• Nelson Melo

Pesquisador supõe que ‘viajante do tempo’ em São Luís era Charles des Vaux

São Luís está em clima de festa. Nas redes sociais, as homenagens não param. A ilha, nesse contexto celebrativo, está cercada de felicitações. A água recuou, mas não tem nada a ver com tsunami. Na poesia, isso acontece o tempo todo. Ainda assim, continuo pensando no “viajante do tempo” que esteve na capital maranhense no último fim de semana, como relatei em outro artigo. Para o pesquisador Antonio Noberto, membro fundador da Academia Ludovicense de Letras (ALL), não restam dúvidas de que o desconhecido era Charles des Vaux, o “Braço de Ferro”, considerado o primeiro propagandista do Maranhão e um dos maiores conhecedores do litoral setentrional do Brasil.

Recorte do quadro "São Luís nasceu no Louvre" que mostra o semblante de Charles des Vaux

Na manhã desta terça-feira (8), quando eu retornava da minha corrida de rua, visualizei no WhatsApp uma mensagem de Noberto enviada às 6h31. Animado, ele digitou que tudo indicava que o “viajante do tempo” era Charles des Vaux, que é lembrado no livro “Itagiba”, de Joanna Bittencourt, que mesclou realidade e ficção na obra. O corsário, inclusive, participou dos ataques ao último reduto português no Brasil rumo ao norte, que era a incipiente fortaleza do Cabedelo, de acordo com informações do meu amigo escritor. Essas ofensivas ocorreram nos anos de 1591 e 1597, pelos franceses do Potiiú, atual Rio Grande do Norte, e do Maranhão.

O turismólogo Noberto me falou que escreveu o prefácio da obra de Joanna Bittencourt. Na conversa que tivemos no “zap zap”, o pesquisador observou que, no combate ocorrido em 1597, Migan, parente do governador de Dieppe, saiu ferido. Segundo ele, “Braço de Ferro” não lutava sozinho, pois tinha a companhia de outros corsários franceses, como Jacques Riffault, Du Manoir, Gérard e Roussel. O meu amigo teve que se retirar do diálogo no WhatsApp, por conta dos inúmeros eventos em homenagem a São Luís. Todavia, me enviou o texto introdutório que escreveu para o livro “Itagiba”.

Sobre o corsário

No prefácio, Antonio Noberto comenta que, embora poucos maranhenses saibam, a história do nascimento da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Pará não é contada sem a participação dos franceses do Maranhão, especialmente Charles des Vaux, que, se sentindo acuado pelo avanço das deliberações régias de Felipe III de Espanha, comandante das colônias de Portugal na época, não teve dúvidas em partir para a Europa e demandar ajuda da França. Outro episódio que o motivou para essa viagem foi a perseguição que sofreu de Pero Coelho na Serra de Ibiapaba.


A escritora Joanna Bittencourt publicou a obra "Itagiba" sobre a história do corsário francês

“Lá chegando, propalou aos quatro ventos que existia uma belíssima terra que era o Maranhão, bem como a amabilidade e doçura do selvagem para com bretões e normandos, os verdadeiros conhecedores e possuidores da terra há mais de trinta anos”, destaca o pesquisador no prefácio da obra de Joanna Bittencourt. Noberto cita os discursos de um abnegado servo de Deus, o reverendo padre Luís Figueira, que, quando ainda chorava o massacre sofrido pelo seu companheiro Francisco Pinto em Ibiapaba, em 1608, escreveu o seguinte: ”Os franceses do Maranhão, além de manter conversações com as guerreiras amazonas estavam fortificados na Ilha Grande com dois fortes”.

“O texto deixa claro o poder e as movimentações de Des Vaux e seus companheiros em Upaon-Açu e em todo o litoral norte. Não tardou muito para que se aliasse ao fidalgo Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, também huguenote da religião reformada. O resultado foi a fundação da França Equinocial e de São Luís”, pontua Noberto no texto introdutório. No prefácio, o turismólogo ressalta que, se hoje nos orgulhamos do adjetivo gentílico “ludovicense”, devemos isso a des Vaux, pois ele foi um dos que lançou a pedra fundamental do Maranhão.

O pesquisador e membro fundador da ALL Antonio Noberto prefaciou o livro "Itagiba"

“Seu nome até algumas décadas constava de uma placa afixada na Praça Pedro II. O livro talvez seja uma oportunidade para que a mesma seja reposta, pois os maranhenses não devem esquecer jamais que Charles des Vaux foi o primeiro propagandista oficial do Maranhão. Um lutador, braço de ferro, que deu a própria vida pela região, por isto a homenagem de Joana e de seu saudoso irmão vem em hora oportuna”, enfatiza Antonio Noberto.

O “viajante do tempo” desapareceu para sempre

Eu moro em São Luís desde 1992. Nasci em Santa Rita/MA, mas me considero um ludovicense porque não tive tempo de sentir afeto pela minha terra natal, uma vez que o mito ainda não havia sido despertado no meu inconsciente. Afinal de contas, as crianças desconhecem os personagens arquetípicos, que vencem as barreiras históricas e as diferenças culturais. Esse processo se torna consciente em uma faixa etária posterior, embora o “estranho” nos acompanhe durante toda a vida. Com o passar do tempo, nós nos identificamos com modelos oferecidos pela civilização, mas a razão atua como contraponto ao manifestar a renúncia como fator delimitante.



Homenagem do 24º Batalhão de Infantaria de Selva (24º BIS) para São Luís

Bem, é melhor nos retirarmos dessa abordagem psicanalítica porque o “viajante do tempo” não pode ser explicado nem mesmo pela complicada Física Quântica. A capital maranhense vive um momento de festividade nos mais diversos segmentos. No entanto, continuo curioso para saber quem era o desconhecido que esteve em São Luís de maneira misteriosa. Seria agradável ter conversado com aquele estranho, cujo semblante parecia familiar. De repente, eu poderia fazer a propaganda dele, caso fosse Charles des Vaux, que está retratado, de maneira idealizada, no quadro "São Luís nasceu no Louvre", que integra a "Exposição França Equinocial para sempre", de Antonio Noberto. De qualquer forma, a vida não pode parar porque uma pergunta ficou sem resposta.

Longe da dúvida, temos a certeza de que o fim não está próximo porque a História é infinita, pelo menos até a presença do último representante finito da civilização na Terra. Enquanto isso, temos que aproveitar as oportunidades e apreciar a paisagem da nossa ilha, que tem palmeiras, onde canta o sabiá. As aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. O exílio, nesse sentido, não passa de uma imaginação.

Homenagem do Hospital Veterinário Quatro Patas para a capital maranhense

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© 2019 por Nelson Melo.