• Nelson Melo

Os avanços tecnológicos que colocaram o Icrim de São Luís em outro patamar

Atualizado: Jan 14

Quando um cadáver está no chão, os curiosos se aproximam como se fosse um espetáculo teatral no qual a ênfase é a morte. A questão é que essas pessoas não fazem ideia de que uma investigação será iniciada. Para essa apuração policial, a Perícia Criminal é fundamental, uma vez que oferece a Ciência Forense como recurso importante. Assim como a invenção da roda resultou na criação dos veículos, a construção de um software possibilitou a maximização dos trabalhos periciais no Instituto de Criminalística de São Luís (Icrim).



Os peritos criminais Sidney, Walleson, Robson Mourão e Gláucio Barboza no Icrim


Assim que chegou à direção do Icrim/São Luís em 2017, o perito criminal Robson Mourão, graduado em Física e Direito, após ter uma visão ampla do que poderia ser modificado, estabeleceu metas. Dentre os objetivos elencados, um era relacionado às melhorias nas condições de trabalhos dos profissionais forenses que atuam nas externas. Na época, ainda se utilizava a tradicional prancheta, um recurso oriundo da década de 1970. O próprio objeto “pedia” para ser “aposentado”, o que de fato aconteceu.


“O perito trabalhava na rua com essa prancheta e folha em branco. Quando chegava ao Instituto, ele sentava e digitava tudo, para depois passar para outro perito corrigir. Somente esse procedimento de formatação durava cerca de 10 dias. Na época, havia os livrões. E ainda havia as fotos químicas, que eram reveladas por uma empresa”, explicou o professor Robson Mourão. Mas essa realidade estava com os dias contados. Como tudo no Universo, existe um processo. Nada acontece assim de uma hora para outra. No Kosmos, por exemplo, da explosão das estrelas, a tabela periódica é espalhada no espaçotempo. Se essa dinâmica é verdade no ambiente interplanetário, também é aqui na Terra, o “pálido ponto azul”, como chamava Carl Sagan.


Entrando novamente na atmosfera terrestre, podemos dizer que, depois de muitos testes, um projeto excepcional se consolidou: o Tablet em Local de Crime (TLC), cujo software é o Inlaudo. Foram muitos fins de semana e horários fora do expediente de muito trabalho do professor Robson Mourão e do perito Walleson Nonato de Sousa (formado em Engenharia Elétrica). Depois, outros peritos criminais abraçaram a causa, como Gláucio Barboza, Emerson, Sidney, Wendell, Marcio Queiton e Marcelo.


Essa coalizão forense culminou em uma revolução tecnológica sem precedentes na história da Perícia Criminal do Maranhão. O Icrim de São Luís foi pioneiro. Mas não foi fácil, não. “Começamos a rabiscar para vermos o que estava funcionando entre os peritos criminais de outros países, como EUA, Argentina, Uruguai e Alemanha. A gente decidiu trazer essa realidade para cá. Então, rabiscamos um projeto no Excel. Eram planilhas, nas quais o perito preenchia no local e que eram vinculadas aos laudos”, pontuou o entrevistado.


Depois de passar pelo Fortran, recurso utilizado na Física para construção de softwares, a equipe decidiu testar o MATLAB, que é usado no ramo da Engenharia para projetos diversos. Porém, ficou muito pesado, sendo que o layout não ficou agradável. E, finalmente, após muitas adaptações e alterações, a primeira versão do Inlaudo ficou pronta. Houve, então, a progressão para a plataforma Android, conforme o diretor do Icrim/São Luís.


Dois peritos criminais utilizaram a inovação nos locais de crime, mas com a prancheta ainda do lado. Passados seis meses, novas versões surgiram. O TLC possibilitava a localização via GPS, o comando de voz (transformar áudio em texto), inserção de fotos, dentre outros recursos. “Hoje, o software faz o cruzamento de ocorrências que já foram preenchidas pelos outros peritos. Sem contar que as fotografias não ficam aleatórias. E já suplanta no computador. Quando o perito entra na base, os dados vão para a nuvem do sistema do Icrim. Não precisa mais do livrão, por exemplo”, assinalou Robson Mourão.


O projeto deu tão certo que outros estados do Brasil estão interessados em adquirir o software Inlaudo, que já foi apresentado em eventos na Bahia, Brasília (DF) e Goiás. Por enquanto, somente o Icrim da capital maranhense utiliza, mas os de Imperatriz/MA e Timon/MA devem receber o recurso em breve. Tudo isso demonstra que o trabalho em equipe é uma ferramenta que eleva o ser humano ao topo da sociedade. No caso do Instituto de Criminalística de São Luís, não é exagero afirmarmos que está em outro patamar.

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© 2019 por Nelson Melo.