• Nelson Melo

O ‘proibido roubar na comunidade’ é a venda de proteção da máfia siciliana

Como pesquisador e um defensor da ciência, eu não me limito a estudar a criminalidade apenas pelo que observo. A experiência é importante, mas não é tudo. A leitura é outra poderosa ferramenta que utilizo para compreender esse fenômeno social. Percebo muitas semelhanças entre a máfia siciliana e as facções criminosas que atuam no Maranhão. São os padrões arquetípicos, que cito em quase todos os artigos. O “proibido roubar na comunidade”, por exemplo, nada mais é que a venda de proteção dos “homens de honra” do coração do Mar Mediterrâneo.


A Sicília é uma ilha pertencente à Itália. De acordo com o repórter e pesquisador Jo Durden Smith, em sua obra “A História da Máfia”, o local foi ocupado por vários povos, entre gregos, romanos, bizantinos, árabes, alemães e franceses. Também foi invadido por piratas. A transformação do lugar em uma imensa propriedade cultivada foi promovida por Roma, que deslocou vários escravos para essa atividade feudal, que resultou na produção de trigo.



São Luís e Sicília: duas ilhas cujas histórias do crime organizado possuem semelhanças


O interessante é que movimentos como o Renascimento, Reforma protestante e Iluminismo não foram “sentidos” na Sicília. A maior parte da ilha pertencia a senhores aristocráticos, que controlavam os negócios de longe, em seus palácios luxuosos. Por ter sido invadido inúmeras vezes, o local recebeu uma espécie de patriotismo, sempre com a ideia de resistência ao ocupante. Nesse ponto, nota-se uma convergência com o que aconteceu no Maranhão, quando os “detentos da capital” não permitiam a entrada dos “detentos do interior” no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís.


Havia uma resistência dos internos de São Luís com relação aos do interior maranhense, sobretudo os da Baixada Maranhense. Na Sicília, o crime se fortaleceu pelo fato de que o terreno era montanhoso e acidentado. Segundo Jo Smith, até o século XX, praticamente não havia estradas na ilha italiana. Na Ilha do Maranhão, a formação desordenada dos bairros também facilitou a atuação de bandidos. Quando a Prefeitura de São Luís decidiu asfaltar o “Morro do Zé Bombom”, no Coroadinho, os integrantes do Bonde dos 40 resistiram, pois as ruas precárias favoreciam a atuação dos faccionados.


Venda de proteção


“Os agentes da lei eram escassos e dispersos, e assim, durante muito tempo, o banditismo foi uma boa opção de carreira para rapazes que permaneciam protegidos da lei, caso ela chegasse, pela lealdade de famílias e clãs. Essa lealdade, principalmente entre parentes próximos, superava tudo. Não é à toa que a unidade básica da Máfia chama-se ‘A Família’”, explicou o repórter Jo Smith. O pesquisador assinalou que os aristocratas contrataram administradores para suas propriedades na Sicília, para proteger a terra, os rebanhos e os edifícios não apenas de bandidos, como também da disseminação de ideias liberais.


Mas não era somente com esse intuito. Os administradores também deveriam zelar pelo trabalho dos camponeses meeiros. Os contratados eram homens fortes, com poder e influência, que, caso tivessem que matar um invasor, tinham carta branca para isso. Porém, essa “segurança privada” passou a cobrar “por fora”, também, dos camponeses, para cuidar dos interesses deles. Nas “folgas”, transformavam-se em bandidos, para ganharem outra renda extra. Ganhou corpo, então, a venda de proteção.



Livro que usei para fundamentar a relação entre a máfia siciliana e as facções no Maranhão


Quando surgia algum conflito, o “homem de influência” resolvia de forma mais rápida que a Justiça. Formou-se uma sociedade secreta, que fazia “justiça com as próprias mãos”, com códigos específicos: a máfia siciliana. Essa realidade nos remete aos “tribunais do crime”, recursos das facções criminosas para punir quem desobedecer às regras estabelecidas pelo grupo para uma “quebrada”. A venda de proteção nada mais é que o “proibido roubar na comunidade”.


Os faccionados ignoram o Estado completamente. O Direito, para eles, só existe quando são presos. Enquanto estão soltos, impõem as suas normas para todos da organização e para os moradores. Não à toa, em muitas ocasiões, até brigas entre marido e mulher são levadas para o “disciplina” e “torre” solucionarem. Isso acontece aqui na região metropolitana de São Luís. Não é algo do sudeste brasileiro. Na verdade, são situações mundiais. Ou melhor, históricas.


Por muito tempo, as autoridades ignoraram a existência da máfia siciliana. “A máfia é uma fantasia, invenção dos policiais do norte”. Isso foi muito repetido pelo Estado. Distorcer a realidade não muda a realidade. Entre a Sicília e São Luís, as semelhanças não param por serem ilhas, pois a história de uma está pesando na história da outra.

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© 2019 por Nelson Melo.