• Nelson Melo

O cadáver é a testemunha mais importante de um homicídio

Atualizado: Jan 14

Assassinatos existem desde o momento em que o Homo sapiens estabeleceu as civilizações como ponto de partida para o “início do mundo”. Se nada é verdade, então tudo é permitido, como diria Hassan Sabbah. Inalar o Hashishiyun antes das missões não é mais uma realidade, ainda mais no Ocidente. No Maranhão, como no resto do mundo, mortes violentas são tão comuns quanto jacarés no Pantanal. O problema se agrava quando a cena de crime é violada. Essa conduta deveria ser evitada, uma vez que o cadáver é a testemunha mais importante de um homicídio.


O criminologista e médico francês Alexandre Lacassagne, da Escola Sociológica de Lyon, ficaria decepcionado se voltasse no tempo e, por uma questão aleatória, caísse no Maranhão. Isto aconteceria porque encontraria Bonde dos 40, Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e “Neutros”? De certo modo, sim. Mas o seu sentimento de tristeza estaria relacionado ao efeito desse fenômeno do crime organizado, ou seja, o comportamento de violar locais de homicídios. Esse tipo de atitude só atrapalha a investigação policial e o trabalho dos peritos criminais.


Toda vez que um curioso entra em uma cena de crime, para bater fotos ou gravar vídeos, vestígios se perdem. Para a Criminalística, isso representa colocar sal no café no lugar de açúcar. Um local preservado é o ambiente perfeito para que os profissionais forenses atuem com segurança e confiança. Como repórter, lembro-me de uma cobertura que fiz no bairro do Cruzeiro do Anil, em São Luís, onde uma cápsula de pistola que já havia sido marcada no chão sumiu depois que moradores começaram a transitar na via pública. Naquele trecho, ocorrera um assassinato. O corpo da vítima estava no meio da rua.


O cadáver está ali, mas continua sendo a testemunha mais importante de um homicídio, sem sombra de dúvidas. Tudo o que está nas proximidades do corpo é uma extensão dele. Nada pode ser alterado. Um vestígio que desaparece pode representar o desaparecimento também do suspeito. O “quebra-cabeças” precisa ser concluído. Mas, para que isso aconteça, seguindo uma sequência lógica, os moradores devem cooperar, porque a Criminalística tem como objetivos a constatação do crime, oferecimento da dinâmica e autoria.


O perito criminal Cássio Thyone Almeida de Rosa, do Distrito Federal (DF), que foi meu professor da pós-graduação em Perícia Criminal pelo Instituto Nacional de Perícias e Ciências Forenses (Infor/MA), é um dos que batem nessa tecla o tempo todo. Com toda razão, ele não admite a violação de local de crime. Segundo Thyone, um dos princípios da Criminalística é o da Unicidade. Em outras palavras, significa que todos os objetos no universo são únicos. Por exemplo: não há duas coisas que se quebrem ou se desgastem exatamente da mesma maneira.


Sendo assim, um vestígio que é espalhado no local de crime rompe a dinâmica dos eventos, porque gera obstáculos no Corpo de Delito, que abrange o conjunto de elementos materiais e sensíveis do fato delituoso. O vestígio analisado se torna uma evidência. O perito criminal Cássio Thyone, em sua aula de “Introdução à Criminalística e Local de crime” na pós-graduação do Infor/MA, frisou que a primeira guarnição que chega à cena deve abordar o espaço com todo cuidado possível. O policial deve adentrar em linha reta ou pelo menor trajeto detectado.



Quando eu acompanhava a aula prática de Local de Crime em praça de São Luís


O ideal seria que apenas um policial realizasse esse procedimento, enquanto os demais cuidariam da segurança da equipe. Se for o caso, é importante verificar se a vítima ainda está viva. Nessa situação, a prioridade é o salvamento dela. Se estiver morta, o policial não pode mexer nem tocar em nada do local de crime, sob nenhuma hipótese, como o professor Cássio ressaltou. O policial deve retornar pelo mesmo trajeto que fez para entrar. Afastar os curiosos é outra atitude recomendada. E, por fim, isolar o espaço com fita zebrada ou outro material disponível. O cenário deve ficar preservado, para que os peritos criminais possam fazer suas atividades sem dificuldades.


Como ocorre nos demais estados do Brasil, no Maranhão a violação de local de crime ainda é comum. A principal testemunha do homicídio é, frequentemente, tocada pelos curiosos. Isso é um erro gravíssimo. A análise do cadáver pode resultar na identificação dos envolvidos no assassinato. Em um contexto marcado pela guerra urbana entre facções criminosas, a elucidação do delito reduz as chances de que outra morte violenta aconteça em um intervalo de tempo curto. Se um inquérito tem sua conclusão adiada, não seria um exagero colocar a culpa naquelas pessoas que acham que uma cena de homicídio é uma praia, cuja água está vermelha de tanto sangue.


A Criminalística não funciona como nas séries televisivas, nas quais Dexter, por exemplo, faz uma leitura sistemática sobre a dinâmica de uma morte somente observando as manchas de sangue. No mundo real, o crime é mais complexo. A fita de isolamento separa a vida e a morte. A foto batida pelo público não serve para explicar o delito. Depois que o morador volta para casa, os peritos e policiais continuam seus trabalhos. Eles, com certeza, levam na viatura a imagem de um cadáver que deixou de ser a principal testemunha do homicídio.

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© 2019 por Nelson Melo.