• Nelson Melo

O escritor inglês que atuou como agente secreto na vida real e ficção

Quando falamos sobre a Inglaterra, logo pensamos em William Shakespeare, em termos de literatura. Mas outro escritor daquela região também se destacou, para sua época, pela variedade de produções literárias. Daniel Defoe (1660-1732) é considerado um dos fundadores do romance inglês. Na imaginação popular, ele é lembrado mais pelo personagem Robson Crusoé. O que poucas pessoas sabem é que o autor foi agente secreto do governo, o que pode causar espanto para quem o observa apenas como um intelectual.



Robson Crusoé possibilitou que Daniel Defoe atuasse como agente secreto também na ficção


De acordo com a professora Sandra Vasconcelos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), o nome do escritor, na verdade, era Daniel Foe, mas, já adulto, alterou o sobrenome e acrescentou o “De”, para passar a sensação de nobreza. Ele objetivava gerar um pouco de elegância, digamos assim. O romancista era filho de um comerciante de velas e teve uma vida muito agitada, tanto profissionalmente como no que se refere à literatura.


Dentre as muitas profissões que exerceu, a de agente secreto do governo inglês talvez seja a menos comentada. Eu presumo que a explicação para isso seja o fato de que a função, para esse tipo de serviço, tenha como uma de suas características o disfarce. Muitos profissionais desse nível que atuam na CIA e no FBI morrem sem que a população mundial saiba quem são esses agentes. Nas polícias Civil, Militar, Rodoviária Federal e Federal, o setor de Inteligência é composto por “pessoas sem rosto”.


Se o leigo soubesse o semblante desses profissionais, então não seriam mais da Inteligência, mesmo que continuassem ali. Daniel Defoe, com certeza, enquanto esteve em atividade como agente secreto, também não tinha “rosto”. Fazendo uma análise rápida aqui, percebi o seguinte: quando um escritor utiliza pseudônimos ou heterônimos, para que seu verdadeiro nome não seja relacionado às suas obras, de alguma forma atua de maneira disfarçada.

Mesmo que suas “identidades falsas” sejam ramificações do nome do poeta, isso também acontece. Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos eram muito mais do que heterônimos de Fernando Pessoa, pois eram tratados como se realmente existissem na vida real. Esses personagens do poeta português possuem até biografias próprias. De igual modo, “Suzana Flag” fornecia um tom de agente secreto para Nelson Rodrigues, assim como “Dirceu” para Tomás Antônio Gonzaga, representante do Arcadismo.


Mas isso não acontece apenas nesse campo, uma vez que os próprios personagens podem ser disfarces dos autores. Robson Crusoé poderia ser o ideal de vida de Daniel Defoe. Ou, por outro lado, poderia representar o que ele mais abominava no ser humano. Querendo ou não, o escritor sempre lança um pouco de si nas obras, tanto afirmando como negando um comportamento. O livro é uma maneira de nós escritores conversarmos com o mundo, por meio de monólogos ou diálogos, como Nietzsche fez com Zaratustra.



Nietzsche pode ter se disfarçado no personagem Zaratustra no campo literário



O agente secreto é uma profissão, mas é uma representação na literatura, porque cada autor de livros disfarça sua conduta em personagens e nos enredos. De repente, Defoe poderia ter sentido o desejo de se isolar de todos. Ele conseguiu isso a partir de Robson Crusoé. No entanto, “Sexta-Feira” poderia ser o oposto de uma vontade predominante. A psicologia humana possui esses encontros e desencontros. São dúvidas que nos levam para o precipício ou para o cume da montanha.


A compreensão da conduta humana é uma atividade interessante diante dessa inconstância ontológica. O próprio Daniel Defoe escreveu manuais de comportamento dos homens e mulheres. A ilha onde Robson Crusoé viveu durante 28 anos “reativa” o mito que existe no inconsciente coletivo, no sentido primitivo do “estado de natureza”, conceito bastante discutido por filósofos como Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau.


Mas o “bom selvagem” continua sendo “mau”. A conduta de “colonizador” em Robson Crusoé, por exemplo, se manifesta em várias ocasiões na ilha. A literatura não é uma invenção. Na verdade, é a continuidade do que a civilização construiu ao longo dos séculos. Escondidos ou expostos, nós ainda sentimos medo de sermos reconhecidos no meio da multidão.

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© 2019 por Nelson Melo.