da fuga do alvo quando estamos caçando e cometemos um erro grave: “Perdi a hora mas encontrei você aqui/Desde aquela noite eu nunca mais me entendi/Você levou meu coração, levou o meu olhar/Eu sigo cego e infeliz querendo te encontrar”. O segredo é nunca pararmos quando estivermos passando pelo Inferno. Seguindo nosso caminho podemos acessar, finalmente, um locus amoenus, onde não existe um dia da caça e outro do caçador.





O locus amoenus é um ambiente construído em nossa mente quando desprezamos a guerra


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