• Nelson Melo

O que se movimenta atrai mais o olhar do que aquilo que não se move

Como disse o crítico literário norte-americano Harold Bloom, existem poucas biografias boas sobre Shakespeare, “não por não sabermos muito, mas por não haver muito o que saber”. O dramaturgo inglês, famoso mundialmente, teve como inspiração Virgílio, Horácio, Homero e Ovídio. William costumava criar seus textos a partir do que observava das pestes regulares em Londres, como também faço aqui em São Luís/MA, cuja realidade fragmentada é cenário para “operações de guerra” de faccionados. Shakespeare, dentre tantas citações convenientes, disse que “as coisas em movimento atraem mais o olhar do que aquilo que não se move”.



Um sniper não se movimenta para não mostrar sua posição ao inimigo



Essa citação de Shakespeare está em sua peça “Tróilo e Cressida” (1601-1602), no Ato III, Cena III. O personagem Ulisses é o responsável por expressar esse pensamento. A obra é uma espécie de adaptação da produção homérica acerca da Guerra de Troia, cujos combates entre gregos e troianos nos ensinam muito sobre a importância da “Inteligência/inteligência” para o sucesso de uma incursão. O poeta inglês era um ótimo observador, mas também um ótimo ouvinte. Ele não criava “do nada”. Pelo contrário: a experiência do momento era preponderante para seu talento na dramaturgia.


Ulisses é um belo exemplo de estrategista militar. A imaginação dele não era aleatória. A observação era sua grande arma. Enquanto Aquiles era valente, o outro era astuto. Então, nem sempre atacar o inimigo por puro capricho é sinônimo de vitória garantida. Sempre é necessário colocar as opções na mesa, com o máximo de informações possível sobre o adversário. Ocupar por ocupar não é o ideal, ainda mais quando isso acontece em um curto período de tempo.


Às vezes, a polícia realiza uma operação em um território de faccionados, mas é algo que, na prática, não altera a dinâmica do crime organizado, porque a única finalidade é ocupar. Nem sempre quantidade é qualidade. Uma coisa que bandido tem, quando o assunto é tráfico de drogas, é paciência. Ele aguarda a “poeira baixar”, para movimentar os negócios. Quando está “limpo”, o criminoso sai da “toca” e retoma suas atividades ilícitas.


Nesse ponto, entra a inteligência da Inteligência, cujos levantamentos reduzem os custos do Estado com operações de ocupação que não atacam a raiz do problema. Abaixo do iceberg, há um pedaço grande, vigiado por tubarões. O que é observado na superfície não representa nem 1/3 de como as coisas realmente funcionam. O “tiro certo” faz toda diferença em um contexto no qual o crime organizado sempre se reinventa. O alvo parado não atrai os olhares. Quando se movimenta no terreno, torna-se vulnerável.


O Bonde dos 40 fez isso quando, de forma proposital, divulgou áudios nas redes sociais sobre um ataque com força total na Vila Conceição, Altos do Calhau, em São Luís, no início do ano passado, para uma operação de retomada do local, que havia sido perdido para o “Família do Altos”. O Primeiro Comando da Capital (PCC) queria sua “base” de volta. Após a estratégia do Bonde, então aliado do PCC, “Tanaka” saiu da “toca” e ficou exposto. Ou seja, ele se movimentou, o que o tornou visível para quem desejava atacá-lo. Escondido, o faccionado poderia estar em qualquer lugar.



Os livros sobre Shakespeare que tenho na minha biblioteca são pilares da inteligência


Um sniper fica parado para atacar e se defender. Se ele se movimentar à toa, mostrará ao inimigo sua posição. É uma batalha de percepções. Shakespeare nunca trabalhou como atirador de elite, mas viveu o suficiente para aprender como a realidade funciona. O dramaturgo não pertenceu a uma época, mas a todos os tempos, como frisou seu contemporâneo Ben Jonson após a morte do amigo escritor, no prefácio em versos para suas obras reunidas, no trecho “À memória do meu estimado, o autor Sr. William Shakespeare, e à obra que nos deixou”.


A experiência é importante, mas existem outras formas de sermos mais fortes do que a paisagem. Ser indetectável é sobreviver.

0 visualização

© 2019 por Nelson Melo.