• Nelson Melo

Poeta Paulo Melo: todo silêncio possui a palavra que merece

A literatura maranhense é a rota de fuga em um cenário de incertezas sobre o futuro de uma ilusão, como Sigmund Freud poderia ter dito na forma de ato falho. Não são apenas becos e casarões que marcam a história de sua capital, São Luís, pois tudo isso não provocaria emoções sem os vocábulos que enaltecem. Às vezes, não falar nada pode representar um ruído no diálogo entre pessoas que se conheceram fora do romance. Em “Poema Descalço”, o escritor ludovicense Paulo Melo Sousa observa que todo silêncio possui a palavra que merece.


Paulo Melo Sousa é autor de livros premiados e um dos criadores do grupo "Poeme-se"

Logo no início do poema, Paulo Melo provoca o leitor ao afirmar que, se “ele” está se devorando, significa que está com fome dele mesmo. Ontologicamente, esse “canibalismo metafórico” possui a interpretação de que todos nós nunca estamos satisfeitos totalmente, apesar do consumo de coisas que, em muitas ocasiões, são dispensáveis. Lendo esse trecho, eu me lembrei do psicanalista argentino Eduardo Riaviz, que foi meu professor em “Ciências da Linguagem” no Curso de Comunicação Social, na antiga Faculdade São Luís (atual Faculdade Estácio).

Diretor do Centro Psicanalítico do Maranhão de Orientação Lacaniana (OrLa), Riaviz costumava falar, em suas aulas, que os produtos chegam “caducos” em nossas mãos, pois, quando os recebemos, já não os queremos mais. Negando rapidamente as mercadorias, as pessoas acabam alimentando suas crises existenciais, uma vez que nada mais resta para esse sujeito a não ser o aniquilamento da sua identidade, o que poderia ser considerado um niilismo. Quando a situação chega nesse ponto, a explicação não é mais convincente. Então, os motivos do amor não têm motivos, como Shakespeare assinala por meio dos seus personagens.


A palavra e o silêncio podem representar a destruição ou reconstrução dos monstros internos

O silêncio não é ausência de significados. Pelo contrário, mantém o diálogo porque gera interpretações no receptor. A Esfinge devorava todas as pessoas que não conseguiam desvendar seu enigma, o que estabelece um paradigma entre falar e ficar calado, porque uma resposta errada representava o fim das tentativas de sobrevivência. Édipo, por outro lado, superou esse medo e arriscou. Por meio da palavra, destruiu não o monstro externo, mas o monstro interno, tendo em vista que os conflitos psicológicos interferem na solução de problemas reais.

A palavra, em Paulo Melo, é ambígua, porque omite significados e coloca armadilhas semânticas. Então, uma ação gera uma reação. O silêncio, por outro lado, também fala. Desse modo, nunca saberemos definitivamente qual das duas opções é mais recomendável para que o poeta desvende seus próprios enigmas, que surgem mentalmente a partir de pensamentos inconscientes. A consciência é o condutor que leva para o trânsito o que não aprendeu na autoescola, uma vez que a educação familiar não consegue dominar o instinto totalmente.


A dúvida sobre quem somos pode criar conflitos existenciais ou descobertas ontológicas

Por esse motivo, “qualquer existência pode ser camaleônica”, como Paulo Melo assinala no poema. Ser ou não ser é angustiante, mas é reconfortante. Tudo vai depender do estado emocional de quem não se reconhece ao se olhar no espelho. Não queremos ser poetas de um mundo caduco e também não cantaremos o mundo futuro, como expressou Carlos Drummond de Andrade. Estamos presos à vida. Ao lado, olhamos nossos companheiros. Ao final da jornada, descobrimos que há muita sede no mundo e que pouca gente sabe beber.

23 visualizações1 comentário

© 2019 por Nelson Melo.