• Nelson Melo

‘Princípio de Pareto’ na segurança pública: produzir mais sem desperdiçar tempo

Tempo é dinheiro. Essa frase já virou um mantra para a população mundial. Às vezes, o ser humano não sabe para onde ir, como Alice no País das Maravilhas. Quando isso acontece, qualquer caminho serve. Dedicar horas e horas em uma tarefa nem sempre produz os resultados planejados. Na segurança pública, uma barreira policial pode render mais do que vários patrulhamentos, dependendo da situação. O “Princípio de Pareto”, também conhecido como “Regra do 80/20”, estabelece que 80% dos problemas decorrem de apenas 20% das causas.


Durante o ano de 1897, o economista Vilfredo Pareto publicou o livro “Cours d’économie politique”. Na obra, ele observou que a maior parte da riqueza de determinado país, naquela época, se concentrava em uma pequena fatia da sociedade. O estudo dele, conhecido mundialmente, demonstrou que havia um desequilíbrio padronizado entre as pessoas daquela população em relação à renda de que desfrutavam. Em outras palavras, significa dizer que qualquer relação de causa e efeito tende a seguir uma proporção desequilibrada.



O "Princípio de Pareto" pode ser aplicado em quase tudo do nosso cotidiano



Esse princípio se espalhou pelo mundo “quando Joseph Juran se consagrou como pai do controle de qualidade ao se valer desse desequilíbrio para reduzir 80% dos erros de uma linha de produção ao corrigir 20% das causas desses erros, demonstrando não só a aplicabilidade do princípio no mundo corporativo, mas também sua importância”, como observam Breno Rodrigues Cavalcanti Das Neves e Fatima de Souza Freire em “Características do Princípio de Pareto no Setor Bancário Brasileiro”. Esse trabalho monográfico foi apresentado à Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de Brasília, em 2016.


Ainda dentro desse princípio, o professor George Kingsley Zipf, da Universidade de Harvard, verificou esse padrão em um idioma, como o inglês, por exemplo. Ele detectou que as palavras “the” e “of”, em um texto longo, são mais frequentes, “de forma que apenas 135 palavras preenchem metade do texto”. Isso ficou conhecido como “Lei de Zipf”, que também pode ser aplicada em outras línguas, uma vez que a recorrência de termos em uma redação é constante, talvez, por conta do “menor esforço”, tendo em vista que as pessoas querem ter menos trabalho.


Apesar da “Regra do 80/20”, existe um desvio padrão, pois nem sempre esses números são exatos. De qualquer forma, vai ocorrer o desequilíbrio entre os esforços e resultados, ações e objetivos ou entre causas e efeitos.


Menos é mais


Para a vida, o “Princípio de Pareto” nos mostra que menos é mais. Em uma loja, por exemplo, 80% das vendas podem ser produzidas por 20% dos vendedores. Para que tudo funcione, é preciso, antes de tudo, que as pessoas e instituições tenham foco. Se o objetivo não for estabelecido, de nada adiantará realizar as ações, pois estas serão improdutivas. Seria como “matar cachorro a grito” ou “atirar no escuro”. Sabendo para onde queremos ir, saberemos como chegar lá.


No caso da segurança pública, logo no início das facções criminosas no Maranhão, a polícia não tinha noção da dimensão do inimigo, pois estava tudo ainda muito confuso. Ainda pensava-se que Bonde dos 40 e Primeiro Comando do Maranhão (PCM) eram gangues, o que não condizia com a realidade. Por este motivo, as organizações criminosas promoveram diversas atividades ilícitas, incluindo ataques a policiais, prédios públicos e ônibus.


Esta confusão é até compreensível em partes porque, para muitas pessoas, ainda é difícil definir crime organizado, muito menos facção criminosa. Até hoje, muita gente não sabe conceituar estas coisas. É comum no Brasil o envio de várias viaturas para um bairro, no sentido de ocupar, logo após momentos de confrontos entre grupos criminosos ou outra circunstância similar. Porém, como diz o “Princípio de Pareto”, é possível produzir mais com menos.


O desequilíbrio pode favorecer a polícia, quando utilizado com criatividade e objetividade. Os partas, como já falei em um artigo do meu site, venceram os romanos, que estavam em maior número, porque souberam otimizar a quantidade e o tempo, para ganhar qualidade e eficiência. Na série “Lost”, Sawyer questionou “Locke” (que na verdade era o “Homem de Preto” ou “Monstro de Fumaça”) por quanto tempo eles iriam ficar sentados, aguardando reagir contra o pessoal do empresário Charles Widmore, que estava do outro lado da ilha, protegido por uma cerca sônica.


“Locke”, então, olhou calmamente para Sawyer e disse: há uma grande diferença entre esperar e não fazer nada. O “Monstro de Fumaça” tinha razão: o grupo de Widmore se cansou de atacar e ficou vulnerável. Nesse instante, o oponente reagiu, mas não atacando de maneira tradicional, e, sim, com inteligência. O experiente militar iraquiano Sayid se infiltrou e desligou a energia da cerca sônica, que impedia a entrada da “fumaça preta” na área do inimigo, devido à barreira de proteção que Charles havia instalado em seu território.



"Locke" e Widmore separados pela cerca sônica antes dos enfrentamentos em "Lost"



Essa é uma demonstração da “Regra 80/20”, pois não foi preciso avançar com força total para derrotar o inimigo. Sayid representou os 20% dos 80% dos resultados para o grupo de “Locke”. A pressa de atacar pode levar ao fracasso de uma missão. Construindo as etapas, de forma sistemática, com as informações em mãos, tudo se torna mais prático. O Grupo de Serviço Avançado (GSA), quando atuava naquele formato, fazia esse trabalho de “Pareto”, uma vez que os policiais não ficavam procurando o alvo, pois já sabiam onde ele estava.


Na verdade, nesses trabalhos, a certeza também é uma dúvida. Mas a probabilidade de gerar 80% de objetividade é viável. A Inteligência da Polícia Civil é outro exemplo fantástico, pois auxilia na tomada de decisões, por meio daquilo que é coletado acerca de um evento detectado. Quando os recursos são escassos, o jeito é distribuí-los de tal forma que a missão não seja prejudicada, mas de uma maneira que os esforços reduzam as chances de um fracasso, sem que os policiais sejam sobrecarregados.


Não é simplesmente enviar sem um planejamento. Não se esqueçam do que “Locke” disse a Sawyer. A forma como o líder pensa vai determinar a forma como os liderados agirão. Um “erro crasso” pode ser fatal. A satisfação de cada policial em “vestir a farda” está diretamente relacionada à qualidade do serviço feito. O sentimento de tristeza pode ser provocado pela desvalorização no trabalho.


O trabalho está distribuído nos 90% do nosso tempo, que também contém a família, os amigos, os estudos, as viagens, a igreja, enfim. Portanto, essa parcela do nosso cotidiano é essencial para nossa felicidade.

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© 2019 por Nelson Melo.