• Nelson Melo

Pedagoga entrega bombons de casa em casa em São Luís devido à pandemia

Neste sábado (26), está sendo comemorado, na Igreja Católica, o Dia de São Cosme e São Damião, seguindo uma tradição antiga. A fim de agradecer as graças recebidas, por circunstâncias variadas, as pessoas costumam entregar doces, geralmente, para crianças, mas isso não impede que adultos também recebam. Na capital maranhense, a data está sendo celebrada em vários bairros. Todavia, por conta da pandemia da Covid-19, a distribuição dos bombons, pipoca e pirulitos está sendo feita de casa em casa, como é o caso da pedagoga e catequista Ana Maria Melo Costa, que realiza o ato como pagamento de promessa.




A pedagoga Ana Maria Melo Costa entrega bombons há 15 anos no bairro Redenção


Em entrevista que concedeu ao meu site, Ana Maria, que é professora da rede municipal em São Luís/MA, comentou que essa promessa já tem 15 anos, como uma forma de agradecimento a duas graças que recebeu dos irmãos santos referentes ao vestibular da Universidade Federal do Maranhão (Ufma) e complicações na saúde. Isso porque, no mesmo ano em que passou no Curso de Pedagogia, ela sofreu em decorrência de problemas nos nervos. Natural de Santa Rita/MA, a catequista comentou que fez duas promessas, aproveitando que São Cosme e São Damião são padroeiros dos médicos.


Ana Maria foi aprovada no vestibular da Ufma e teve a saúde restabelecida paulatinamente. Essa distribuição dos doces ocorre na Igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro Redenção, que está na circunscrição da Paróquia de Santa Terezinha. Dentro dos sacos, que são personalizados com a imagem dos santos, a pedagoga coloca pé de moleque, pirulitos, pipocas e bombons.


Distribuição na pandemia


De acordo com a entrevistada, que é integrante da Equipe Litúrgica da Paróquia de Santa Terezinha, em virtude da pandemia do novo coronavírus, a distribuição dos sacos contendo os bombons foi dividida em três dias consecutivos, sendo que a entrega começou nessa sexta-feira (25) e será encerrada amanhã (27). “Este ano, por conta dessa situação envolvendo a Covid-19, que exige o respeito a medidas sanitárias e protocolos de segurança, estou fazendo tudo de maneira diferente. Antes, eu ia até a Igreja Nossa Senhora de Fátima e entregava as fichas às crianças da comunidade, que recebiam as sacolinhas no próprio local”, explicou Ana Maria.


A catequista esclareceu que está indo de casa em casa para distribuir as embalagens personalizadas às crianças já selecionadas. Pelo menos 70 meninos e meninas são beneficiados no ato solidário. “Por natureza, as crianças se aglomeram, sobretudo quando observam bombons e doces. Não queremos isso nesse tempo crítico. Precisamos evitar a concentração de pessoas. A nossa saúde deve ser prioridade nesse momento de risco em relação à infecção”, assinalou a pedagoga.





As sacolinhas contendo os doces são cuidadosamente preparados pela catequista


Um ponto que devemos destacar em relação à data é que o costume de entregar guloseimas às crianças pode ser explicado pela questão do sincretismo religioso, uma vez que quando os africanos chegaram ao Brasil como escravos, eles foram proibidos de praticar sua religião e rituais. Dessa forma, eles começaram a associar suas entidades às figuras do catolicismo, de acordo com historiadores. Sendo assim, São Cosme e São Damião foram associados às entidades crianças, para as quais eram ofertados os doces.


Convém ressaltar que, diferentemente da tradição católica, na Umbanda, Candomblé e Tambor de Mina, o Dia de São Cosme e São Damião é celebrado no dia 27 de setembro. Eles são conhecidos como os orixás Ibejis. São filhos gêmeos de Xangô e Iansã. Os devotos e simpatizantes têm o costume de fazer caruru (uma comida típica da tradição afro-brasileira), chamado também de “Caruru dos Santos” e “Caruru dos sete meninos”, que representam os sete irmãos (Cosme, Damião, Dou, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi).

Cosme e Damião


Cosme e Damião eram irmãos gêmeos, que viveram na Ásia Menor, na região do Oriente Médio, entre os séculos III e IV d.C. Médicos, eram ficaram conhecidos por curarem as pessoas sem cobrarem dinheiro ou qualquer outra coisa como moeda de troca. São considerados protetores dos gêmeos e das crianças. E também padroeiros dos farmacêuticos, médicos e das faculdades de Medicina.


“Foram dois irmãos, que, como profissão, exerciam a Medicina. Eles usaram a Medicina para fazer pastoral, para trazer pessoas para a Igreja Católica, isso no século III, sendo que morreram martirizados no começo do século IV, por incomodar as autoridades pagãs daquela época”, explicou o jornalista e católico Lucas Hadade em uma entrevista que me concedeu quando eu era repórter do Jornal O Estado no ano passado. De acordo com ele, os gêmeos não cobravam pelos trabalhos que faziam nas comunidades, pois agiam para converter os pagãos e infiéis.





São Cosme e São Damião se dedicaram a ajudar o próximo sem cobrar nada em troca


“Eles faziam trabalho missionário e foram presos pelas autoridades locais, que não gostavam do fato de que eles estavam ganhando popularidade por meio desse trabalho e de suas curas. Essas autoridades não gostavam porque Cosme e Damião usavam o talento para converter almas. Então, foram martirizados, decapitados, mas, antes, sofreram torturas”, pontuou Lucas. Ainda segundo o jornalista, os santos se recusaram a adorar os deuses pagãos e acabaram sendo assassinados por conta disso.



“Eles entraram para o panteão da Igreja como homens exemplares, que seguiram Cristo acima de tudo. São exemplos para os ricos, porque eles eram de famílias ricas. Isso não impediu de usarem os estudos e o dinheiro para o bem, como ferramenta para o ascetismo. O que determina se uma pessoa vai para o Céu ou não é como ela usa o que tem”, ressaltou Hadade.


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© 2019 por Nelson Melo.