• Nelson Melo

Os ‘alienistas’ em São Luís/MA que observam a loucura como normal

Em artigo recente do meu site, discorri sobre a “Teoria do Medalhão”, de Machado de Assis, para explicar a conduta do jovem da atualidade no que se refere à prevalência da aparência com relação à essência. Outro conto do escritor é “O Alienista”, cuja mensagem pode ser adaptada para várias situações do cotidiano. Em São Luís, capital do Maranhão, o médico Simão Bacamarte pode ser encontrado em vários locais, na forma de arquétipo. São pessoas que enxergam a loucura em qualquer lugar, até mesmo onde não existe.



O médico Simão Bacamarte não queria saber de outra coisa a não ser internar as pessoas



Na obra de Machado de Assis, o médico passa um bom tempo na Europa, mas retorna ao Brasil depois de ganhar notoriedade em sua profissão. Após se dedicar aos estudos da Psiquiatria, ele decide colocar um manicômio, de nome “Casa Verde”, na vila de Itaguaí, no Estado do Rio de Janeiro. O ambiente, então, de tanto receber pessoas com problemas mentais, fica lotado. Devido ao sucesso do empreendimento, Simão Bacamarte investe cada vez mais no negócio.


A questão é que, de repente, o médico começou a enxergar a loucura em qualquer pessoa que observasse nas ruas. Enquanto isso, a esposa dele, Evarista da Costa, sentindo-se abandonada pelo marido, viaja pelo Rio de Janeiro. Mesmo quando ela retorna para junto do companheiro, este continuou fazendo as internações sem qualquer fundamento científico ou critério plausível. O manicômio, depois de várias reviravoltas, incluindo manobras políticas de outros personagens, apenas se fortalece.



Machado de Assis se multiplica a cada geração para explicar o nosso cotidiano insano



O cúmulo da situação ocorre quando até mesmo Evarista é internada, após passar uma noite sem dormir por não conseguir decidir que roupa usaria numa festa. Ao final de tudo, depois de várias experiências, Simão Bacamarte concluiu que o único louco era ele. Por este motivo, o “alienista” passa a ser a única pessoa internada na “Casa Verde”.


Os “alienistas” na capital maranhense


A cidade de São Luís/MA, atualmente, está vivenciando uma reviravolta na dinâmica do crime organizado, pois o Bonde dos 40 ocupou o Altos do Calhau, que era, até então, “fortaleza” do Primeiro Comando da Capital (PCC). Isso aconteceu, como já expliquei no artigo anterior, após uma espécie de “acordo”, uma vez que a facção paulista estava dividida entre os “puros” e os “impuros”. Respectivamente, significa os criminosos que já eram da área e os que vieram de outros bairros, como Coroadinho, Cidade Olímpica, Vila Magril e Vila Collier.


As facções agem dessa forma o tempo todo. Na Camboa, igualmente na capital maranhense, novamente o Bonde fez outra ofensiva e ocupou a região, embora não tenha ocorrido de maneira completa, como no Altos do Calhau. Enquanto isso, o “novo” Primeiro Comando do Maranhão (PCM) está crescendo, ao contrário do que o leigo imagina. Essa expansão está ocorrendo por meio de contrainformação, um recurso que está sendo muito utilizado pelas organizações criminosas no Estado do Maranhão.


Essas coisas estão ocorrendo frequentemente, mas há pessoas que, infelizmente, perderam a noção da realidade e agem como se não existissem mais habitantes normais na Grande Ilha. O processo é percebido como um fenômeno comum. Os “alienistas” de São Luís estão em vários locais, nas mais diversas instituições. Ninguém mais liga se faccionados tomam e retomam territórios. Os poucos que ainda se preocupam com o cenário são tratados como loucos e são imediatamente conduzidos, simbolicamente, para a “Casa Verde”.


Na série “Lost”, Danielle Rousseau aparece “do nada” no território dos sobreviventes da queda do avião Oceanic 815 para avisá-los de que os “Outros” estavam a caminho para invadir por completo a área deles. Como a francesa era vista como louca, a maioria das pessoas não deu trela. Na verdade, nem ela sabia se o inimigo iria atacar, pois tinha apenas um objetivo: trocar Aaron, filho de Claire, por Alex, filha de Rousseau que estava morando com os hostis.


Os “Outros” fizeram a ofensiva muito tempo depois, quando chegaram pelo mar, mas foram surpreendidos pelas armadilhas colocadas pelos sobreviventes, pois a “inteligência” deles detectou que a invasão do inimigo não era contrainformação. Diferentemente de “Lost”, na região metropolitana de São Luís, os fatos estão acontecendo e muitas pessoas parecem não se importar. Como já é rotineiro esse negócio de guerra urbana, o ludovicense está agindo como se estivesse no manicômio citado no conto de Machado de Assis.



Danielle Rousseau era vista como louca pela maioria dos sobreviventes na ilha em "Lost"



Evidentemente, não estou generalizando. Mas isso é verídico. As facções criminosas estão se fortalecendo cada vez mais. Machado de Assis não pode explicar o que está acontecendo, mas sua obra parece ter sido escrita hoje, uma vez que o “alienista” está mais perto do que imaginávamos.

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© 2019 por Nelson Melo.