• Nelson Melo

O poder da prevenção: o dardo que vimos aproximar-se chega mais devagar

O escritor Dante Alighieri, autor da célebre “Divina Comédia”, percorreu os diferentes níveis do Inferno, com a ajuda do poeta Virgílio. “O dardo que vimos aproximar-se chega mais devagar” foi uma das suas mais famosas frases. Essa afirmação tem muito sentido quando analisamos nossas vidas em todas as esferas, do amoroso ao profissional. Na saúde e na doença, também tem sua aplicabilidade. Lentamente, conseguimos observar o alvo, quando estamos preparados. Caso contrário, somos atacados por algo que poderíamos ter previsto.


A forma como você se protege também interfere na forma como você ataca na vida



Do alto da montanha, podemos notar como a vida na Terra é diversificada. As rochas carregam a História, muito mais do que carregam a Geologia. Embaixo do solo, pode existir um Inferno, que foi explorado por Dante no mundo fictício. Na atmosfera, a ideia de Paraíso é mais sugestiva, demonstrando que a camada mais próxima da crosta terrestre foi, durante as gerações, inspiração para mitos, lendas e devoção. De repente, um dardo pode nos atingir, vindo de uma direção que não estávamos focando, pois a nossa única preocupação era contemplar a natureza.


Mas não são nossos sentidos que nos atrapalham. Na verdade, são as nossas emoções. Dependendo da forma como estamos nos sentindo, a distração pode representar a nossa decadência fisiológica ou psicológica. O mundo é perigoso, sim, mas nós temos uma função conhecida como percepção, que é essencial para a nossa compreensão de nós mesmos e do ambiente onde estamos. O sinal de “fuga”, que nosso cérebro emite, nem sempre é interpretado como um medo, tendo em vista que o leão que aparece na entrada da caverna poderia ser apenas um fantasma ou o reflexo de uma pintura rupestre.


De emoção em emoção, somos levados ao “fim do jogo” ou a uma “jogada de mestre”. Se você não souber que o cavalo se movimenta em “L” no xadrez, o seu rei pode ficar exposto por causa de um desleixo de quem desconhece suas próprias peças do tabuleiro. Não adianta mudar seu nome para Raimundo, pois o vasto mundo, citado pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, continuará sendo vasto mundo. A rima seria apenas uma vaidade, pois a solução estaria distante dos seus olhos.



Uma jogada errada sob forte emoção pode colocar sua vida em risco até em tempos de paz


A solução é prever o dardo, sabendo que os perigos estão por toda parte. Caminhar como o coelho que, colocado em um recipiente contendo uma sucuri, se desloca em direção à cobra, seria um suicídio indireto, que acontece quando, conscientemente, não pretendemos nos matar. Às vezes, a morte começa nas emoções, a partir de escolhas erradas que fazemos diante de uma situação que se apresenta como tensa. No campo dos afetos, o sujeito já está destruído, embora o problema não seja do tamanho que ele imagina ser.


A linha do horizonte esconde o óbvio. Navegando por mares agitados, um tesouro pode ser encontrado. De quebra, a pessoa se fortalece enquanto ser humano, por meio da neutralização do medo de algo que ele até então não havia explorado. O desconhecido gera angústia. Não é preciso sermos um filósofo como Søren Kierkegaard, autor de “O Desespero Humano”, para concluirmos que, em determinadas ocasiões, é mais saudável ficarmos de joelhos e agradecermos do que ficarmos em pé e tentarmos provar a existência de um fenômeno.



O bom jogador sabe se esconder nos ambientes não por ser covarde mas por ser corajoso


Espere e veja. Ser caçado o tempo todo é prejudicial para nossas emoções e cognição. Quando mudamos de postura, ou seja, atuamos como caçadores, o inimigo começa a ter conteúdo ou forma. O vento vai avisar se o dardo está se aproximando. O mato não é ambiente exclusivo para essas situações. Na zona urbana, muitas pessoas são atingidas pelo objeto pontiagudo, em momentos não caracterizados por jogos olímpicos. É um contexto de guerra mental.


Portanto, não seja surpreendido pelo inimigo, que contém a sua imagem e semelhança. Pense sempre na verdade, na objetividade dos fatos. Viver de emoções fictícias é o caminho mais curto para a morte das emoções reais.

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© 2019 por Nelson Melo.