• Nelson Melo

O legado de Aristóteles como observador para os policiais da atualidade

Em 322 a. C., Aristóteles, após uma intensa vida de agitação política, epistêmica e filosófica, morreu, em uma propriedade que pertencia à sua família materna, depois de ter se refugiado em Cálcis, devido ao falecimento de Alexandre, o Grande. O filósofo produziu muito, em várias áreas, incluindo a Biologia e Astronomia. Uma das grandes qualidades dele era a observação sistemática da natureza. Um ser vivo que fosse arrastado pelas ondas do mar já despertava a curiosidade do pensador. Para os dias atuais, presumo que ele seria um ótimo policial.



O filósofo Aristóteles explorou diversas áreas do conhecimento e por isso se destacou



Aristóteles nasceu em 384 a.C., em Estagira, pequena cidade onde é hoje o norte da Grécia, sendo que estava sob o domínio da Macedônia. Mas antes foi controlada por Atenas e Esparta. O pai dele, Nicômaco, era médico da corte macedônica. O filósofo foi preceptor de Alexandre, o Grande, sob ordens do rei Felipe II. “Mais importante do que suas relações com Felipe e Alexandre, porém, foi o seu encontro com Platão”, frisou Marco Zingano, doutor em Filosofia pela École des Hautes Études em Sciences Sociales.


Aos 17 anos, Aristóteles, segundo o professor Zingano, chegou a Atenas e entrou na Academia de Platão, em 367 a.C. Ele permaneceu nessa instituição durante 20 anos, até a morte do seu mestre. “A relação entre os dois gigantes do pensamento, de estilos e tendências bem diferentes, é um tema fascinante. Platão, filósofo literário; Aristóteles, argumentador de rara precisão. Platão, idealista; Aristóteles, investigador da natureza”, analisou o pesquisador.

Há relatos de que Aristóteles era tão dedicado aos estudos, na Academia de Platão, que foi apelidado de “O Leitor” pelos demais discípulos. Marco Zingano destacou que, ao mesmo tempo em que lia assiduamente, o filósofo exercia suas habilidades de observador da natureza.


O “policial” Aristóteles


Nada passava despercebido pelo “estagirita”. Qualquer movimento despertava sua atenção. Poderia ser apenas o vento balançando as árvores, mas já era motivo para revirar os olhos. Ele também costumava contemplar o céu, o que o levou a explorar a Astronomia, também. Esse comportamento de Aristóteles permitiu que seus sentidos fossem aprimorados. Essa é uma característica muito importante para um pesquisador e para um policial, sobretudo para quem trabalha na Inteligência.


Na série “The Walking Dead”, existem os “sussurradores”, humanos que se comportam como zumbis. Inclusive, utilizam roupas precárias e usam máscaras feitas de peles desses mortos-vivos. O personagem Daryl Dixon, quando estava acompanhado de Michonne, se deparou com um grupo de zumbis se aproximando, em uma ponte. Naquele momento, ele não tinha como discernir quem eram os “sussurradores” no meio do bando.


Então, treinando rapidamente sua observação e inteligência, começou a atirar com sua besta (arma medieval que tem um gatilho). A primeira flecha atingiu a coxa de um zumbi, que não sente dor. A segunda mostrou quem era o “sussurrador”, pois o alvo caiu no chão e foi devorado pelos mortos-vivos. Agindo dessa forma, Daryl demonstrou que não se deve perder tempo quando o problema precisa ser resolvido logo. Observar também é sobreviver.



Não tinha como Daryl saber de imediato quem era zumbi e quem era "sussurrador"



Essa conduta tornou Aristóteles um pesquisador atento, especialmente na Biologia. Ele foi capaz de perceber o que é comum no meio da maior diversidade. O filósofo nos ensinou que não é necessário apenas dominarmos a Matemática para compreendermos a natureza, uma vez que é essencial identificarmos as unidades básicas do mundo. Todos os valores de um objeto analisado devem ser levados em consideração, até mesmo o aspecto simbólico, que pode nos direcionar para uma conclusão.


“Aristóteles foi um notável investigador da natureza. Suas observações dizem respeito aos mais diferentes domínios: a natureza dos astros, as órbitas celestes, os mais diversos tipos de animais, o desenvolvimento do embrião, as mudanças químicas, os primeiros elementos e suas modificações físicas, os metais, os ventos, enfim: o campo inteiro da natureza”, comentou Zingano. O filósofo agia da seguinte forma: iniciava seus estudos fazendo levantamentos do que já havia sido descoberto acerca de um evento. Nota-se, aqui, a relevância da História. No crime organizado, saber como uma facção se originou e se desenvolveu é essencial para o entendimento do presente.



Daryl treinou sua observação e usou a besta para resolver o problema da distinção



Desse modo, tentava detectar contradições ou relações entre os pontos. A partir dessa confrontação de ideias e a experiência do investigador, o sujeito seria capaz de avançar na apuração de um caso. Além disso, Aristóteles, quando observava um crustáceo, por exemplo, passava dias analisando seu modo de vida, incluindo a reprodução. Também costumava ouvir pescadores e viajantes sobre determinado animal, a fim de reunir mais elementos para fundamentar sua pesquisa.


Um bom policial também segue esse procedimento: observar e ouvir. Os sentidos devem sempre agir em consonância, porque tudo está interligado. Como jornalista, quando trabalhava na editoria de Polícia, tinha esse costume de, em um local de homicídio, ficar “infiltrado” entre os curiosos para escutar algo entre eles que poderia ser útil na minha matéria acerca do assassinato. Na maioria das vezes, no meio da multidão, alguém falava alguma coisa que poderia ter sentido.


Uma informação não é construída somente pela visão. A audição tem papel importante nessa tarefa. O papel do policial é reunir o que foi coletado, em diversas “frentes”, para detectar um padrão, como Aristóteles fazia. O objetivo sempre deve ser a verdade. Então, se, de repente, um crustáceo aparecer em um local de crime, não se assuste: pode ser um sinal enviado pelo “estagirita” para que a investigação tome outro rumo.

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© 2019 por Nelson Melo.