• Nelson Melo

O grito de socorro de Raimunda Frazão para salvar o verde das matas

A atuação do Homo sapiens na civilização já foi questionada por diversos filósofos, como Nietzsche. Refletir sobre a cultura é pensar no passado, presente e futuro. Se fôssemos motivados somente pelo instinto, seríamos bons ou a sociedade iria nos corromper do mesmo jeito? O fato é que a natureza recebe um tratamento agressivo desde épocas mitológicas, quando Zeus derrotou Cronos e assumiu o trono mítico. Bem distante da ilha de Creta, em outra, localizada no Maranhão, a cordelista Raimunda Pinheiro de Souza Frazão, membro da Livraria e Espaço Cultural AMEI, deu um grito de socorro para salvar o verde das matas.

A poeta cordelista Raimunda Frazão nasceu na cidade maranhense de Cantanhede



“Rainha do Cordel Maranhense”, como é, carinhosamente, chamada pelos amigos imortais e mortais, Raimunda Frazão pediu, em seus belos versos, a colaboração definitiva do ser humano na proteção da natureza. “SOS natureza, pedindo socorro, a árvore berra, gemendo e chorando, na lâmina da serra”. Com habilidade na literatura oral, a cordelista demonstrou preocupação no que se refere ao futuro do planeta, que, apesar de ser conhecido como “pálido ponto azul” - expressão que ganhou notoriedade com o astrofísico Carl Sagan -, possui a cor verde como uma de suas características naturais.

“Antes, só temia machado ou facão, hoje, em instantes, muitas vão ao chão, levada a tratores pelo correntão”. O que Frazão comenta nesse trecho do cordel é a realidade nua e crua da flora, infelizmente. Quando isso acontece, a fauna também é afetada, pois o ecossistema é um ciclo, cuja essência está diretamente relacionada à existência. Se essa cadeia de fatores bióticos e abióticos apresentar um desequilíbrio, o próprio Homo sapiens será atingido em cheio. A frequência do desmatamento comprova o quanto a ganância do ser humano não tem limites.


Raimunda Frazão encantando as crianças com cordel durante um evento em São Luís/MA

Nos versos, Raimunda Frazão questiona se o ser humano, ao destruir as matas, sabe que sem elas também vai morrer, uma vez que as nossas florestas perdem o brilho natural quando são agredidas. “O verde das matas, postas na fogueira, restará em breve, só em nossa bandeira”, conclui a cordelista maranhense, que nasceu na cidade de Cantanhede/MA. Ela faz parte do time de intelectuais da Livraria AMEI, que fica no São Luís Shopping, na capital maranhense.





A preservação da natureza é um ato coletivo que beneficia os fatores bióticos e abióticos

Cordel e poesia trovadoresca

Dizem que a literatura nasceu em versos. Antigamente, eram canções, isto é, poemas para serem cantados enquanto se dançava. Por este motivo, vários autores pesquisam a relação da poesia dos trovadores e as manifestações artísticas contemporâneas, incluindo a literatura de cordel. Vale relembrar que o Trovadorismo é o movimento literário que teve início entre 1198 (ou 1189), com a Cantiga da Ribeirinha, de Paio Soares de Taveirós, e terminou em 1418 quando Fernão Lopes foi nomeado Guarda-mor da Torre do Tombo.


Os cordéis de Raimunda Frazão podem ser adquiridos na Livraria e Espaço Cultural AMEI

“A poesia trovadoresca se apresenta em dois gêneros essenciais: o lírico amoroso e o satírico. Em virtude da então unidade linguística entre Portugal e a Galiza, o idioma empregado era o galego-português. As produções poéticas implicavam uma estreita aliança entre a poesia, a música, o canto, a dança, daí, o nome cantiga, sempre com acompanhamento musical, mais precisamente, instrumentos de corda como: viola, alaúde, harpa, saltério, entre outros”, destaca a professora Nelvi Malokowsky Algeri. Esse trecho foi mencionado em seu trabalho “A poesia trovadoresca e suas relações com a literatura de cordel e a música contemporânea”.

Sendo assim, os teóricos afirmam que a poesia trovadoresca influenciou no surgimento da literatura de cordel. De acordo com a professora Kênia Brant, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG), os poetas cordelistas eram também confundidos com os poetas repentistas, tendo em vista que eles também usavam a rima e a métrica para dar sonoridade à literatura tipicamente oral. A docente esclareceu que isso oportunizou a divulgação da gravura, especialmente da xilogravura, que nos primórdios das impressões dos folhetos era uma forma de garantir a autenticidade da autoria do poeta e do gravador.


A influência da poesia trovadoresca no surgimento da literatura de cordel é muito pesquisada

“À primeira geração desses poetas populares coube estabelecer as regras dessa literatura, que na realidade foi recebida como herança portuguesa seguindo a métrica de rimas por sextilhas, décimas, e outras rimas de repetição, para difundir as diversas narrativas que, depois de impressas, passaram a ocupar os espaços em extensos varais de barbantes ou cordas, a similitude com a palavra Cordel, ou seja, aquilo que está sob a corda. Assim, a poesia rimada passa a ser conhecida como Poesia de Cordel”, pontua a professora em um artigo publicado no site do IFMG no dia 1º de agosto de 2019.

A cordelista Raimunda Frazão faz parte dessa linda história, sendo que seus versos encantam as pessoas e causam reflexões importantes sobre situações do nosso dia a dia. A poesia da “Rainha do Cordel Maranhense” tem o poder de construir o amor e destruir o ódio, de tal modo que as próximas gerações poderão viver em um mundo no qual o desmatamento não fará mais parte do cotidiano das árvores.

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© 2019 por Nelson Melo.