• Nelson Melo

Ouçam a poesia de Elisa Lago: o que importa é a melodia

A música é o barulho que pensa. Peço desculpas a Víctor Hugo por usar a frase dele para esse artigo, mas a justificativa é convincente. Eu, assim como muitas pessoas, não quero ser o poeta de um mundo caduco, pois o peso da existência inclina meus ombros para baixo, o que me oferece um aspecto depressivo. Uma das formas de superarmos esses pequenos problemas é a valorização dos sons. Aqui, não estou me referindo somente à natureza, como, também, à personalidade. Os ecos internos também são catárticos. A escritora maranhense Elisa Lago detectou isso de maneira genial.


A escritora maranhense Elisa Lago é membro da Livraria e Espaço Cultural AMEI



Maria Elisa Cantanhêde Lago Braga Borges nasceu em Pedreiras/MA. Naquele instante, um anjo com coluna ereta, desses que vivem no sol, disse: “Vai, Elisa! Ser poeta na vida”. O curioso é que isso aconteceu, também, com Carlos Drummond de Andrade, como ele relata em “Poema de Sete Faces”. Todavia, no caso dele, o anjo era torto. Seriam, então, mundos distintos ou mundos iguais? Não podemos saber, porque nós vivemos finitamente na infinitude do Universo. Portanto, cada resposta nossa sempre ricocheteia e retorna com mais indagações.

O som é o que nos transforma em bons escritores e boas pessoas. Ouvir nos permite falar. O barulho das ondas no mar pode gerar mais dúvidas sobre quem somos e onde estamos. No entanto, pode gerar mais certezas com relação a essas coisas. Afinal de contas, toda unanimidade é burra, como observou Nelson Rodrigues. O pensamento se movimenta na velocidade das nossas leituras e da nossa experiência. Por esse motivo, Elisa Lago deixa bem claro: “meu canto me seduz”.


A obra literária de Elisa Lago combina a música e a poesia de uma maneira encantadora

Ela prossegue dizendo: “Ouço o silêncio da voz/No peito brota a foz/Pela palavra de luz”. Essa atividade é feita sem a menor pressa, tendo em vista que temos tempo para contemplarmos o que merece ser admirado. O amor é a força que torna a sonoridade menos física. Assim sendo, adquire significados conotativos. Na prática, isso representa o início da transcendência íntima, em termos ontológicos, e o fim do egocentrismo sociológico, que tanto nos fere quando nos comportamos a partir de parâmetros civilizatórios referentes à competição desleal.

A escritora maranhense Elisa Lago, que é membro da Livraria e Espaço Cultural AMEI (Associação Maranhense de Escritores Independentes), tem razão ao afirmar que o que importa é a melodia. A sonoridade, como ela destaca em seu poema, irradia, porque buscamos o tom em harmonia. Nesse processo, a idade não é relevante. Quando saímos da linearidade do cotidiano, por meio de alternativas construtivas, alcançamos um diálogo interno que, para quem não compreende, é um monólogo. Os conflitos psicológicos geram barulho, mas somente quando os alimentamos com nossos medos.


A música é o barulho que pensa dentro desse contexto da criatividade (Imagem: O Segredo)


Ao valorizar a sonoridade, em todas as suas versões, o poeta conclui que existe vida fora do texto. No meio das rimas, há uma experiência humana. Ali, naquele ponto, o fenômeno do autoconhecimento se apresenta genuinamente, sem as sete faces e sem a presença de anjos. Do mundo literário para o mundo natural, a única diferença é a ficção. Porém, isso não exclui, em hipótese alguma, a possibilidade de vivermos, no mundo real, um conto de fadas.

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© 2019 por Nelson Melo.