• Nelson Melo

O ‘Mito de Giges’ e a fraqueza do caráter ético no contexto dos grupos

Platão nasceu em Atenas (Grécia), em 428 a.C. e morreu na mesma cidade, em 347 a.C. O filósofo, cujo nome provém do fato de ter ombros largos, foi contemporâneo a grandes nomes, como Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristóteles e Aristófanes. Em “A República”, o pensador descreve, em um diálogo com Sócrates, o “Mito de Giges”. Nesse conto, o leitor é convidado a imaginar o que faria se encontrasse um anel que o deixasse invisível. O caráter ético das pessoas seria colocado à prova nesse experimento.



Platão discorre sobre o "Mito de Giges" em diálogo com Sócrates em "A República"



Segundo a tradição, Giges era um pastor que servia na casa do rei da Lídia. Em virtude de uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, por meio das quais, espreitando, viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão.


Ele arrancou o anel e saiu. Ora, como os pastores se reuniam, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, como ia seu trabalho com os rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta no engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se tivesse ido embora.



O anel de ouro pode mostrar quem realmente somos ou quem nunca fomos



Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado esses fatos, experimentou ver se o anel tinha aquele poder e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse par afora, ficava visível. Assim, senhor de si, logo conseguiu se tornar um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do rei e, com a ajuda dela, atacou-o e matou-o, e por fim tomou o poder.


O final do conto diz o seguinte: e disto se poderá afirmar que é uma grande prova de que ninguém é justo por sua vontade, mas forçado, por entender que a justiça não é um bem para si, individualmente, uma vez que, quando cada um julga que é possível cometer injustiças, comete-as. Então, como indagou Sharon M. Kaye (professora de Filosofia da Universidade John Carroll), no livro “Lost e a Filosofia”, se você tivesse um anel assim, não experimentaria pelo menos alguma das coisas consideradas imorais?



Dois livros da minha biblioteca que utilizei para escrever este artigo sobre o "Mito de Giges"



“Se o único motivo pelo qual fazemos ‘a coisa certa’ é o medo de sermos pegos, então nosso caráter ético é muito fraco”, ponderou a professora. Se isso se aplicasse à realidade, muitas pessoas mostrariam sua verdadeira face. Obviamente, pelo que conheço da Psicologia, outras, por mais que experimentassem o anel, não usariam o objeto novamente. Tudo isso tem a ver com a nossa convicção sobre o certo e o errado (bom e mau) e também com nossa intimidade, ou seja, o aspecto mais profundo da nossa personalidade.


Nas sociedades humanas, mesmo sem a utilização do anel, pessoas praticam atos sórdidos, como vencer na vida após participar da derrota de outra. Ou manipular alguém para que não seja um concorrente. No crime organizado, o jogo repete o que acontece fora desse contexto. Líderes de facções criminosas recrutam mais e mais jovens para suas fileiras, mesmo sabendo que não existem garantias em qualquer guerra. O rapaz que está morto no chão não pode espantar as moscas. Ele será substituído por outro que está sedento por aventuras, com essa ideia de eliminar o “alemão”.


Mas essa realidade encontrada nas facções criminosas acontece em empresas, famílias, repartições públicas, enfim, em todas as instituições. O fracasso de alguém, às vezes, é provocado pelo próprio companheiro de trabalho. A derrota do outro é motivo de comemoração. Isso, simbolicamente, é a “morte”. Então, eu deixo aqui a reflexão para o leitor do site: o que você faria se achasse o mesmo anel do “Mito de Giges”? A grande dificuldade é que, para essa pergunta, não poderemos contar com a ajuda do “universitário” Platão.

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