• Nelson Melo

Os benefícios do mindfulness como terapia durante a pandemia

Enquanto muitas pessoas não estão se permitindo viver nessa pandemia da Covid-19, como se o mundo fosse acabar ainda neste semestre, outras estão procurando alternativas para não perderem a esperança e a calma. A situação, evidentemente, não é fácil. Pelo contrário, a quantidade de infecções e mortes no planeta, em decorrência do novo coronavírus, é real. No entanto, precisamos manter a saúde mental, para não anteciparmos os sintomas. Uma das opções é a prática do mindfulness (atenção plena), que é muito mais do que uma meditação, sendo caracterizada como um estilo de vida que está me ajudando nesses “tempos difíceis”.



A prática regular do mindfulness nos permite prestar atenção no momento presente


Durante muito tempo, o mindfulness ficou restrito ao contexto budista, sob o nome “Sati”. Seria uma forma de se libertar de tudo o que coloca o ser humano em situação de passividade diante das circunstâncias, a fim de afastar a angústia e outras emoções existenciais, como condição para uma vida completa. A atenção plena é um caminho para que o sujeito viva a partir do presente, do agora, deixando de lado o passado e o futuro no momento da meditação ou do treinamento diário da concentração nas tarefas realizadas.


Em meados dos anos 1970, o professor universitário e cientista Jon Kabat-Zinn resolveu tirar o conceito da atenção plena de dentro do budismo e trazê-lo para dentro das universidades. A partir daquele momento, a prática ganhou o mundo ocidental, o que beneficiou milhares de pessoas. Médicos psiquiatras e psicólogos do mundo indicaram a terapia pelo mindfulness para pacientes com transtornos de ansiedade ou depressão, com sucesso comprovado. A neurociência tem vários estudos mostrando a eficácia desse estilo de vida meditativo.


O mindfulness não é exatamente uma meditação, pois se estende para a vida do praticante em cada ato dele, desde o café da manhã até o conserto de uma pia com defeitos. O objetivo é focar no momento presente, ou seja, naquilo que a pessoa está fazendo ou onde ela se encontra. O sujeito se observa como uma criação inerente à natureza e não como um evento biológico distinto. Essa integração gera uma sensação de pertencimento ao lugar, afastando os problemas de maneira consciente.



O professor e cientista Jon Kabat-Zinn durante uma de suas meditações pela atenção plena


Essa técnica evita o desespero demasiado, mesmo diante de situações complicadas, como essa da pandemia. Quando a pessoa não fica pensando muito no que pode acontecer, ela se concentra no que está sob seu controle. Assim sendo, mantém uma posição ativa para agir com todas as forças necessárias, sem interferência exagerada do medo ou da ansiedade. O praticante de mindfulness não fica se destruindo com crenças errôneas sobre uma circunstância. Ele formula evidências para confrontar esses pensamentos, a fim de demonstrar sua invalidação.


Somente o momento presente importa. Com essa atitude, é possível pensar em maneiras de viver com toda a intensidade durante crises mundiais ou locais. Quando está na rua, o sujeito que pratica a atenção plena observa as cores das árvores, a quantidade de veículos trafegando, a qualidade do asfalto, as aves se apresentando no céu, as nuvens, o semblante dos pedestres, a altura dos muros, dentre outras coisas. Esse olhar ocorre sem qualquer julgamento. A verificação é apenas contemplativa, o que é uma terapia simples, sem custo algum.


Na meditação, o mindfulness também tem esse aspecto contemplativo. Quando eu medito, por exemplo, presto atenção na minha respiração, sendo que inspiro pelo nariz e expiro pela boca, de maneira profunda. Além disso, me concentro nos sons do ambiente, não importando se é o canto dos pássaros, buzinas de carros, gritos de moradores ou o barulho da chuva caindo no telhado. Enquanto medito, coloco a atenção plena no meu corpo, verificando, mentalmente, cada parte, como pernas, coxas, braços, abdômen, tórax, pescoço, orelhas, olhos, lábios, costas, enfim.


Isso é atenção plena, tão recomendada pelos psicólogos da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC). Eu comecei essa prática há cerca de três meses. Desde então, se tornou uma rotina. Eu faço a meditação todos os dias, durante 20 minutos, seguindo um procedimento que inclui a concentração na respiração, no corpo e nos sons do ambiente, como já falei. Por meio disso, enfrento a pandemia sem exageros, ou seja, longe de uma abordagem catastrófica. Focar no presente significa visualizar o futuro com mais paciência e transparência.



Vivenciar o mindfulness nos possibilita resolvermos os problemas com criatividade


Como disse o professor Jon Kabat-Zinn, o mindfulness ocorre quando prestamos atenção, de maneira proposital, no aqui/agora e sem julgamentos. É um estado de consciência focado na intenção. Essa prática está me ajudando em vários setores da vida, o que me permite ser uma pessoa melhor. Nas corridas de rua, eu presto mais atenção na natureza e nas reações fisiológicas. No jornalismo, eu me sinto mais seguro na cobertura das pautas e na redação das matérias. Na alimentação, eu cuido da minha saúde com mais preocupação do que vaidade.


Sempre há tempo para sermos melhores do que já somos. Agir com naturalidade é o caminho para uma vida verdadeiramente livre. O mindfulness não nos deixa imunes ao coronavírus, mas nos permite enfrentar o inimigo da forma como ele se apresenta. Esse estilo de vida pode nos salvar de uma tragédia criada pela angústia sobre um futuro que não tem data de estreia em uma sociedade contaminada por emoções nocivas.

15 visualizações

© 2019 por Nelson Melo.