• Nelson Melo

O Sistema Límbico (SL) e o processamento das nossas emoções

Na Revista Neurociências, em uma das edições, foi publicado um excelente artigo escrito pelo médico João Erivan Façanha Barreto e pela neuropsicóloga Luciane Ponte e Silva. No trabalho, intitulado “Sistema Límbico e as emoções – uma revisão anatômica”, os autores debatem os aspectos atuais da Neuroanatomia, pontuando, ainda, a importante relação entre os processos emocionais e o Sistema Nervoso Autônomo (SNA), destacando sua interferência no controle neurovegetativo. A estudante de Psicologia Julliana Aragão, que está no 10º período na Faculdade Pitágoras (em São Luís/MA), fez uma interessante postagem, em seu instagram, sobre o SL e as emoções.



A estudante de Psicologia Julliana Aragão fez uma postagem sobre o Sistema Límbico

A palavra emoção deriva do latim “movere”, que significa mover ou por em movimento, segundo João Erivan Façanha Barreto e Luciane Ponte e Silva. No artigo, o médico e a neuropsicóloga destacam que se trata de um movimento de dentro para fora, um modo de comunicar os nossos mais importantes estados e necessidades internas. Dependendo de motivações íntimas ou motivações externas, podemos sentir várias coisas, como o medo, o prazer, o ódio e o amor. Esse tema já foi estudado bastante no campo da Filosofia. John Locke, por exemplo, em suas abordagens, utilizou os termos “qualidades primárias” e “qualidades secundárias”.

Essas “qualidades” provocariam experiências psicológicas, como Locke analisou, assim como o cientista Robert Boyle. Hoje, a ciência está oferecendo várias respostas fundamentadas sobre o assunto, sobretudo a partir dos avanços em pesquisas nas áreas da Neurofisiologia e Neuroimagem. O tema desperta o interesse da universitária Julliana Aragão, que está cursando uma pós-graduação em Neuropsicologia Clínica no Instituto Sinapses. A jovem ressaltou, no instagram dela, que as estruturas anatômicas do Sistema Límbico (SL) são as responsáveis pelo processamento das nossas emoções.

Além disso, como Aragão frisou, também regula a nossa conduta, funcionando como o “centro das nossas emoções”. De acordo com a estudante de Psicologia, o SL computa todas as informações relacionadas a essa instância, tanto eventos emocionais considerados “normais” como aqueles mais intensos. “Sem esse circuito, nós seríamos completamente racionais”, explicou Julliana em sua postagem.

Razão versus emoção

O que Julliana Aragão esclareceu é importante para compreendermos como nós nos comportamos diante das circunstâncias que surgem diariamente, em qualquer contexto. Na Psicanálise, esse assunto é muito debatido. O ser humano acabou ignorando sua condição animalesca, por conta do progresso da civilização, que gerou uma “parede de cristal” favorável para a sublimação. Essa barreira é invisível, porque foi imposta pela vaidade. Desse modo, a consciência se sobressai e coloca o instinto como coadjuvante nos processos mentais e emocionais.



Razão e emoção podem nos direcionar para um local reconfortante ou um caminho perigoso

Freud abordou essa questão ao indagar se seríamos mais felizes caso não renunciássemos aos nossos instintos. Afinal de contas, o ser humano fica angustiado em sua relação com a realidade. Desde o nascimento, seríamos influenciados pelo princípio do prazer, embora o mundo, em muitos momentos, se “revolte” contra a nossa presença, o que desperta os conflitos existenciais. As restrições impostas pela sociedade representariam o caos interno, tendo em vista que o aspecto primitivo nos acompanha até a morte.

A “rivalidade” entre razão e emoção é abordada no livro “O Lobo do Mar”, de Jack London. A obra, que tenho em minha biblioteca, relata o diálogo tenso entre o capitão Wolf Larsen e o poeta Humphrey van Weyden. O primeiro representa o “instinto”, enquanto o segundo representa a “civilização”. Dentro da embarcação “Ghost”, os dois travam um embate filosófico muito interessante sobre vários assuntos, como o homem, o medo, a vida, a agressividade, o dinheiro, o trabalho, a esperança, dentre outros. Não dá para afirmarmos quem venceu o debate, porque isso vai depender do ponto de vista de quem ficou apenas na plateia.

Interesse pelo Sistema Límbico

Os pesquisadores João Erivan Façanha Barreto e Luciane Ponte e Silva explicam, no artigo que mencionei no início deste texto, que as relações entre corpo e mente e entre razão e emoção passaram a ser também investigadas em outras disciplinas, além da Filosofia, como a Psicologia, a Psicanálise e a Biologia, a partir da segunda metade do século XIX e princípios do século XX. O médico e a neuropsicóloga destacam que o período é marcado pelo interesse científico no que se refere aos processos cognitivos, incluindo as atividades mentais relacionadas à aquisição de conhecimento e conectadas ao raciocínio e à memória.

“Está se aprendendo que as emoções são resultados de múltiplos sistemas do cérebro e do corpo que estão distribuídos pela pessoa toda, sendo impossível separar emoção da cognição, nem a cognição do corpo . Com efeito, acredita-se que a ciência será capaz de explicar os aspectos biológicos relacionados à emoção, mas não o que é a emoção. Esta permanece como uma questão prevalentemente filosófica”, assinalam os autores no artigo. Importante destacar que o termo límbico provém do latim ”limbus”, que significa orla, anel ou em torno de.

O capitão Wolf Larsen e o poeta van Weyden discordam sobre muitas questões existenciais



Definir a emoção é tão complicado quanto definir uma de suas manifestações: o amor. É algo similar ao questionamento levantado por Galileu Galilei de que sabemos como ir ao Céu, mas não sabemos onde está o Céu. Nesse ponto, podemos utilizar a maiêutica, internalizando o espírito de Sócrates, mas, mesmo que reformulássemos as perguntas após as respostas, continuaríamos insatisfeitos. Cada dúvida geraria mais dúvidas, em um ciclo que nos deixaria mais angustiados. Assim sendo, ficaríamos frustrados e ao mesmo tempo recompensados devido às tentativas de compreensão.

Mentalmente, Wolf Larsen e van Weyden são personagens míticos que interferem em nossas condutas, tendo em vista que temos as fantasias como mecanismos compensatórios em uma realidade que causa sofrimentos e alegrias. A Filosofia, a Psicologia, a Biologia e a Neurociência estão caminhando juntas para apresentar um padrão comportamental definitivo relacionado ao Sistema Límbico. Caso isso aconteça, com certeza, sentiremos uma forte emoção coletiva, o que pode alterar as reações individuais e as conexões sociais em prol da civilização ou do instinto.

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© 2019 por Nelson Melo.